(Foto: Reprodução)

A costureira Lorena Araújo Camargo sempre buscou dar às filhas as oportunidades que a vida não lhe deu. Ela saiu de União da Vitória após o divórcio para dar à Anelize e Gabriele a oportunidade de estudar em uma universidade de Curitiba.

A nova vida e os desafios na capital criaram um forte vínculo entre as três. As duas filhas de Lorena escolheram ser advogadas.

Em 2012, quase uma década após a decisão de abandonar a cidade de origem e tentar recomeçar em um lugar totalmente desconhecido, a caçula Gabriele concluiu o curso de bacharelado em Direito, pela Faculdade Opet. Um ano depois, foi a vez de Anelize fazer o mesmo.

“Eu participei da cerimônia de colação, mas não pretendia ir ao baile de formatura, por problemas financeiros. Foi então que minha melhor amiga, que também estava se formando, me deu seis convites. Assim, pude levar toda a minha família para a festa”, conta Anelize, relembrando o dia mais feliz e, ao mesmo tempo, o mais triste de sua vida.

A tragédia
A madrugada do dia 22 de setembro de 2013 seria um novo começo para Anelize. Recém-formada, comemorava no baile de formatura a conquista com a família e dedicava esta conquista para a mãe. “Ela estava muito feliz naquela noite, pois nós duas estávamos formadas”, relembra. O maior objetivo da vida de Lorena havia se concretizado naquela noite.

Gabriele, Anelize, Lorena e Igor – (Foto: Arquivo Pessoal)

No fim da festa, o filho de nove anos de Anelize, Igor Empinotti, pediu à ela para dormir na casa da vó. “Eu já tinha negado algumas vezes, mas ele insistiu e eu acabei cedendo. Ele se despediu de mim dizendo que eu era a melhor mãe do mundo”, conta, emocionada.

Separada em dois carros, a família seguia rumo à região norte de Curitiba, onde moravam. “Nós não combinamos por qual caminho voltaríamos para casa. Cada carro seguiu um trajeto. Quando chegamos em casa, nos avisaram que havia acontecido um acidente e que não sabiam qual era a gravidade. Fomos correndo para o hospital”, lembra Anelize.

Anelize e o filho Igor, durante a festa de formatura – (Foto: Arquivo Pessoal)

Chegando lá, o casal descobriu que o carro em que estavam Gabriele, o noivo dela, Jackson, a mãe de Anelize e o filho Igor havia batido contra um veículo, no cruzamento da Avenida Silva Jardim com a rua Alferes Poli. Um motorista embriagado, em alta velocidade, que fugia de outro acidente causado por ele, atingiu a lateral do carro da família.

Com o impacto, o Corsa dirigido por Gabriele acabou girando na pista, batendo com a traseira em um poste. Lorena e Igor, que estavam no banco de trás, morreram na hora. A irmã de Anelize faleceu na ambulância a caminho do Hospital Evangélico. Jackson, o único sobrevivente, sofreu inúmeras fraturas.

O motorista responsável pela tragédia também teve sérias lesões e perdeu parte do nariz. No hospital, foi autuado em flagrante por homicídio com dolo eventual, quando se assume o risco de matar.

Eduardo Vítor Garzuze, responsável pela morte de Lorena, Gabriele e Igor, responde o processo em liberdade desde então. Em outubro de 2015, os advogados de Garzuze tentaram levar o caso para o Superior Tribunal de Justiça, em Brasília, sem sucesso. No mesmo ano, o Tribunal de Justiça do Paraná decidiu levar o caso a júri popular, após negar inúmeros recursos da defesa. O julgamento não tem data prevista.

Lei Seca
Desde 2012, com o endurecimento da Lei Seca, o número de mortes no trânsito diminuiu no estado. Nos últimos seis anos, o BPtran registrou uma queda de 22% nos acidentes fatais no Paraná.

Na época do acidente, a legislação brasileira previa uma pena de 2 a 4 anos de reclusão para o motorista embriagado, podendo ser convertida em prestação de serviços comunitários. A nova proposta, aprovada pelo presidente Michel Temer em dezembro do ano passado, torna-se mais rigorosa a partir de abril de 2019: o período de detenção poderá chegar a 8 anos.

Outra mudança significativa na Lei Seca é a tolerância com o nível alcoólico. Na época do acidente, uma concentração abaixo de 0,3 mg/L de álcool no sangue não era passível de multa ou apreensão do carro. Atualmente, qualquer nível de álcool possui penalidade. Nível igual ou acima de 0,34 mg/L de álcool é considerado crime, além da pena administrativa. Horas após acidente, já no hospital, Eduardo Garzuze possuía 5,4 decigramas de álcool por litro de sangue, quase quinze vezes a quantidade prevista por lei.

A dor do luto
Em um segundo, Anelize perdeu toda a família. Durante os três primeiros anos, em estado de negação, Anelize enfrentou dificuldades em voltar à rotina. “Eu tentei retomar minha vida, mas era muito difícil. Voltei ao trabalho, tentei fazer uma pós-graduação, mas não conseguia prestar atenção nas aulas. Eu sempre gostei de estudar, mas simplesmente não tinha de onde tirar forças”, afirma.

Gabriele, Lorena e Igor – (Foto: Arquivo Pessoal)

A psicóloga e especialista em Terapia do Luto, Izabela Freitas, conta que casos como o de Anelize são comuns, e a procura por ajuda profissional é fundamental para o recomeço. “Em situações como essa, existem dois tipos de dor: há o sofrimento, que é uma tristeza profunda mas controlável, e existe aquela dor em que pessoa percebe que não consegue reagir frente às situações antes habituais. É nesse momento em que a ajuda psicológica deve ser acionada”, revela.

Um novo significado
Cinco anos após o acidente, após inúmeras sessões de terapia, Anelize conseguiu um novo significado para sua vida. Em 2016, ela e o marido decidiram tentar uma nova gravidez. No ano seguinte, nasceu a segunda filha do casal, que teve o nome escolhido em homenagem à avó, Lorena.

Lorena junto das fotos do irmão Igor – (Foto: Arquivo Pessoal)

“Não foi fácil, mas não me arrependo nem um pouco dessa decisão. Hoje sinto mais alegria de viver. É claro que um filho não substitui o outro, e eu sempre vou amar muito o Igor. Mas ocupo a maior parte do meu dia cuidando da Lorena, acompanhando o crescimento dela, assim eu paro de pensar em tudo que aconteceu, preenchendo um vazio enorme que eu sentia antes dela nascer”, reflete.

“É importante que a pessoa que sofreu um trauma como esse se apegue a uma causa. Muitos optam por trabalhar em instituições de caridade, outros ingressam no mundo da artes. No caso da Anelize, o carinho e a dedicação dela com a filha fazem com que a vida volte a fazer sentido, criando motivos para que ela continue a levantar da cama todos os dias”, analisa a psicóloga.

Revolta
Anelize aprendeu a viver com a dor, mas a revolta ainda é muito grande. “Eu acho que as pessoas não têm consciência de que uma imprudência como aquela pode acabar com uma família. Pode acontecer com qualquer um. Eu perdi as três pessoas mais importantes da minha vida de uma forma muito absurda. Fico muito indignada com o descaso, até de pessoas próximas a mim, com a segurança no trânsito. O mundo precisa de mais empatia com o próximo para que a sociedade aprenda uma lição com uma tragédia como essa”, acrescenta.

Assista ao depoimento emocionante de Anelize:

Confira a reportagem veiculada na Rádio Banda B no dia 19/11: