O Santana Quantum, carro tradicional da Volks fabricado entre os anos de 1985 e 2003, é o laço que une, no mínimo – guarde esta informação durante para a leitura deste texto –, quatro gerações de uma família que vive no estado vizinho de Santa Catarina (SC). Mas como um veículo pode ser o motivo de ligação entre várias histórias de épocas e pessoas distintas?

É exatamente isso que a Banda B Classic Cars foi descobrir ao conhecer parte da história de Ricardo Teixeira Scheidt, que tem neste automóvel o amuleto que permite carregar consigo lembranças do avô, o seu Helmuth, e esperanças de levar para frente as próprias tradições com a filha, a pequena Maria Augusta.

Ricardo tem 30 anos, é natural de Palhoça e vive atualmente na mesma cidade, que fica na região metropolitana de Florianópolis, capital de Santa Catarina. Por sua vez, o avô Helmuth Scheidt faleceu aos 81 anos, em fevereiro de 2020, por complicações no sistema cardiovascular. 18 dos 30 anos do também executivo de vendas de carros de luxo foram compartilhados com o avô, que, na verdade, é considerado “um pai”.

“Ele me criou, praticamente, a vida inteira e sempre morei perto da casa dele. Então, quase sempre estive com ele”, iniciou. “Eu sou filho único, mas acho que havia um total 15 de netos. Teria que fazer a conta”, brincou, mas ressaltando.

“Como minha mãe morava ao lado da casa do meu avô, a gente ficou… acabou que ele virou quase o meu pai. Esta ligação entre mim e meu avô era mais forte do que a dele com meus próprios primos, se compararmos”, opinou.

Um adendo importante para este texto, o genuíno pai de Ricardo se separou da mãe dele e já é falecido (2016). Desde a separação dos pais, o executivo de vendas passou a viver com a mãe e próximo do avô. Isto tudo na cidade de Palhoça (SC).

Da proximidade com o avô, começou a surgir o interesse por carros antigos. “Meu pai e avô sempre gostaram muito de carros e isto passou para mim”, diz o entrevistado.

O Santana Quantum da Volks: uma paixão do avô

A tradição por carros, porém, sempre esteve ligada aos modelos da Volkswagen. Seu Helmut, por exemplo, possuía uma Kombi. No entanto, em 2013, o clássico veículo da empresa alemã do qual o avô de Ricardo era dono se encontrava em uma situação delicada para ser dirigido. Neste momento, ele começou a procurar por um novo carro e se lembrou do interesse pelo modelo em específico do Santana, sendo tratado por aqui como o laço familiar.

Ao compartilhar a intenção da compra com Ricardo, o neto não pensou duas vezes e começou a ajudá-lo neste processo. Eis que por obra do destino, ou não, Ricardo recebeu a mensagem de um amigo. O conteúdo mostrava um anúncio da venda de um Santana, do modelo procurado pelo avô, na cidade de Blumenau, no Vale do Itajaí, em Santa Catarina.

“Meu avô estava vendendo a Kombi por um valor meio barato e ela estava prestes a ir ao ferro-velho. Então, eu peguei e fui atrás do Quantum, que, por coincidência, era de uma pessoa que trabalhava na mesma empresa que eu naquele ano. Então, em 2013, nós compramos esse carro e eu fiquei com a Kombi dele”, detalhou.

2013 a 2019: seis anos vividos ao lado de uma paixão intensa da Volks

Com a chave do xodó em mãos, vários pontos do estado de Santa Catarina passaram a ser visitados pela família de Ricardo. Avô e neto constantemente viajavam com o Santana Quantum para diferentes lugares turísticos.

O executivo de vendas lembra um destes momentos especiais à reportagem, quando ele acompanhou o avô até o distrito de Águas Mornas, na cidade de Santa Isabel (SC), local que abriga a segunda comunidade de descendentes alemães mais antigos entre os catarinenses.

“Local de onde meu avô e minha mãe são naturais. Fomos para o interior e visitamos uma casa. Ele queria achar a casa em que vivia com a minha mãe e minhas tias. Nós fomos para este local com os dois carros (dois Santanas), embora ele tenha ido na carona. Fomos e achamos a casa. No fim, foi tudo muito legal porque o imóvel dele estava intacto, mesmo após uns 45 anos”, relembrou.

A viagem foi feita no final de 2019, momento em que Ricardo, conforme destacado na fala acima, já havia comprado um outro Santana, que era mais novo que o Quantum. A compra do novo Santana foi feita por conta do estado de saúde de seu Helmuth, que começava a ficar mais debilitado por causa de problemas ligados ao coração.

Com o novo carro, de acordo com o entrevistado, o avô poderia ter mais facilidade ao dirigir porque oferecia mais recursos e segurança no trânsito.

Tudo mudou em outubro deste ano.

Transição de gerações: o Quantum segue para o futuro

Em outubro de 2019, seu Helmuth foi hospitalizado pela primeira vez por conta dos problemas de saúde que lhe atingiam. O homem, com idade avançada, chegou a ficar em um quarto de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Diante da situação, Ricardo passou acompanhá-lo dia a dia, noite a noite, no hospital. O neto exercia a proximidade com o avô em todos os momentos e, ciente do quadro clínico dele, propôs uma troca.

“Fiz isso no dia que ele saiu da UTI. Nós começamos a conversar e (…) falei que lhe daria um carro mais novo, desde que eu ficasse com o carro dele (Quantum) de lembrança. Duas semanas depois ele saiu do hospital e a gente concretizou o negócio. Isto também foi em outubro. Porém, o mês se tornou o último em que ele pôde usar o carro”, contou.

Helmuth não conseguiu usar o novo Santana porque ficou “proibido de dirigir”. Portanto, o carro ficava na garagem na maior parte do tempo. Pouco tempo depois, o avô veio a passar mal novamente. Ficou um mês internado e veio a falecer, em janeiro de 2021.

“Então, por isto falo que o Quantum foi, realmente, o último carro que ele dirigiu e o usou por todos estes anos”, lamentou o neto.

2020 aos dias atuais: Maria Augusta vem ao mundo e o Santana Quantum vai para a oficina

Após perder seu Helmuth, Ricardo decidiu vender o Santana que havia comprado para o avô e dividiu o dinheiro da venda entre a mãe e as irmãs dela. No entanto, ele ficou com o Quantum. “Foi algo que se tornou… é uma lembrança que vou ter para sempre na garagem. Um carro que marcou uma história já que foi o último carro dirigido por ele”.

Pelo longo tempo de uso, o Santana Quantum apresentava problemas mecânicos. “Ficou judiado”, brincou Ricardo, aos risos. Porém, porque não pensar que por estar carregado com a energia de seu Helmuth, o xodó do avô do entrevistado teve forças para fazer um trabalho, antes de ir para a oficina e sofrer uma restauração total um mês após o nascimento de Maria Augusta.

“Usei o Quantum para buscar minha filha, que nasceu em fevereiro de 2021, na maternidade. Este foi o primeiro carro que ela andou e é o carro que quero deixar para ela, futuramente”, adiantou.

Ricardo, em conjunto com a esposa e após o nascimento da pequena, decidiu restaurar o Quantum. Tudo para manter na garagem o laço mais forte que possui com o avô. O processo durou um ano e o carro ficou pronto em maio de 2022. O entrevistado fez destaques e afirmou que o resultado da reforma ficou melhor do estado do Santana Quantum, quando foi comprado em 2013.

“O que deu para usar do ‘original’ nós usamos. Foi usada toda a parte de estofamento, que nós lavamos. O que precisou ser trocado, nós trocamos. A gente acabou desmontando toda a parte de motor, todos os parafusos, limpamos e pintamos. Compramos um conjunto ótico novo porque havia algumas marcas. Comprei farol, pisca… as lanternas traseiras são de estoque antigo e original de época. Essa parte de originalidade, por exemplo, o carro está 100% original. Não tem nada que não seja original”, detalhou, reforçando logo em seguida.

“Minha esposa e eu decidimos investir e fazer com que o carro ‘ficasse para sempre’. Não temos pretensão de vender!”.

Passado, presente e futuro: carros antigos, Volks e a ligação entre avô, pai, neto e bisneta

Ricardo sempre gostou de carros. Como ele mesmo citou, suas referências na área vieram do pai e, principalmente, do avô. Atualmente, trabalha com a venda de carros de luxo em uma concessionária de Santa Catarina. Ao longo dos seus trinta anos, sempre teve carros antigos em sua garagem. A maior parte deles da Volks (Fusca, Kombi, Gol, Santana…).

Após restaurar o Santana Quantum, Ricardo passou a utilizá-lo em ocasiões especiais e, na maior parte das vezes, acompanhado da filha. Maria Augusta, aliás, foi inserida em quase todo o restauração do xodó do avô pelo pai.

Isto porque é este o método que ele acredita ser o mais adequado para fazer com que a criança, hoje com um ano e meio de vida, leve a paixão por carros (os alemães da Volks, de preferência) para o futuro e, quem sabe, deixar também a simbólica herança do avô aos possíveis trinetos(as).

“Pretendo deixar os carros com ela, se tudo der certo e não precisar vender nunca. Ou seja, é um carro que quero deixar para ela e espero que ela deixe para os filhos dela… e assim por diante. Agora, como ela já está interagindo mais, todo domingo que eu posso saio com ela e o Santana, e vou para um encontro aqui em um quiosque na Avenida Beiramar, em Florianópolis. Local onde o pessoal sai com os ‘antigos’ para ficar conversando – um ‘encontrinho de domingo’. Todo domingo que eu posso ela vai comigo. Ela já curte, já sabe, já gosta… “, refletiu.

Santana Quantum
Ricardo e Helmuth, neto e avô, e os Santanas da Volks. Foto: Arquivo Pessoal/Ricardo Scheidt/Colaboração Banda B

Das viagens ao interior ou à região serrana de SC; das conversas, risadas e momentos duros compartilhados até o último dia de seu Helmuth, Ricardo, no fim, é só agradecimentos. Os ensinamentos do avô que hoje carrega consigo estão inseridos no dia a dia da família do executivo de vendas, conforme ele mesmo define.

“Meu avô sempre foi cara muito família. É uma pessoa que admiro e sempre admirei. Trata-se de alguém que me ensinou muitas coisas. Afinal, ele foi temente a Deus até o último dia da sua vida, assim como eu sou, minha esposa e mãe. Certamente, o que carrego comigo é o amor e sua parceria. Ele sempre foi de me incentivar, até para trocar de carro. Sempre vinha, olhava, e, com toda a certeza, sempre foi muito parceiro”, finalizou ao Banda B Classic Cars.

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Conheça o Santana Quantum e a tradição alemã de carros da Volks que une gerações em Santa Catarina

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