
Muito antes da sororidade, há 16 anos, a empatia e resistência já eram predicados esmeros para que a batucada, o repique e cavaquinho, fossem a deixa perfeita para o início do Samba de Saia. Fundado em 2005 – e depois de algumas formações – o quarteto lança com exclusividade, pelo Música é o Canal, o EP “Nossa Identidade” – com faixa a faixa!
No início dos anos 2000, a música em Curitiba passava por um momento de transição. E foi nesse período que, um grupo de mulheres já estavam pelas tabelas em não terem representantes na cena do samba que, até então, era dominada por eles, os bambas.
“A música é nossa ferramenta de luta e nossas vozes não serão silenciadas. Podemos falar dos temas que quisermos. Cada uma de nós é plural e singular sendo o que somos”, abrange a cantora, compositora e produtora, Cida Airam – frontwoman do Samba de Saia.
Se pra bom entendedor meia palavra basta, nesse samba, naturalmente, faltava um bom tempero. Da formação original do Samba de Saia, apenas Maristela Ávila resistiu com sua saia rodada. Pianista de formação, ela era a única das integrantes onde a música já era ofício desde outros carnavais.
Quase duas décadas depois – e de muita saia rodada com direito a menção da jornalista Shannon Sims pelo New York Times – o Samba de Saia lança seu primeiro EP digital, com distribuição pela Tratore em plataformas online, onde Cida Airam (vocalista), Maristela Ávila (teclas e escaleta), Halanna Águiar (percussão e voz) e Bruna Alcântara (percussão) celebram a efusividade de suas histórias, sendo o samba o ponto de encontro pueril de suas artes.
“Nossa Identidade” é um marco desta trajetória do Samba de Saia. O grupo, reuniu ex-integrantes e parceiros musicais no Estúdio Asa Branca – localizado em uma fazenda com o mesmo nome em Campina Grande do Sul (30 km de Curitiba) – e por lá, com produção e direção musical assinadas por Érica Silva, se isolaram durante a pandemia e gravaram o EP.
| Saias atrás
Embora o EP “Nossa Identidade” seja o primeiro nesta formação. Pelo perfil do Soundcloud do Samba de Saia – desatualizado, porém online – é possível conferir algumas gravações históricas. Há dez anos, além de Maristela, o grupo contava com Andreia Black, Érica Silva, Edi Nunes, Karin Oliveira e Luana Godin. Entre as faixas disponíveis, o hino do grupo, a música “Samba de Saia“, composição de Marlos Soares e Rafael Furtado.
| Nossa Identidade
Entre ex-integrantes e participações especiais, “Nossa Identidade” reúne Érica Silva, Amanda Cortes, Karin Oliveira, Luana Godin, Marcela Zanette, Fernanda Cordeiro, Gabriela Bruel e Hannah Pinkuss. Norteado pelo samba de roda e com referências do chorinho, é nesta junção que que o Samba de Saia abre alas para sua nova batucada.
“O Samba de Saia é um grupo composto por mulheres musicistas negras, mestiças, maduras, e nós sabemos os desafios que vivemos em nossa rotina e num cenário musical onde o machismo, o preconceito e a falta de respeito ainda prevalece. Não basta só cantar, tocar, compor ou arranjar bem…o mercado musical exige o sangue e as vísceras das mulheres da música”, escancara Cida Airam de peito aberto, sobre os enfrentamentos diários que as mulheres ainda enfrentam em relação ao machismo estrutural insalubre e proeminente da indústria musical – principalmente sobre o samba.
Sem romantizar sofrimentos e muito menos sem interesse algum em passar o pano sobre qualquer desalento das mágoas, “Nossa Identidade” resplandece em sua própria matriz. Ecoa pelo âmago. Sem clichês, ou facilidades em abordar determinados temas estereotipados e essencialmente femininos. “Nossa Identidade” é um reencontro intrínseco da mulher com suas fases.
Pra não dizer que não falei das flores, além das artistas, “Nossa Identidade” reúne ainda, a fortaleza sonora de Luis Otávio (arranjos) e Fred Teixeira (mixagem e masterização). Além das gravações na Chácara Asa Branca o EP também fez história em Easter Egg Studio – de Érica Silva – e Coteaux Records – por Fernanda Cordeiro e Fernando de Castro.
| Faixa a Faixa |
“Nossa Identidade” por Cíntia Albuquerque
“Nossa Identidade” é uma canção-desabafo. Narra a história de uma mulher sobrecarregada, em uma jornada tripla de muitos e diferentes trabalhos.
Essa história esbarra na história de muitas outras mulheres, esmagadas por rotinas e demandas solitárias, mesmo em suas relações afetivas. São mães-solo, são profissionais altamente dedicadas, são esposas e namoradas incubidas, pela estrutura patriarcal em que vivemos, do cuidado de várias pessoas.
A dicotomia dessa história é que, muitas vezes, é também pelo trabalho que surgem oportunidades de crescimento e de transformação. A canção aponta também para a força que cada mulher tem, para a fé que sustenta, para o cuidado que ampara (a si e aos outros) e para um sofrer inerente ao papel social da mulher em um dos países mais violentos para o gênero.
É um olhar para o valor que se tem e para o valor do que faz, sem romantizar a precariedade em que vive uma mulher sobrecarregada.
“Meu Primeiro” por Edi Nunes
A música “Meu Primeiro” foi criada pensando nos relatos femininos das minhas amigas, dos meus e de outras musicistas, sobre desilusões amorosas e nos relacionamentos mal sucedidos com homens frequentadores da noite curitibana. A criação foi feita quando o Samba de Saia se preparava para se apresentar no FIFA FUN FEST em 2014. As integrantes estavam num momento muito criativo e fizeram um mutirão de composição.
“Cuida de Ti, Mulher” por Cida Airam
A música fala sobre cuidar de si, sobre o auto amor, sobre saber dizer não e sobre axé ( força e luz ) da mulher. Em tempos tão desafiadores, ouvir o coração, a intuição e ter consciência da força feminina é afirmar a existência e a resistência.
“Cuida de Ti, Mulher” é um chamado para que todas as mulheres não se esqueçam, não se anulem e que nossos corações sejam aquecidos pela nossa luta de resistirmos a todo tipo de opressão sendo guiadas pelo amor a nós mesmas.
“Kbelo Meu” por Karin Oliveira
A canção foi escrita em 2007, quando eu fazia parte do grupo Samba de Saia, o qual permaneci por 10 anos na percussão. Tive muita liberdade em poder escrever algo que sempre fez sentido na minha vida: o respeito com nossos cabelos crespos.
Queria passar o sentimento de orgulho do meu cabelo, da minha raça. As pessoas precisam respeitar a todos. A “Kbelo Meu” nasceu da vontade de ter esse respeito e em forma de música fica mais fácil entrar na cabeça das pessoas, principalmente das crianças.
Agradecimentos: Alets Comnunicação
Fotos: Márcia Kohatsu