Em média, o Paraná registrou nos últimos quatro anos 5.476 casos de violência sexual contra crianças e adolescentes de acordo com dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública. Este ano, até o mês de março, foram contabilizados no estado 1.313 casos entre estupro (crime mais comum), atentado violento ao pudor, ato obsceno, pornografia infantil e prostituição.

Nesta quarta-feira (18), é Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. A data foi criada para conscientizar e mobilizar a sociedade sobre o papel de todos no enfrentamento a esse grave problema.
No ano passado, o Hospital Pequeno Príncipe (HPP), em Curitiba, atendeu 618 crianças e adolescentes vítimas de violência sexual, física, psicológica, negligência ou autoagressão. O número representa um aumento de 11% em relação a 2020.
A maioria dos casos é de crianças que sofreram violência sexual. Ao todo, foram 344 vítimas, ou seja, 55% do total. Segundo o hospital, em 76 ocorrências não foi a primeira vez.
De acordo com o psicólogo do HPP, Bruno Mader, quem deveria proteger acaba sendo o vilão, porque grande parte dos registros acontece dentro de casa.
“A violência sexual intrafamiliar é uma coisa muito difícil, porque muitas vezes quando a criança sofre, especialmente as meninas, elas contam em casa e a família não acredita. A menina diz ‘o tio tal ou tal pessoa da família fez isso comigo’ e a família fala ‘você está inventando’. Esse tipo de coisa causa um segundo trauma. De forma geral, é bem importante que quando a criança diga que sofreu a gente ouça com muita atenção”, explicou.
Do total de casos no Hospital Pequeno Príncipe, 136 meninas e meninos precisaram ser hospitalizados para se recuperar das lesões sofridas ou para ser retirados da convivência familiar, até que os órgãos de defesa da infância tomassem as medidas protetivas cabíveis.
Um bebê, de apenas 4 meses, entrou em protocolo de morte cerebral após chegar à instituição com várias fraturas e traumatismo cranioencefálico. Um dado alarmante é com relação à pouca idade das crianças submetidas a situações violentas atendidas no ano passado: 282 tinham até 3 anos.
Nos casos de violência sexual, a grande maioria das crianças atendidas pelo Hospital Pequeno Príncipe que foram submetidas a alguma situação violenta é menina – 78% do total. A faixa de idade com mais casos registrados, do sexo feminino, é entre 4 e 7 anos, com 107 ocorrências. No sexo masculino, os registros de violência sexual concentram-se entre 5 meses e 3 anos – com 32 casos.
O especialista alerta que a violência nem sempre deixa marcas físicas, por isso é preciso ficar atento aos sinais psicológicos.
“A gente vai identificar a violência contra criança quando o comportamento dela mudar. Por exemplo, tem uma criança que ela é mais avoada, mais no mundo da lua, se essa criança começa a ficar mais isolada, mais triste, menos concentrada, piorar os sintomas, isso chama a atenção. Tem criança que é mais impulsiva mesmo. Aquele menino que é mais brigão, se ele passa a falar palavras de baixo calão, apresenta uma sexualidade que não é compatível com a idade, aí teremos sinais importantes de que alguma coisa está acontecendo com essa criança”, ressaltou.
Dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos apontam que apenas 10 em cada 100 casos de violência sexual contra crianças e adolescentes são denunciados.
“Muitas vezes ela vai ficar com vergonha de pedir ajuda. A violência contra criança é preciso ser denunciada, porque é uma pessoa que não dá conta de se proteger sozinha. E, quando está em um meio familiar e opressivo, talvez ela não consiga encontrar a saída”, reforçou.
Os casos podem ser denunciados diretamente na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente ou pelo Disque 100.
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