Da BBC Brasil
Em 2014, a Estação Espacial Internacional (ISS) teve de mudar de lugar três vezes para escapar de pedaços letais de detritos espaciais, que também ameaçam satélites cruciais ─ e caros ─ atualmente em órbita. Mas, qual é o real tamanho do problema do lixo espacial, e o que podemos fazer a respeito?
Quarente e cinco anos atrás, Ernst Stuhlinger, então membro da diretoria de ciência no Centro de Voo Espacial Marshall, da Nasa (agência espacial americana), foi questionado por Mary Jucunda, uma freira baseada na Zâmbia, sobre por que gastar bilhões de dólares em voos espaciais enquanto muitas crianças passam fome na Terra. A resposta de Stuhlinger é, ainda hoje, uma poderosa justificativa para os custos associados às pesquisas espaciais.
“Certamente não é por acaso que começamos a ver enormes tarefas esperando por nós em uma época na qual a jovem era espacial nos forneceu o primeiro bom olhar sobre nosso próprio planeta”, afirmou.
(Foto: Reprodução BBC Brasil)“Felizmente a era especial não só mostra um espelho com o qual podemos ver nós mesmos, mas fornece também as tecnologias, o desafio, a motivação e até mesmo o otimismo para assumir essas tarefas com confiança.”
Desde então, a evolução da infraestrutura espacial vem colaborando para combater problemas globais de saúde, fome, pobreza, educação, segurança elétrica, mudança climática e a reduzir riscos de desastres. Sendo assim, não há dúvida de que a humanidade está usando o “espelho” de Stuhlinger para enfrentar muitos dos seus principais desafios.
Infelizmente, o ambiente espacial também tem sido afetado pelos efeitos de uma dependência cada vez maior de satélites e da antiga crença de que “o espaço é grande”. Os mais de 5 mil lançamentos desde o início da era espacial, cada um deles levando satélites para observação do planeta ou comunicações, por exemplo, fizeram a órbita terrestre se tornar cada vez mais congestionada e disputada.
Neste momento, a Rede de Vigilância Espacial dos EUA está mapeando dezenas de milhares de objetos maiores que uma bola de tênis orbitando sobre nós. A suspeita é de que existam 100 milhões de detritos com tamanho superior a um milímetro.
Como orbitam muito rápido (27 mil mph), cada um desses objetos tem potencial para danificar ou destruir os satélites dos quais tanto dependemos. EUA mantêm uma série de sensores, como este telescópio no Havaí, que monitoram detritos
Conjunção vermelha
Provavelmente, os sintomas mais visíveis do problema do lixo espacial são as regulares manobras realizadas pela Estação Espacial Internacional para evitar colisões e o alarmante aumento no número de vezes em que seus ocupantes precisam buscar proteção porque um detrito foi detectado tarde demais para escapar dele.
Os sistemas da ISS responsáveis por recursos vitais aos astronautas são também sua principal vulnerabilidade em caso de impacto com o lixo espacial ─ um módulo pressurizado em um vácuo pode se comportar como um balão se furado.
A recente “conjunção vermelha” (quando um detrito chega tão perto que passa a ser uma ameaça para a estação espacial) envolvendo um fragmento de um satélite russo, em 17 de julho, foi outra demonstração do aumento dos riscos causados pelo lixo espacial.
Graças ao filme Gravidade, que rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz a Sandra Bullock, podemos agora imaginar a apreensão que deve ser sentida pelos astronautas a bordo da Estação Espacial Internacional quando recebem um alerta de “conjunção vermelha”.
Apesar dessas ocorrências, a estação orbita hoje em uma altitude na qual o número de detritos é relativamente pequeno.
Em altitudes maiores, a quantidade de lixo espacial cresce substancialmente, embora apenas naves robóticas estejam expostas por lá. Estão nessa condição, porém, alguns dos satélites mais importantes para entender nosso planeta.
Por causa desse congestionamento, cresce a possibilidade de o lixo espacial se tornar autossustentável. Isso porque mais detritos podem ser criados por colisões do que removidos pela queda natural, ou seja, ao serem arrastados pela atmosfera.
Já tivemos experiências assim: em fevereiro de 2009, dois satélites relativamente pequenos colidiram sobre a Sibéria, criando cerca de 2 mil novos fragmentos que puderam ser rastreados. Muitos deles orbitam até hoje e regularmente passam perto de outros satélites.
Pequenos satélites são o futuro?
No contexto do avanço do problema dos detritos está uma espécie de renovação. O que era um domínio principalmente de governos e agências espaciais, com seus grandes e multibilionários satélites, agora começa a ser alvo de uma indústria emergente que está revolucionando o uso do espaço.
Companhias pequenas e startups, em particular, estão mostrando que poucos recursos não necessariamente significam pequenas ambições. Um exemplo é Planet Labs, de San Francisco, nos EUA, que está usando “cubesats” ─ acrônimo que junta as palavras “cube” (cubo) e “satellite” (satélite) ─ para redefinir o mercado de imagens da Terra.
Seus satélites Dove (pombo, em tradução livre do inglês) são menores que uma pasta de documentos e têm a capacidade de produzir imagens em alta resolução do planeta para múltiplos propósitos.
Com os planos de outras empresas, como SpaceX e OneWeb, de desenvolver uma grande constelação de pequenos satélites de baixo custo, há uma certa preocupação entre as agências espaciais sobre as consequências a longo prazo da onipresente e rápida comercialização do espaço.
O receio maior está, em particular, no abrupto crescimento do número de satélites na órbita a Terra, o que pode aumentar substancialmente a necessidade de manobras para evitar colisões e acelerar o início da síndrome de Kessler.
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