Delegado deu entrevista à Banda B nesta sexta-feira (7). (Foto: Reprodução)

 

O delegado Fábio Machado, que prendeu Silvano Rogério Weber após a agressão a dois suspeitos de furto, afirmou, em entrevista à Banda B nesta sexta-feira (7), que sabe que a família do rapaz está indignada com a situação. Para ele, no entanto, isso não muda o fato de que a polícia precisa cumprir as leis.

“Eu compreendo a indignação da esposa de Silvano, essa é a indignação de todos os brasileiros diante da criminalidade, mas a polícia está aqui para cumprir as leis. Eu não tive o que fazer, tive que defender a lei”, disse ele ao radialista Geovane Barreiro durante o Jornal da Banda B 2ª Edição na tarde de hoje.

Ladrões arrebentaram o cadeado do bicicletário da residência. (Foto: Flávia Barros – Banda B)

De acordo com o delegado, a população precisa entender que, por mais que a pessoa esteja protegendo o seu patrimônio ao abordar e agredir suspeitos, ela não pode cometer excessos. “Nós temos que ser civilizados. Não podemos usar de vingança privada para resolver os fatos pelas próprias mãos, que foi o que aconteceu neste caso, segundo o próprio Silvano”, completou.

O início da confusão

Machado contou que estava de plantão na madrugada desta quinta-feira (6) e, por volta das 2h, chegou a informação na delegacia de que um homem havia acionado a Polícia Militar (PM) pelo furto de uma bicicleta do quintal de uma residência.

“Quando eu perguntei para o Silvano se ele tinha visto os rapazes pegando a bicicleta, se tinha qualquer outra evidência de autoria ou testemunha, ele disse que não. Afirmou que indivíduos invadiram a casa dele e levaram o objeto e ele só percebeu depois. Ele fechou o portão e ficou à espreita, vigiando”, relatou.

Segundo o depoimento, nesse momento, dois rapazes moradores de rua tentaram abrir o portão e o morador foi atrás. “Os homens correram e Silvano pegou o carro para ir atrás deles. Em um local distante da residência, rendeu a dupla e utilizou de ameaça, dizendo que era policial e que estava armado. Foi aí que começou o abuso, o excesso”.

O delegado afirmou que o próprio Silvano admitiu o que fez no registro do Boletim de Ocorrência (B.O.). “Na entrevista inicial eu fiquei tão assustado, que chamei policiais e escrivães para acompanharem o depoimento. Ele mesmo disse que amarrou, espancou, surrou e deu chutes para que eles confessassem onde estava a bicicleta. Falou que ‘deu uma prensa neles’. Se um policial fizesse isso, seria considerado tortura. Por mais que estivesse com razão, por mais que o Silvano seja uma pessoa boa, um trabalhador, o que ele é, ele não tem o direito de fazer justiça com as próprias mãos”.

Suspeitos soltos

Machado explicou que os suspeitos foram soltos porque não havia nenhum indício de autoria. “O crime aconteceu? Sim, porque é fato que a bicicleta sumiu. Tem indício de autoria? Não, porque ninguém viu o momento do furto. O próprio Silvano disse que não viu. Quando eu perguntei como ele sabia que eram os dois, ele disse ‘ah, só pode ser eles, doutor’. Esse ‘só pode ser eles’ não existe no Estado Democrático de Direito”.

Na delegacia, os dois suspeitos negaram que roubaram a bicicleta. Machado admitiu, no entanto, que eles já tinham passagens pela polícia. “Eles são viciados em droga, têm antecedentes por furtos diversos, e são moradores de rua. Existe a suspeita de que eles cometeram o crime e nós vamos investigar. Mas, até o momento, não havia o suficiente para prendê-los. A lei não diz para fazer isso”.

Depois da saída da delegacia, um dos suspeitos do furto tentou invadir a casa de Silvano e acabou sendo preso em flagrante. Nesse caso, segundo o delegado, havia indícios de autoria.

“Eu faria tudo de novo”

Questionado se mudaria qualquer ação se pudesse, Machado respondeu que não. “Se você toma ciência de um caso de tortura e não denuncia, você responde por tortura por omissão. Por isso, faria exatamente a mesma coisa. Se flexibilizarmos a lei com fins nobres, outras pessoas com fins não tão nobres podem usá-la também”.

Ele ressaltou que a prisão de Silvano foi homologada pelo poder Judiciário. “É importante dizer que a Justiça concordou com a minha decisão. Eu fiquei sim comovido com a situação do rapaz, até pedi para ele ficar separado dos outros presos. A gente quer sempre ajudar o cidadão, mas isso não dá direito a ninguém de infringir sofrimento por tortura”, finalizou.