Uma professora umbandista da rede municipal de ensino de Curitiba foi agredida na entrada de casa, um apartamento no bairro Sítio Cercado, no último domingo (17). Ela entrou em contato com a Banda B para denunciar o episódio de intolerância religiosa, que teria sido cometido por vizinhos.
Durante a entrevista, a vítima desabafou sobre a perseguição que vive por ser da religião de matriz africana e afirmou que, atualmente, usa medicamentos para poder conseguir ficar no imóvel onde vive. Local que, após o ato de violência, já não considera mais seguro.

De acordo com a mulher, que não será identificada nesta reportagem, quem a atacou foi uma vizinha de porta. No último domingo (17), buscando aproveitar o dia ensolarado, ela havia saído do apartamento para passear com o casal de cachorros. No entanto, ao abrir a porta de casa, a professora relatou que já foi surpreendida pela suspeita com gritos.
Esta senhora abriu a porta dela e gritou: “Queima”. Depois, fechou a porta. Eu desci com os meus cachorros, olhei para ela, mas fiquei com o coração apertado. Cheguei até comentar com o porteiro, disse que estava com medo de algo que poderia acontecer. Expliquei que era umbandista e estava sendo perseguida. O porteiro falou que qualquer coisa era para chamá-lo.
professora umbandista, vítima de agressões em Curitiba.
O passeio durou pouco tempo. Cerca de cinco minutos depois, a professora pontuou que voltou para casa. Quando chegou na porta, novamente, os vizinhos teriam a surpreendido com gritos e ameaças. A suspeita das agressões teria dito: “Queima, satanás”.
Neste momento, conforme expôs a vítima, houve uma breve discussão entre as duas e, posteriormente, a vizinha teria aplicado os golpes.
Neste momento, eu questionei: “Escutem, vocês sabem que discriminação religiosa é crime”. Então, esta menina, que deferiu o soco em mim, falou: “Vamos ver se é crime mesmo”; e já veio me dando os socos. Nisto, a minha filha apareceu e tentou me ajudar. Ela foi lá e bateu na minha filha. (…) O soco que ela me deu fez sangue “jorrar” para todos os lados. Eles trincaram o meu nariz. A mãe da mulher que me agrediu dava risada. A outra filha que ela tem, também. E ainda disseram: “Vai ter mais”.
professora umbandista, vítima de agressões em Curitiba.
A vítima das agressões chamou a Polícia Militar (PM), que logo chegou com uma equipe ao apartamento no bairro Sítio Cercado. A mulher, autora das agressões, teria fugido logo em seguida.
Professora diz que sofre intolerância religiosa há muitos anos em Curitiba
O apartamento da professora contém elementos ligados à Umbanda. No chão, logo na entrada, de acordo com a professora, há um tapete com um ponto de Exu; na porta, há uma espada de Ogum, que busca trazer proteção. Ela contou que os vizinhos sabem de sua ligação à religião de matriz africana há muitos anos, mas não respeitam.
Eles passavam e diziam: “Eu tenho nojo deste apartamento do satanás”. Eles gritavam: “Não pise aqui”, “macumba”; e chutavam o meu tapetinho. (…) Eles passavam pela minha porta com as crianças, que são netos desta senhora e filhos desta mulher que me agrediu. Passavam e diziam: “Não pisa aí que é macumba”. A gente saía e eles gritavam da janela: “Queima”.
professora umbandista, vítima de agressões em Curitiba.
A intolerância religiosa é crime no Brasil. Muitas leis asseguram a liberdade de culto e proteção à Fé em todo o país. O artigo 5º da Constituição Federal de 1988 aponta que:
(…) é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias.
artigo 5º da Constituição Federal de 1988.
O artigo 208 do Código Penal Brasileiro estabelece que é crime:
(…) escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso.
artigo 208 do Código Penal Brasileiro.
A mulher pediu respeito.
É um absurdo. A gente precisa parar com isto, chega. As pessoas são agredidas porque são negras; porque possuem uma opinião diferente; porque possuem uma religião diferente. Onde nós vamos parar?! Temos que ter respeito. Pelo amor de Deus, respeito. Podemos ter nossas diferenças, mas nossas diferenças tem que ser tratadas com muito respeito. (…) Até onde, meu Deus, tenho que esconder que sou umbandista. Temos que por um fim nisto. Chega de violência, chega.
professora umbandista, vítima de agressões em Curitiba.
A vítima das agressões realizou o boletim de ocorrência (BO) e a Polícia Civil investiga o caso.
Eu estou afastada do meu trabalho porque não tenho condições físicas e psicológicas. Estou com o meu rosto machucado. Estou tomando medicamento, remédio, para conseguir dormir. Remédio para conseguir entrar dentro da minha casa, local onde deveria ser seguro para mim e não é mais.
professora umbandista, vítima de agressões em Curitiba.
Espaço Banda B – Polícia Civil
Em nota, a Polícia Civil afirmou que:
A PCPR está investigando o caso e realizando diligências para esclarecer o fato. Oitivas serão realizadas a fim de auxiliar no andamento das diligências.
Polícia Civil.
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