Carlos Eduardo Zimmermann: técnica preciosa

Se fosse um pop star da televisão, artista de novela, cantor do rock ou jogador de futebol de fama, o artista plástico Carlos Eduardo Zimmermann, 65, teria sua morte, que foi descoberta nesta segunda, chorada e gritada pelos meios de comunicação, com as tradicionais declarações de políticos e autoridades. E com a tietagem devida, espalhafatosa, maçante.

Não. A morte de um dos mais importantes artistas plásticos que o Paraná gerou no século 20 quase entrou na “vala comum”, salvos alguns registros em blogs ou espaços culturais de pouca leitura (quem lê sobre temas culturais, senão uma minoria exigente num Brasil de desempregados, de analfabetos funcionais, país desmoralizado pelos seus maiores?).

 

O ANJO DA MORTE

Soube da morte de Zimmermann pelo professor universitário Antonio Felipe Wouk, 63, irmão de Bia Wouk. Esta o informou, de Brasília, do passamento do artista que ocorrera em Curitiba.

O corpo de Zimmermann foi encontrado por um seu funcionário, de manhã, nesta segunda, 4, caído ao lado de uma escada, na casa de Carlos Eduardo, Parque Barigui.

Como vivia nos últimos anos muito recluso, Zimmermann pode ter morrido a partir de sexta-feira, quando teria sido visto pela última vez.

 

ASSIM COMEÇOU

Minha admiração por Zimmermann não é pouca.

Bia Wouk: parceira na caminhada artística

Bia Wouk: parceira na caminhada artística

Acompanhei o seu desabrochar (seria o termo certo?) para as artes plásticas em nível então semiprofissional quando acolhia a primeira exposição que ele e Bia fizeram na Galeria de Arte do Centro Cultural Brasil-Estados Unidos (Rua Amintas de Barros), em 1972.

Eram tempos que o CCBEU tinha a direção da fantástica mulher Layla Cury.

Eu pertencia ao conselho administrativo e selecionador da Galeria do CCBEU, com Ennio Marques Ferreira, Eliane Prolik e outros.

 

LEVEI UM SUSTO

Zimmermann e Bia me “assustaram”: não esperava ver trabalhos de desenhos e pinturas com tanta técnica a serviço de uma sensibilidade jovem. Os dois tinham plena noção do que deveriam fazer em artes visuais, sobretudo se voltando ao amplo mundo do exterior que reclamava olhar contemporâneo e novas técnicas a quem se habilitava a mostrar sua obra – seu grito de inconformismo até – a um universo que indicava enormes mudanças. A Internet, por exemplo, começava a mostrar-se no Brasil, tímida, devagar. Mas prenunciava uma revolução.

 

MÉDICO EM LONDRES

Na Bienal de São Paulo, de 1973 e 1975, Zimmermann foi aceito com seus paradigmáticos envelopes (tenho dois originais deles). A surpresa maior viria 3 anos depois, quando, em 1978, já formado médico, conseguiria bolsa para estudar por dois anos no Royal College of Arts de Londres. Medicina parece ter sido mero cumprimento de voto aos pais. O que lhe interessava mesmo era viver ful time de sua arte.

 

OS FELIZARDOS

Venturosos os que souberam acolher em suas pinacotecas, em casa ou em empresa ou instituições culturais os trabalhos de Zimmermann. Eles valem pela preciosidade com que identificam parte da vida de alguém que, para encurtar respostas a indagações tipo “porque começou a pintar?”, saía-se com esta: “Artes plásticas para mim cumprem um destino”. E estava falando a verdade. Ele acreditava no ‘maktub’, mas nunca deixou de sofrer por seus projetos.

Honesto, Carlos Eduardo Zimmermann (personagem de meu livro Vozes do Paraná 1), dava crédito ao autor da frase de que parcialmente se apropriara –, o grande Cézanne.

Salve o Zimmermann e sua caminhada para outras paragens, nas quais ele acreditava e das quais se alimentava.

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