A Polícia Civil apura a possibilidade de que os guardas municipais mentiram sobre a abordagem que levou a morte de Caio José Ferreira de Souza Lemes, de 17 anos. A informação foi divulgada nesta quinta-feira (30) pelo delegado Eric Guedes, que disse que o depoimento de uma testemunha que presenciou o crime trouxe detalhes à investigação.

Segundo o depoimento da testemunha, ao contrário do que disseram os guardas municipais, Caio acabou não investindo contra a equipe com uma faca. Ele também não teria reagido e já estava no chão quando houve o disparo.
“Como o Caio acabou fugindo da abordagem, o guarda municipal correu atrás do Caio. Na hora que ele se rendeu e deitou no chão, de acordo com o relato da testemunha, quando o guarda foi chegou para revistar, talvez acabou acontecendo esse disparo. A testemunha relata que o guarda colocou a mão na cabeça e falou ‘putz, acabei disparando’”, disse o delegado.
contou o delegado Eric Guedes
Com isso, de acordo com o relato da testemunha, o disparo teria sido acidental. Neste caso, segundo o delegado, é investigada a possibilidade de os guardas terem mentido.
“A gente está investigando se teve um homicídio culposo, com um suposto disparo acidental, e posteriormente a fraude processual pelo abuso de autoridade”.
explicou o delegado Eric Guedes

Caio estava armado?
No dia do crime, os guardas municipais disseram que Caio estava armado com uma faca. O objeto, inclusive, chegou a ser apreendido e encaminhado para análise. As investigações apontam que isso possa ter sido usado pelos guardas para justificar a morte do adolescente.
“A faca foi apreendida, está com a Polícia Científica. Isso está sendo investigado. Se houve crime de fraude processual, provavelmente essa faca tenha sido plantada ali pelos guardas municipais”.
disse o delegado Eric Guedes
Câmera desligada
O delegado disse que a Polícia Civil recebeu, da Corregedoria da GM, vídeos que mostram momentos da ação.
“De acordo com vídeos enviados pela corregedoria da guarda municipal, até agora só apuramos um disparo efetuado. Imagens do monitoramento da ação em si não existem, existem algumas imagens que dá para ouvir o som, ver que houve um disparo, mas imagens do momento da abordagem não existem”.
contou o delegado Eric Guedes
A Prefeitura de Curitiba informou que a câmera do colete do guarda municipal estava desligada. Isso também será objeto de questionamento dos guardas, que já foram ouvidos, mas serão intimados para depoimento novamente.
“Os guardas prestaram depoimento na Central de Flagrantes logo depois da ocorrência e não mencionaram sobre a câmera estar desligada ou ligada. Os guardas serão intimados para serem interrogados na sequência. Um deles está de licença médica e a advogada vai apresentá-lo na semana que vem. Serão interrogados e indagados sobre o motivo de a câmera estar desligada”.
detalhou o delegado Eric Guedes
Não estão presos
Na segunda-feira (27), após a denúncia de amigos e familiares sobre o crime, a GM de Curitiba decidiu afastar os agentes envolvidos na abordagem. Em nota enviada à Banda B, a corporação afirmou que foi instaurado um procedimento administrativo para apurar a conduta dos guardas.
Nesta quinta-feira, chegou a correr a informação de que os guardas envolvidos no crime estariam presos. O delegado nega.
“Ainda não foi representado pela prisão deles. Em regra, no direito penal, a pessoa responde ao crime em liberdade, a prisão temporária ou preventiva é excepcional”.
disse o delegado Eric Guedes
Segundo o delegado, a investigação ainda vai se desenrolar, mas tudo indica que tenha sido um disparo acidental atrelado à fraude processual.
“O que efetuou o disparo pode responder por homicídio culposo se ele não teve intenção, se foi uma imperícia, e os demais por fraude processual”.
contou o delegado Eric Guedes

Perícias
As armas dos guardas foram recolhidas pela corregedoria da GM e devem ser encaminhadas à Polícia Civil. Os investigadores também devem analisar outros laudos, como o exame de necrópsia e o laudo que vai apontar detalhes sobre o tiro efetuado pelo guarda.
Além disso, o celular de Caio é analisado pela Polícia Científica. O delegado reforçou que ele não tinha nenhum antecedente, mesmo sendo adolescente.
“Os guardas municipais colheram alguns prints de rede social, foi encontrado droga no local, e será apurado se essa substância seria do Caio ou não”.
concluiu o delegado Eric Guedes
A reportagem da Banda B procurou a Prefeitura de Curitiba, em resposta o órgão municipal informou que a Guarda Municipal tem um protocolo operacional padrão para o uso das câmeras corporais e que os guardas que utilizam o equipamento receberam o devido treinamento para utilização. A nota afirma ainda que o conteúdo registrado nas câmeras é protegido e os guardas municipais não podem apagar ou ter acesso ao conteúdo registrado. Leia nota abaixo.
A Guarda Municipal de Curitiba elaborou um protocolo operacional padrão (POP) para o uso das câmeras corporais conforme determina o decreto municipal. Todos os guardas municipais que utilizam o equipamento receberam o devido treinamento para sua utilização, inclusive passaram por um período de testes e adaptação para a nova tecnologia em operações assistidas.
As câmeras ficam armazenadas em postos da guarda municipal, trancadas em dock stations – onde são recarregadas. Para ter acesso ao equipamento, o guarda municipal precisa passar pelo reconhecimento facial. Ao entrar em turno de trabalho, o agente retira o dispositivo da estação de trabalho e acopla em seu uniforme, devendo ser acionado o dispositivo para gravação quando no atendimento de ocorrências. As baterias duram o equivalente a um turno completo de trabalho de 12 horas. O conteúdo registrado nas câmeras é protegido e os guardas municipais não podem apagar ou ter acesso ao conteúdo registrado. Todas as imagens das ocorrências são armazenadas na Muralha Digital e ficam à disposição das autoridades competentes. A fiscalização das imagens é realizada diariamente pelas Inspetorias e Gerências Regionais.
Por fim, a Guarda Municipal reitera que está colaborando com a investigação e repassando todas as informações às autoridades competentes para que o caso seja esclarecido o mais rápido possível.