Operação investiga ONG de dependentes químicos que era usada para saquear cargas; 12 são presos

Estimativa de prejuízo é de R$ 3 milhões. Polícia Civil disse que investigações continuam

Lucas Sarzi e Antônio Nascimento

A operação que investigava um grupo criminoso suspeito de saquear cargas na região do litoral do Paraná acabou com 12 pessoas presas. A polícia informou que vai continuar investigando o crime, pois foram identificados diversos repasses de valores provenientes do líder do grupo criminoso para a ONG, que trata dependentes químicos, e era usada para as ações. 

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Foto: Divulgação.

Planejada em conjunto, a operação partiu de um trabalho do setor de inteligência da Polícia Rodoviária Federal (PRF), que vinha monitorando as ações. As investigações foram simultaneas em Morretes, Paranaguá e Pontal do Paraná, na região litoral do Paraná, e em São Bento do Sul, em Santa Catarina. 

“Aquela região de Paranaguá é a região do Paraná onde mais tem registro desse tipo de crime, do saque de carga, furto de carga. Então nós começamos a priorizar aquela região também a partir do momento em que as nossas equipes foram alvo de apedrejamento e inclusive de disparo de arma de fogo”

contou Fernando César Oliveira, superintendente da PRF no Paraná.

A PRF percebeu um aumento na violência desse tipo de crime e procurou a Polícia Civil. O trabalho conjunto durou mais de seis meses, com levantamentos e investigação, que culminou na operação. 

Segundo o delegado André Feltes, responsável pela investigação na Delegacia de Furtos e Roubos de Cargas, não existe, ainda, nenhuma evidência de participação ativa dos internos da ONG nas vazadas – que é quando a carga do caminhão é retirada com o veículo em baixa velocidade ou acidentado. 

“O que a gente tem, em análise de aparelhos celulares até, várias vezes a gente via uma troca de mensagem grande, por exemplo: o caminhão tombou, eles já começavam a se movimentar, falavam, ‘o caminhão tombou, vamos lá’. Aí às vezes tinha áudios que mencionavam que a polícia chegou lá, ‘mas conseguimos pegar um pouco’ […]. A participação da ONG era no momento posterior, justamente para fazer aquela coleta sem ser importunada pela polícia, já que supostamente era uma carga que ficaria abandonada”

detalhou André Feltes, delegado da Polícia Civil.
Foto: Divulgação.

Atuação da ONG

O delegado explicou que a ONG, desde o final das concessões, informalmente, era acionada para retirar o material quando um veículo se acidentava e ficava sobre a pista, por exemplo. A ONG prestava esse serviço e levava o material com o intuito de depois comercializar o resto da varredura que ficava no chão para custear algumas atividades.

Acontece que, com o passar do tempo, a polícia identificou que, em várias ocorrências, os saqueadores abriam, deixavam a carga no chão, não saqueavam, e logo na sequência a ONG aparecia, às vezes até sem ser demandada. 

“Então, no lugar de ter que coletar só uma parte, correndo o risco de ser preso, eles vinham e coletavam, sob a justificativa de recolher o material que estava ao solo. Mas essa coleta era feita justamente nos caminhões que eram dos chefes da organização criminosa, pessoas que já tinham histórico já antigo com crimes dessa natureza na região, com vários antecedentes criminais referentes a esse tipo de crime. E a ONG então fazia a entrega dessa carga para eles, que posteriormente era revendida para outros receptadores”

explicou o delegado André Feltes, da Polícia Civil.

A PRF explicou que eram vários tipos de abordagem, mas o mais comum era o fato da baixa velocidade dos caminhões.

“Se aproveitando da baixa velocidade dos caminhões ou até mesmo provocando essa baixa velocidade jogando em entulhos, móveis velhos, galhos sobre a pista, eles faziam com que o caminhão reduzisse muito a velocidade e muitos dos caminhoneiros não utilizam nenhum lacre, nenhum cadeado e fica muito fácil abrir o tombador mesmo com o caminhão em movimento”

comentou Fernando César Oliveira, superintendente da PRF.

Segundo as investigações, para mascarar a comercialização, no lugar da ONG emitir uma nota fiscal por esse produto, eles faziam essa entrega voluntária e essas pessoas faziam doações para a ONG. 

“A gente identificou ali doações de R$ 5, R$ 10 mil, que na realidade era uma contraprestação financeira por aquela carga que havia sido recuperada”

completou o delegado André Feltes.
Foto: Divulgação.

Presos e mandados

No total, foram 12 presos: eram dez mandados de prisões preventivas para cumprir.

“Cumprimos nove, um deles a gente não localizou. Dois alvos que eram alvos de mandado de busca e apreensão foram presos em flagrante por porte legal de arma de fogo e um por corte legal de munição”

comentou o delegado.

Entre os mandados cumpridos, dois eram de pessoas que estavam na ONG, pessoas que, segundo a polícia, assinavam os recibos.

“Mas até onde a gente apurou realmente eram as próprias pessoas que foram internadas na ONG e auxiliavam, mas utilizando esses caminhões dos criminosos”

disse André Feltes.

A polícia também cumpriu sete ordens de sequestro dos caminhões que eram utilizados só para as ações criminosas.

“A Polícia Federal e várias outras diligências nossas, inclusive com parceria de outros órgãos, identificaram imagens quando o caminhão tombava ou quando era saqueado, eram normalmente esses caminhões que iam lá coletar. Então, como a gente percebeu que esses caminhões eram reiteradamente utilizados nessa prática criminosa, eles foram sequestrados para a gente fazer cessar essa prática criminosa. Apreendemos alguns bens que eram incompatíveis com a renda dos investigados”

finalizou o delegado André Feltes.

Embora a estimativa do prejuízo provocado pelo grupo criminoso seja de R$ 3 milhões, o superintendente da PRF no Paraná comentou que isso mancha também a imagem do Estado, com o Porto de Paranaguá sendo um dos maiores do Brasil.

“É difícil estimar, né? Estimamos em pelo menos R$ 3 milhões, mas o impacto negativo por uma região estratégica para o país, o Porto do Paranaguá é o segundo maior do Brasil, e a imagem do Estado, a imagem do país que fica em xeque”

avaliou Fernando César Oliveira, da PRF.
Foto: Divulgação.

MPT acionado

O superintendente da PRF no Paraná disse também que um ofício deve ser feito para o Ministério Público do Trabalho (MPT), para que apure a conduta da ONG.

“Para que essa ONG também seja investigada do ponto de vista trabalhista, para verificar em que condições esses internos, esses dependentes químicos, eram utilizados, muitas vezes de madrugada para fazer a coleta de grão sobre a pista, inclusive sob risco de atropelamento, se havia algum tipo de remuneração ou se era uma mão de obra talvez até com a possibilidade de ser considerada análoga a escravidão”

finalizou Fernando Oliveira, da PRF.
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