Policiais colocaram coletes após descerem do carro. (Foto: Colaboração)

 

A comunidade da Ocupação 29 de Março, na Vila Corbélia, na Cidade Industrial de Curitiba, passou por novos momentos de tensão na manhã desta quinta-feira (10), depois que uma viatura descaracterizada da polícia entrou no local, com policiais à paisana. Segundo informações repassadas à Banda B, o veículo estragou e chegou a ser cercado pelos moradores, que queriam saber o que ele estava fazendo por ali.

A população vive em clima de preocupação e medo desde o dia 7 de dezembro, quando o policial militar Erick Norio foi assassinado na região. No fim do mesmo dia, um incêndio tomou conta do local e destruiu mais de 300 casas. Muitas famílias perderam tudo.

Na manhã de hoje, voluntários de uma organização não governamental (ONG), que ajudou a construir novas residências para a comunidade, perceberam a presença de policiais na Vila. “Nós notamos que havia dois carros da Polícia Militar e um da Guarda Municipal entrando na ocupação. Perguntamos para as pessoas ali perto o que estava acontecendo e descobrimos que uma mulher passou mal e precisou de atendimento médico. Esses veículos faziam escolta para a ambulância que foi socorrer a moradora”, contou uma voluntária da ONG, que preferiu não se identificar, ao radialista Geovane Barreiro para o Jornal da Banda B 2ª Edição.

Depois que os carros foram embora, outro veículo preto entrou na comunidade e virou na rua aberta pela ONG, que leva até as novas residências. “O carro estragou e ficou parado ali. Até então, ninguém sabia que era a polícia, porque o automóvel estava descaracterizado e os ocupantes não usavam farda nem nada. Só que eles desceram do veículo e vestiram coletes à prova de balas. Foi nesse momento que começou o fervo”, contou a voluntária.

Os ânimos se exaltaram e a população acabou cercando o automóvel. “Alguns começaram a avançar nos policiais, outros perguntaram o que eles estavam fazendo ali, mas não sei o que eles responderam. Os moradores pegaram aquelas lixeiras grandes que ficam na frente das casas e trancaram a rua”, completou ela.

A voluntária ficou com medo e saiu do local antes de saber o desfecho da história. “Os policiais estavam preocupados para ir embora, até onde eu sei. Pareciam que estavam em dois. Um terceiro tentava ajudar a arrumar o carro, mas não sei se ele era da comunidade ou não. Foi bem estranho, porque aquela viatura não tinha nada a ver com o atendimento médico da mulher que passou mal e entrou bem onde aconteceu o incêndio”, disse.

“Discriminação”

A voluntária, que trabalha para resolver os problemas de saneamento na comunidade, relatou que os moradores têm uma relação complicada com a polícia desde o homicídio do PM. “Eles não podem ver carro de polícia que já saem filmando e perguntando o que eles estão fazendo. O Samu, quando vem na favela, tem que ser escoltado e, para a população, esse é um ato de discriminação, de preconceito. Para eles, é algo necessário”, comentou.

De acordo com ela, a comunidade é composta, na maioria, de pessoas boas e trabalhadoras, que procuram por melhores condições de vida. “Nós sabemos que tem bandido, mas muitos foram embora por causa de toda a movimentação. Vindo aqui eu percebi que, como estamos prestando um serviço de solidariedade, me sinto segura e protegida”.

Para a voluntária, esse tipo de ocupação precisa de visibilidade, para que não haja mais preconceito. “Não tem nada ali. São casas precárias, não tem esgoto. Tudo o que eles possuem é proveniente de doação. Como essas comunidades são muito verticais, as pessoas acham que não tem favela em Curitiba. A verdade é que nós não as enxergamos”, finalizou.

Resposta

Sobre a viatura descaracterizada, a Banda B entrou em contato com a assessoria da Polícia Militar, que enviou a seguinte nota:

A Polícia Militar está sempre presente na Vila Corbélia assim como em outros bairros e vias da Capital com policiamento preventivo e também com o serviço velado. No caso citado na reportagem, uma equipe policial foi até a Vila para fazer um mapeamento do local devido a uma ONG ter aberto uma rua em local onde antes não existia.

Cabe à Polícia Militar fazer o mapeamento das regiões para o combate à criminalidade. A Corporação, como braço do Estado na garantia da lei e da ordem, conforme prevê a Constituição Federal, tem legalidade para fazer o policiamento preventivo e ostensivo em todas as vias públicas da cidade, a fim de assegurar a segurança pública e o bem estar dos cidadãos de bem.