A HBO anunciou nesta segunda-feira (15) a produção de uma nova série documental de true crime que revisita o caso da médica Virgínia Soares de Souza, episódio que teve ampla repercussão nacional e internacional, além de ter marcado a história recente da medicina e da Justiça no Paraná.
Intitulada “O Caso da Doutora Morte”, a obra aborda as acusações que levaram à prisão da então chefe da UTI do Hospital Evangélico de Curitiba, acusada de antecipar a morte de pacientes internados na unidade.

A série vai contar com três episódios e reconstruirá os acontecimentos que cercaram o caso e a cobertura da imprensa à época. A narrativa se desenvolve a partir de duas perspectivas centrais: a da acusação e a da defesa.
O documentário acompanha a trajetória profissional da médica, o surgimento das denúncias e os desdobramentos do processo, reunindo depoimentos inéditos que evidenciam tensões, contradições e debates sobre ética médica, responsabilidade profissional e confiança no sistema de saúde, além de apontar fragilidades na condução do caso.
“O Caso da Doutora Morte” está em fase de gravação e ainda não tem data de estreia definida. A produção é uma coprodução da Conspiração com a Warner Bros. Discovery, com direção de Mini Kerti.
A direção de conteúdo é de Carol Albuquerque, e o roteiro é assinado por Arthur Warren, Thiago Amendoeira e Carol Albuquerque, com supervisão de Sergio Nakasone. A produção executiva é de Luisa Barbosa e Renata Brandão, pela Conspiração, e de Adriana Cechetti e Patricio Díaz, pela Warner Bros. Discovery.
O caso da médica
A médica Virgínia Soares de Souza, que chefiava a UTI do Hospital Evangélico de Curitiba, foi presa em fevereiro de 2013 sob a suspeita de antecipar a morte de pacientes, em um caso que provocou comoção nacional e internacional, além de longa disputa judicial e intensos debates sobre ética médica.
À época, policiais civis apreenderam mais de 1 mil prontuários médicos e documentos sobre internações e mortes de pacientes entre 2006 e 2013. No decorrer do processo, ela e outros funcionários do hospital foram denunciados por homicídio qualificado.

O Ministério Público do Paraná sustentou que, além da administração de medicamentos, haveria a redução deliberada dos parâmetros dos ventiladores mecânicos em pacientes que dependiam desse suporte, o que, segundo a acusação, provocaria a morte por asfixia.
Ao longo do processo, testemunhas relataram que circulava dentro do Hospital Evangélico o comentário de que Virgínia acelerava mortes para liberar leitos ocupados por pacientes com menores chances de sobrevivência.
Em 2017, a Justiça do Paraná inocentou a médica de algumas acusações por falta de provas, decisão que também incluiu outros profissionais que atuavam na UTI. O caso repercutiu em jornais internacionais como The New York Times, The Guardian, The Independent.
Em 2023, Virgínia Soares de Souza foi absolvida pelo Tribunal de Justiça do Paraná e decidiu não levá-la a júri popular. Durante a sessão, o relator Luís Carlos Xavier pediu para que o recurso não fosse acolhido, o que levaria o caso a júri. Ele concordou com a argumentação do Ministério Público do Paraná (MPPR) de que o júri seria o “juízo natural” para o caso.
Em abril deste ano, na decisão mais recente sobre o caso, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou algumas provas a pedido da defesa da médica. O colegiado entendeu que as provas (prontuários) apresentadas foram obtidas por meio de “pescaria probatória”, conceito que se refere à obtenção indevida ou abusiva de elementos de prova, sem o devido respeito aos limites legais ou éticos.
A médica já foi inocentada em pelo menos 28 processos julgados em primeiro grau pela Justiça. O processo principal sobre o caso depende de uma decisão do STJ.