A Praça Vermelha, em Moscou e os símbolos das duas forças religiosas da Rússia: o ortodoxismo e o islamismo

A Praça Vermelha, em Moscou e os símbolos das duas forças religiosas da Rússia: o ortodoxismo e o islamismo

Estavam errados todos os que proclamaram a morte da religião (e espiritualidade), anunciando ser essa “uma realidade que fatalmente viria com o avanço científico e tecnológico”. Nem Emile Durkheim, o pai da sociologia, responsável por estudos icônicos sobre o tema –como Formas Elementares de Vida Religiosa – chegou a arriscar a tanto.

O que acontece, sim, é um esgarçamento das religiões oficiosas e/ou oficiais, que foram dando espaço a outras manifestações de espírito religioso. Ou dando margem a fortes explicitações de espiritualidade em novas atmosferas e com novos elementos simbólicos. Como, por exemplo, o sagrado permeando, como acontece nesta Copa do Mundo, o mundo do esporte, e o “soccer”, de maneira muito especial. São expressões espirituais que não priorizam igrejas.

O MÁGICO JOGADOR

Na condição de observador, jamais um apaixonado por futebol, fui colhendo algumas manifestações do sagrado no começo, meio e final de poucas partidas da Copa da Rússia. Por exemplo: o mágico jogador belga Lakaku não deixou de se ajoelhar e rezar contritamente ao final das partidas em que atuou (e muito bem, dizem).

Neymar, membro de uma das igrejas batistas de São Paulo – e outrora seu maior dizimista -, também achou tempo, em meio às pantomimas de cai e levanta, para erguer mãos aos céus em sinal de graças. Vi também holandeses de raízes milenares, fazerem o sinal da cruz, assim como essa manifestação registrei até em jogadores suecos.

OS PENTECOSTAIS

No entanto, o que mais me impressionou foi o vigor com que familiares de jogadores brasileiros se juntaram na Rússia para ministrar cultos pentecostais. Alguns deles foram dirigidos por uma pastora, mãe de um dos jogadores (acho que Tiago Silva), presentes dezenas de familiares de atletas. Em comum, além da fé cristã, essa gente mostrou suas raízes muito populares (agora endinheirados pelos filhos). E assim explicitando o avanço pentecostal nas camadas mais despossuídas da população, fato irreversível. Trata-se de um povo que até anos atrás talvez tivesse vivendo um catolicismo popular, com São Jorge e etc., por exemplo, e que hoje aderiu à Teologia da Prosperidade de Crivella, Edir Macedo e outros líderes.

OS “ORIUNDI”

Tite e Luiz Felipe Scolari: devoção

Tite e Luiz Felipe Scolari: devoção

Se do Rio Grande do Sul têm surgido grandes técnicos de futebol, pelo menos dois deles são oriundi – descendentes de italianos da região da Caxias do Sul, Luiz Felipe Scolari e Tite. E catolicíssimos.

Os dois fazem parte de um Brasil de outrora, permeado pelo catolicismo de conotação mais popular: muitos santos, muitas devoções, pouca doutrina, ardoroso espírito mariano. Scolari, como bom “italiano” do RS, não esconde sua devoção a Maria, na invocação de Nossa Senhora de Caravaggio, além da reza do terço e, sim, assistência à missa.

Tite explicita suas crenças: o terço na mão, boa parte do tempo. Por vezes, exagerando, persignando-se por 3 vezes seguidas, um gesto que pode também indicar o mix religioso do brasileiro.

O ‘grande espetáculo de fé’ ficou por conta de Maradona e sua Nossa Senhora de Lujan, seus gritos de que Deus “está com a Argentina”. Isso sem contar que as tomadas de câmeras de televisão testemunharam várias imagens de santos “cobertas” por camisas da seleção portenha.

Arnold Toynbee: fim da Civilização Ocidental Cristã?

Arnold Toynbee: fim da Civilização Ocidental Cristã?

Enfim, nada mau num país enorme, a Rússia, em que muçulmanos e ortodoxos predominam. E vivem em paz. E cujo presidente, o kaiser Putin, acende todas as velas a que tem direito à Igreja Ortodoxa Russa, ainda vista como um dos identificadores da Nação.

Tudo isso registro para também lembrar de um professor meu de História que, no final dos 1960, na faculdade, proclamava-se admirador de Toynbee porque o historiador, certo, previra uma certa iminência para o fim da civilização Ocidental e cristã. Mas, esquecia de dizer, que Toynbee acentuava fortemente a importância do fenômeno religioso no estudo da História do Homem.

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