Há 95 anos, saíam da fábrica da Ford os primeiros modelos de um dos carros mais emblemáticos da história: o Ford A Phaeton. Nesta quinta-feira (16), a Banda B Classic Cars fez uma verdadeira viagem no tempo e conheceu duas destas relíquias, produzidas em 1929.
Produzido entre 1927 e 1931, o Ford A Phaeton ficou conhecido no Brasil também por Ford Bigode, por causa do desenho da grade dianteira, pelas alavancas do acelerador e do avanço do motor evocar o formato de um bigode.


À Banda B Classic Cars, o mecânico de automóveis Elcio de Souza, de 62 anos, apresentou dois modelos de Ford A Phaeton – de coleção – que possui, ambos produzidos em 1929. Seu primeiro foi comprado no ano 2000.
“Como sou mecânico, eu trabalhava em uma concessionária e, depois de um tempo, fui demitido. Tenho paixão por carros antigos e decidi começar a trabalhar com isso”, iniciou Elcio, que também faz restauração de carros clássicos.
Dono de um charme incomparável e estofado macio, o primeiro Ford A Phaeton do mecânico saiu da lama (literalmente). De acordo com ele, o carro estava em meio a um matagal e com as rodas quase que completamente afundadas na terra e na água, em Irati, no Sudeste do Paraná.

Imagens registradas por Élcio desde o dia em que o carro foi comprado mostram a transformação do veículo. À reportagem, ele revelou que o carro, que tem motor original 2.9 de 39 cavalos, foi restaurado em apenas um ano.
“Todos os parafusos desse carro passaram pelas minhas mãos. Motor, câmbio, suspensão, pintura… montei sozinho”, disse.
O repórter Guilherme Lara da Rosa, da Banda B Classic Cars, atestou a popularidade do clássico de Élcio ao percorrer as ruas de Curitiba no banco do passageiro. Os olhares curiosos acompanhados de sorrisos em tons de surpresa destacam o fascínio das pessoas com o modelo que já rodou, no total, mais de 18 mil quilômetros.


O carro que chegou a ser alugado pela própria Ford para ser exibida em uma loja já foi alvo de comentários como: “Esse carro voltou a ser fabricado?”.
“Em qualquer lugar que eu vou, as pessoas perguntam se quero vender o carro ou quantos km ele faz por litro”, revelou o mecânico.
Homenageado por um amigo artesão, hoje, Elcio guarda com carinho uma miniatura idêntica de seu Phaeton azul, construída apenas com auxílio de fotografias.

Já o segundo modelo Ford A Phaeton de Elcio, também conversível, foi arrematado em um leilão, segundo ele. As características do carro são descritas pelo mecânico sempre com sorriso no rosto, o que evidencia a verdadeira paixão dele pelos veículos.
“Uma brincadeira que virou profissão”
Hoje, Elcio de Souza aluga os dois veículos para noivas e turistas. De acordo com ele, a profissão surgiu por acaso, quando um amigo o pediu para levar a filha dele até a igreja, onde se casaria: “Uma brincadeira que virou paixão”.
“Fui a uma loja, comprei um colete e um quepe, e fui buscá-la. Em seguida, a levei para o casamento e lá um casal me abordou para perguntar se eu teria vaga para dezembro. Ali, vi um nicho de mercado que eu nunca havia imaginado. Minha resposta ao casal foi: ‘Vou ver minha agenda'”, afirmou.




O episódio ocorrido há cerca de 20 anos foi o pontapé para a criação da empresa “Garagem do Tempo“.
Ao ser questionado se alguma cerimônia o marcou ao longo das últimas duas décadas, o mecânico não hesita ao relembrar um acontecimento em específico.
“A noiva comentou comigo que o avô dela estaria no casamento e que ele teve um Ford A Phaeton. Ela perguntou se eu poderia conversar com ele, pois ele havia perdido a visão. Conversei e o convidei para dar uma volta no carro”, iniciou.
As palavras do avô da noiva ainda estão marcadas na memória de Elcio: “Você faria isso comigo?”.
Convidado para percorrer as ruas do bairro Santa Felicidade, o idoso, logo ao entrar no carro, afirmou: “Essa porta não se bate”.
Após o passeio, o homem agradeceu a Elcio e se emocionou com a atitude. “Filho, você não faz ideia da alegria que me trouxe. Até senti o cheiro de 90 anos atrás”, reproduziu o mecânico, com um sorriso no rosto.