Pela primeira vez na história a seleção de Zâmbia sagrou-se, neste domingo (12), campeã da Copa das Nações Africanas, disputada em 2012 no Gabão. Com jogadores considerados modestos, apenas um deles atua no futebol europeu, os “Balas de Prata” surpreenderam o mundo ao vencerem nos pênaltis, por 8 a 7 (0 a 0 no tempo normal e prorrogação), a badalada seleção de Costa do Marfim, neste dia histórico para o país do sul da África. Nas semifinais do torneio, Zâmbia já havia batido a seleção de Gana, também cotada ao título, por 1 a 0.

Numa partida repleta de emoções e atenuantes, dentro e fora do campo, a festa do futebol falou mais alto e aqueles que assistiram à partida puderam acompanhar um verdadeiro show de emoção. Orações e cantos típicos por parte dos jogadores de Zâmbia, a esperança de uma geração de ouro no lado da Costa do Marfim, além das lembranças de uma tragédia, tudo em jogo durante os mais de 120 minutos de pura adrenalina.

O peso da estrela

Carregar o status de principal nome da Costa do Marfim pesou para Didier Drogba, por exemplo. Ele perdeu um pênalti no tempo normal da partida, assim como aconteceu na final de 2006, quando os elefantes fracassaram diante à seleção do Egito. Com a derrota de hoje, o capitão marfinense e o restante do elenco, recheado de astros, continuam sem um título conquistado, o que já pode ser considerado uma decepção para esta geração de estrelas.

Não menos conhecido no futebol mundial, o atacante Gervinho, jogador do Arsenal, foi quem perdeu o quinto pênalti batido pela Costa do Marfim, nas séries alternadas, deixando sua seleção sem o título, já que instantes depois, mesmo escorregando, o batedor de Zâmbia não desperdiçou. A tristeza dos marfinenses, que durante anos viram seu país parar uma Guerra Civil apenas quando a bola redonda rolava, era nítida. Craques como Drogba e Kolou Touré sucumbiram às lágrimas. Eles sabem que a idade está chegando e o sonhado título, que não vem desde 1992, se afasta cada dia mais.

Memórias e emoção

O azarão levou. Pela primeira vez na história Zâmbia se torna campeã da principal competição africana de seleções. Isso quase 19 anos depois de uma tragédia que abalou o país. Em 1993, 18 jogadores morreram em uma explosão área, no avião que levava o time à disputa das Eliminatórias da Copa do Mundo de 1994. Um detalhe é que o acidente aconteceu na mesma cidade da partida disputada hoje: Libreville, no Gabão. Tanto que, uma das faixas da torcida de Zâmbia durante a final tinha a seguinte frase: “1993! Joguem por eles!”.

Durante a partida, não apenas os 11 milhões de zambianos se emocionaram com a dedicação de seus jogadores. O estádio inteiro estava ao lado do time do sul da África. No momento dos pênaltis, os cantos e orações dos jogadores, sem parar um minuto sequer, deixavam apreensivos até aqueles mais turrões. Em meio a isso, tudo conspirava para que a história fosse feita neste domingo. Um time com o enredo para marcar época. Seu principal jogador, o atacanteEmmanuel Mayuka, de 21 anos,atua “apenas” na 1° divisão da Suíça. O restante dos jogadores, raras as excessões, são profissionais ainda buscando seu espaço, tudo isso em um país que sofre com a miséria devido a sérios problemas econômicos.

Os campeões

Nos 90 minutos, Zâmbia se superou para igualar a superioridade técnica do rival. Já durante a prorrogação, o melhor jogador do dia e da competição, o atacante Katongo, teve a oportunidade de se tornar herói, mas o destino quis que o jogo não tivesse apenas um, mas vários. A chance desperdiçada por Katongo, que acertou um chute na trave, apenas adiou uma festa inevitável.

Penalti vai penalti vem, até que Kolou Touré desperdiça pela Costa do Marfim. Todos no estádio pensam, agora é a hora. Mas para que, se ainda pode ser mais emocionante? Zâmbia perde a cobrança seguinte e tudo permanece igual.

Então é a vez de Gervinho pelos elefantes. Ele pega mal na bola e isola. A chance de título inédito estava agora nos pés de Sunzu. Com cara de garoto, o “mirradinho” foi bater o último penalti, representando naquele momento uma nação. Ele escorrega, mas a bola entra, a África tem um novo campeão, em uma festa que só o esporte é capaz de proporcionar.

Exemplos

Técnico de Zâmbia foi ovacionado pelos jogadores

E em um mundo repleto de atitudes racistas, até mesmo em se tratando de futebol, como visto no fim de semana no Campeonato Inglês, no episódio Suarez/Evra, o técnico francês Hervé Renard, loiro de olhos claros, foi carregado e ovacionado pelos atletas de Zâmbia, todos negros. Ele também dançou as músicas tradicionais do país africano, juntamente com os jogadores, que já podem ser considerados heróis. Um dos craques, hoje podemos chamá-lo assim, que se machucou durante a partida, foi carregado no colo pelo treinador para o momento de oração, mostrando a união de todos, independente de cor e raça.

Depois de 16 anos, um país do sul da África conquista a Copa das Nações Africanas, a última seleção havia sido a África do Sul, em 1996. Um campeão inesperado, um azarão no topo, coisas que apenas o futebol proporciona. Vai ser difícil um jogo na história se comparar ao que foi visto dentro e fora de campo, neste domingo de chuva, no Gabão. Felizes aqueles que acompanharam.

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