Obstetra é especialista em Saúde Fetal. Foto: Arquivo/Divulgação

Defensor da ideia de que o bebê deve decidir a hora de vir ao mundo, o ginecologista e obstetra Wagner Aparecido Barbosa Dias já realizou 5.715 partos, a grande maioria delas em Curitiba, onde nascem todos os anos aproximadamente 25 mil bebês. A forma de trabalhar do médico, que este ano completou 25 anos de formado, vai na contramão de muitos profissionais da área, que optam pelas cesarianas agendadas para evitar sustos ou correrias “fora de hora”.

“Antecipar o nascimento do bebê é interromper o seu desenvolvimento na fase intrauterina”, explica Dias, que, com esse discurso, busca aconselhar as pacientes mais ansiosas. O obstetra, que realiza partos desde os primeiros anos da faculdade – num total de quase 30 anos partejando –, destaca que essa forma de trabalhar é resultado da experiência acumulada ao longo do tempo, ao constatar a importância de se respeitar a maturidade gestacional para reduzir os riscos à mãe e ao recém-nascido.

Segundo ele, a partir dessa diretriz de trabalho, não é raro ocorrerem partos normais com mães que tinham optado pela cesárea. “Eu respeito a vontade da gestante e o que ela decidiu em seu plano de parto. Mas, desde a primeira consulta, deixo muito claro que só vou realizar o parto quando estiver no momento certo para evitar colocar em risco a saúde da criança e da mãe”, enfatiza o obstetra.

Diretriz internacional

A postura do médico está em consonância com as diretrizes do programa Rede Cegonha, do Ministério da Saúde, e de organismos internacionais de saúde, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas).

No início deste ano, a OMS lançou a publicação WHO recommendations – Intrapartum care for a positive childbirth experience (Recomendações da OMS – Cuidados intraparto para uma experiência de parto positiva). No documento, a entidade destaca que nas duas últimas décadas vem ocorrendo uma série de práticas com o objetivo de iniciar, acelerar, terminar, regular ou monitorar o processo fisiológico do parto. Para a OMS, esse aumento da medicalização dos processos de parto tende a minar a própria capacidade da mulher dar à luz e afeta negativamente a sua experiência de parto.

“A maioria das gestações evoluem sem complicações. Durante o pré-natal, o papel do obstetra é o de monitorar a saúde da mãe e do bebê, mas também apresentar todas as informações para que, na hora do nascimento da criança, essa mãe esteja segura e preparada física e psicologicamente para essa nova fase de sua vida”, esclarece Dias.

Dias conta que algumas experiências que acumulou, como quando assumiu a função de coordenador do Programa Mãe Curitibana, na presidência do Comitê Pró vida – responsável pela avaliação e monitoramento de todos os óbitos maternos e infantis em Curitiba – , o fizeram aprimorar e refletir sobre o papel do obstetra durante o parto. “Parir é um processo natural e transformador na vida de qualquer mulher. O médico precisa entender e valorizar a grandiosidade desse momento”, enfatiza o médico, que tem na memória várias histórias que reforçam a importância dessa atitude.

Lembranças

Numa dessas lembranças, Dias relembra um caso ocorrido em meados da década de 90, quando uma mulher com 28 semanas de gestação chegou ao hospital com suspeita de estar sem o líquido amniótico. O normal é que os nascimentos ocorram quando a gestante está entre 38 e 42 semanas de gestação, mas a ausência do líquido poderia comprometer a vida do bebê. “A indicação era a de fazer o parto, mas seria um grande risco e as chances de o bebê sobreviver eram de menos de 20% naquela época. Era um dia de plantão com inúmeras ocorrências. Mas durante a conversa com a gestante ela me contou que tinha tomado anti-inflamatório e isso diminui o líquido amniótico. Conversei com o responsável pela Enfermaria da Obstetrícia alegando que achava inadequado fazer o parto naquele momento. Foi a decisão mais acertada. Após alguns dias, o líquido voltou ao normal e o bebê nasceu saudável, de parto normal, com 39 semanas”, relata.

Wagner Aparecido Barbosa Dias nasceu em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul, mas adotou Curitiba como sua cidade desde que ingressou no curso de Medicina na Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde se formou em 1993. Fez residência médica no Hospital de Clínicas da UFPR e é especializado em Gestação Alto Risco, Ultrassonografia em Medicina Fetal e Saúde Coletiva.

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