Na segunda-feira (18), data que marca o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, o alerta ganha ainda mais força no Paraná. A campanha “Pra Toda Vida — A Violência Não Pode Marcar o Futuro das Crianças e Adolescentes”, do Hospital Pequeno Príncipe, completa 20 anos em 2026 trazendo números que revelam uma realidade preocupante: a maioria das vítimas atendidas ainda está na primeira infância e sofre violência dentro da própria casa.

Ao longo de duas décadas, o hospital ultrapassou a marca de 10 mil atendimentos de crianças e adolescentes vítimas de violência. Somente em 2025, foram 637 casos registrados. Destes, 64% envolveram violência sexual e 67% das vítimas tinham até 6 anos de idade.

Os dados mostram ainda que 72% das agressões ocorreram em ambiente doméstico ou intrafamiliar. Em muitos casos, os agressores são justamente pessoas próximas da criança, como pais, padrastos, tios ou conhecidos da família.

Uma criança vista de costas, com a cabeça apoiada sobre os braços cruzados no encosto de um sofá de couro marrom escuro. Ela veste uma blusa amarela de lã. Ao lado de sua cabeça, há um urso de pelúcia marrom e branco, também apoiado no sofá. O ambiente tem iluminação suave e fundo neutro, transmitindo uma sensação de isolamento e tristeza.
Mudanças bruscas de comportamento, como isolamento e tristeza persistente, são sinais de alerta para possíveis casos de violência na infância. Foto ilustrativa: Magnific.

Primeira infância concentra maioria dos casos

Segundo o levantamento do hospital, 425 crianças atendidas em 2025 tinham até 6 anos, o equivalente a 67% dos casos registrados no período. Entre elas, 179 tinham apenas 3 anos ou menos.

Em entrevista à Banda B, o psicólogo e professor das Faculdades Pequeno Príncipe, Bruno Mader, explica que crianças pequenas são mais vulneráveis porque ainda não conseguem compreender plenamente a violência nem pedir ajuda.

“São crianças que têm muito poucas defesas para lidar com situações de violência. Muitas vezes, não conseguem reconhecer que aquilo é uma agressão e, consequentemente, têm mais dificuldade para denunciar”

afirma Mader.

De acordo com ele, a violência na infância compromete diretamente o desenvolvimento cognitivo, emocional e social da criança.

“Os adultos deveriam ser os pilares de segurança para a criança explorar o mundo. Quando esses mesmos adultos assumem o papel de agressores, eles deixam de sustentar e passam a destruir justamente a base sobre a qual a criança deveria se apoiar”, alerta.

Quais sinais podem indicar violência infantil?

Especialistas alertam que mudanças bruscas de comportamento costumam ser um dos principais indícios de que algo está errado.

Entre os sinais mais comuns estão:

  • agressividade repentina;
  • isolamento;
  • medo de determinadas pessoas ou lugares;
  • tristeza persistente;
  • irritabilidade;
  • dificuldade escolar;
  • sexualização incompatível com a idade;
  • retorno do xixi na cama ou perda do desfralde;
  • recusa em frequentar certos ambientes.

Bruno Mader destaca que o mais importante é observar alterações em relação ao comportamento habitual da criança.

“Quando uma criança extrovertida passa a ficar retraída ou uma criança tranquila se torna agressiva, isso pode ser um sinal de alerta. Também é importante observar medos persistentes e tentativas de evitar determinadas pessoas ou lugares”

explica o psicólogo.

O especialista orienta que pais, familiares e professores conversem de forma acolhedora, sem pressionar a criança.

“Perguntar com cuidado, acolher e continuar atento é fundamental. Nem sempre ela vai conseguir falar na primeira conversa”, acrescenta.

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Foto: Divulgação/ Hospital Pequeno Príncipe/ Imagem gerada por inteligência artificial.

Violência infantil deixa marcas para toda a vida

Além das lesões físicas, os especialistas alertam para os impactos emocionais permanentes da violência infantil.

Em 2025, 162 crianças precisaram ser internadas devido à gravidade das agressões. Um dos casos envolveu um bebê de apenas 10 dias de vida, hospitalizado com múltiplas lesões.

A assistente social Rosane Moura Brasil, do Hospital Pequeno Príncipe, disse à Banda B que as sequelas emocionais podem durar por toda a vida.

“A lesão física, muitas vezes, conseguimos tratar. Mas as marcas emocionais deixadas pela violência podem levar anos para cicatrizar e, em alguns casos, talvez nunca desapareçam completamente”

afirma a profissional.

Ela destaca que crianças vítimas de violência precisam de acompanhamento psicológico precoce e de uma rede de proteção ativa.

“Um bebê precisa de vínculo, acolhimento e segurança. Toda criança precisa ter suas sequelas emocionais tratadas o quanto antes”, reforça.

Cultura da denúncia ainda é desafio

Apesar do aumento das denúncias nos últimos anos, especialistas afirmam que ainda existe um “silêncio familiar” em torno da violência infantil.

Segundo a assistente social, muitas pessoas ainda têm receio de denunciar por medo de estarem erradas.

“Mesmo diante de suspeitas, é importante denunciar. Se uma criança pede ajuda ou apresenta sinais de sofrimento, essa denúncia pode salvar uma vida”

diz Brasil.

Já Bruno Mader afirma que a sociedade ainda normaliza algumas agressões contra crianças como forma de educação.

“Precisamos construir uma cultura em que o corpo da criança seja entendido como tão inviolável quanto o de qualquer adulto. Não existe justificativa para violência física contra crianças”, afirma.

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Fachada do Hospital Pequeno Príncipe com banners da Campanha Pra Toda Vida, que completa 20 anos. Foto: Divulgação/ Wynitow Butenas.

Como denunciar violência contra crianças e adolescentes

As denúncias podem ser feitas de forma anônima pelos seguintes canais:

  • Disque 100 — canal nacional de direitos humanos;
  • Disque 181 — denúncias no Paraná;
  • Central 156 — em Curitiba.

A campanha “Pra Toda Vida” reforça neste ano o mote: “Proteger a infância é um compromisso de todos”.

“Quando a violência atinge crianças tão pequenas, enfrentá-la depende da ação coletiva da sociedade”

destaca a diretora-executiva do Hospital Pequeno Príncipe, Ety Cristina Forte Carneiro.

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