O Skank, grupo mineiro formado em 1991 na cidade de Belo Horizonte (MG), forma uma nota dissonante na história da música popular brasileira. Um som que ultrapassou gerações e que alcançou um sucesso muito superior aos seus companheiros do mesmo período.

E foi justamente essa mistura geracional que estava presente em Curitiba no White Hall Jockey Eventos. A despedida do Skank dos palcos curitibanos enfrentou um tempo instável na noite deste sábado (4), mas nada comparável à vontade do público em participar desse momento de intensa celebração.

Foto: Ernani Ogata/Banda B.

O grupo formado por Samuel Rosa (vocal, guitarra e violão), Haroldo Ferretti (bateria), Henrique Portugal (teclados, vocal de apoio e violão) e Lelo Zanetti (baixo e vocal de apoio) realizou um show com mais de 2 horas e 30 minutos, recheado de hits e com a mesma energia dos espetáculos do início de carreira.

O início

O Skank surgiu na esteira da renovação do rock nacional, um tanto quanto cambaleante desde o início dos anos 90. Após a explosão do chamado BRock, na década de 80, com grupos como Os Paralamas do Sucesso, Titãs, Legião Urbana, Kid Abelha e Ira!, o gênero entrou em baixa na década seguinte.

Tudo isso, em partes, por conta da ressaca financeira proporcionada pelo governo Collor mas, principalmente, pela explosão de dois estilos musicais que dominariam aquele período: a música sertaneja e o axé.

Enquanto a crítica musical decretava o “fim do rock brasileiro”, ou uma suposta crise do gênero, o estilo, antes concentrado em São Paulo, Rio e Brasília, começou a criar raízes em outros estados. De Minas Gerais, tivemos Skank e Pato Fu. De Recife, a mente inigualável de Chico Science, em união com a explosiva Nação Zumbi.

É verdade que, nos anos 80, tivemos os Engenheiros do Hawaii, oriundos da cena gaúcha e, nos anos 90, a consolidação da força de Brasília, através dos Raimundos, denotando novas possibilidades sonoras. Mas a retomada do rock como gênero favorito da juventude só se deu na nova década com o sucesso alcançado por Skank.

Começando timidamente com o álbum homônimo, lançado em 1992, o Skank chegou a tocar, consideravelmente, nas principais rádios rock do país, alcançando um suave destaque em rádios mais populares, com as canções In(Dig)Nação e O Homem que Sabia Demais.

A explosão

De olho em novos talentos, a gravadora Sony percebeu o potencial dos rapazes e relançou o trabalho em meados de 1993, emplacando O Homem que Sabia Demais em uma trilha de novela global.

Mas a explosão mesmo só veio a partir do álbum “Calango”, lançado em outubro de 1994, e que se tornou um verdadeiro “greatest hits” da banda, com sucessos como Jackie Tequila, Te Ver, Pacato Cidadão, O Beijo e a Reza, Amolação, Esmola e a regravação de É Proibido Fumar, de Roberto e Erasmo Carlos.

O resultado? 1 milhão e 200 mil cópias vendidas, bem mais que as 250 mil do disco anterior. Somado a isso, uma turnê vitoriosa, que lotou casas de shows e estádios por todo o Brasil, incluindo diversos espaços de Curitiba, como o finado Aeroanta, relembrado com carinho por Samuel no show de despedida.

Após Calango, veio O Samba Poconé, cuja vendagem beirou 2 milhões de cópias, gerando dois hits imortais do grupo: Garota Nacional e É Uma Partida de Futebol. Não tinha para ninguém: mesmo com a explosão do sertanejo e do axé, ainda tinha espaço para o rock nacional no coração dos brasileiros.

Foto: Ernani Ogata/Banda B.

A consolidação

Porém, como todo grupo que se preze, o Skank não se contentava apenas em continuar com a bem dosada mistura de rock, dancehall e ska.

Começaram a flertar com o rock britânico e o folk rock, atingindo a maioridade enquanto grupo musical, e fazendo ponte com outros artistas do cancioneiro nacional, como Arnaldo Antunes, Nando Reis, Lô Borges, Fausto Fawcett e Negra Li.

Foi daí que surgiram duas grandes obras-primas da MPB do novo milênio: Maquinarama e Cosmotron. Se os dois trabalhos simbolizavam uma ruptura com o lado mais popular do grupo, permitiram ao Skank a consolidação de canções que, até hoje, vigoram entre as melhores composições das últimas duas décadas.

Destacam-se, nesse período, Balada do Amor Inabalável, Dois Rios e Vou Deixar, um hit só comparável aos dois grandes sucessos oriundos de O Samba Poconé.

Um fato louvável é que, mesmo com toda a experimentação praticada nos trabalhos recentes, não era difícil encontrar uma música do Skank entre as mais tocadas nas rádios, no período que compreende o estouro do sertanejo universitário e do funk.

Para um grupo surgido na década de 90 se manter com a popularidade em alta nas rádios e nos serviços de streaming, em meio a todas as mudanças sonoras e tecnológicas das últimas décadas, não é pouca coisa.

O show

E foi isso o que despontou como maior destaque, entre as 31 canções entoadas pelo Skank no show de despedida da capital paranaense. O público presente estava disposto a se divertir e participar de uma grande festa, percepção essa abraçada pelo grupo desde os primeiros acordes.

Nenhum dos álbuns do grupo foi esquecido, mas ficou clara a predileção por Calango, disco esse que o próprio Samuel Rosa, em determinado momento do show, explicitou, dizendo que foi um trabalho abraçado, de forma “calorosa”, pelo público paranaense. Foram cerca de 7 canções executadas, de um total de 11 presentes no disco.

Foto: Ernani Ogata/Banda B.

Teve espaço até para um cover dos Beatles, grande inspiração de toda a carreira do Skank. Entoada à capela, Let It Be mexeu com os ânimos do público, resultando em um belo momento do show.

Em resumo, o último show do Skank em Curitiba fez jus à relação do grupo mineiro com o público da cidade, resultando em um espetáculo que ultrapassou todas as expectativas dos fãs presentes.

Setlist do último show do Skank:

  • Dois Rios
  • É Uma Partida de Futebol
  • Esmola
  • Pacato Cidadão
  • Uma Canção é pra Isso
  • É Proibido Fumar (cover de Roberto Carlos)
  • Saideira
  • Canção Noturna
  • Ainda Gosto Dela
  • Amores Imperfeitos
  • Balada do Amor Inabalável
  • Ela Me Deixou
  • Jackie Tequila
  • Te Ver
  • Acima do Sol
  • O Beijo e a Reza
  • Três Lados
  • Vou Deixar
  • Garota Nacional
  • Estivador (à capella)
  • Mandrake e os Cubanos
  • Esquecimento
  • Sutilmente
  • Algo Parecido
  • Vamos Fugir (cover de Gilberto Gil)
  • BIS:
  • Let It Be (cover de The Beatles)
  • Resposta
  • Ali
  • Mil Acasos
  • Tanto (I Want You)
  • Tão Seu

Veja alguns vídeos do último show do Skank em Curitiba:

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