Um grito de basta vem tomando conta de centenas de mulheres vítimas de abuso sexual. Num movimento reunido pela hashtag #exposedcuritiba, os relatos estão sendo expostos no Twitter e Instagram. Só esta semana foram mais de 40 mil tweets e cerca de 20 mil histórias. As histórias, algumas com detalhes chocantes,  têm comovido os internautas que passaram a apoiar as vítimas e mandar mensagens,  demonstrando que elas não estão sozinhas.

A Banda B entrevistou vítimas que narraram o drama que tem vivido e  importância de quebrar o silêncio, além da dificuldade em comentar sobre o assunto. A hashtag do movimento chegou a ficar entre os assuntos mais comentados no trending topics nacional.

Uma vítima que preferiu não se identificar contou que os abusos sofridos começaram cedo, por um parente próximo.

“Logo que completei 13 anos, eu estava com vários problemas na vida. Fui viajar com a minha família na época e eu tinha um primo, que tinha 22 anos na época, durante a virada do ano novo ele me ofereceu bebida e eu nunca tinha bebido na minha vida, e eu nunca tinha bebida. Quando deu 4h, acordei com uma dor muito forte e eu não sabia o que fazer, porque tinha medo de ser julgada por outras pessoas. A minha família é muito machista e eu achei que automaticamente era minha culpa”, desabafou a estudante em entrevista à Banda B.

“Ele colocou na minha cabeça que eu quis isso, e eu não sabia o que fazer naquela hora. A minha vontade era de gritar para Deus, eu comecei a rezar. De tão culpada que eu estava me sentido, eu não achei que tinha direito de fazer isso, nem falar com Deus. Eu estava despedaçada, meus pais chegaram e eu só queria ir embora, e isso (abuso) foi acontecendo por mais dois dias. Quando cheguei em casa contei tudo pra eles”, contou aos prantos.

 

Outra vítima disse à Banda B que tomou coragem de colocar tudo nas redes depois que viu o abusador feliz, em fotos, mesmo após a denúncia que fez na delegacia.

“O que me motivou a falar é que depois que a gente denunciou na delegacia, meu agressor postou muitas fotos com os irmãos, feliz. Daí resolvi expor nas redes”, contou outra jovem. “Temos que falar, pois temos voz. Várias meninas vieram desabafar pra mim”, completou.

Existe uma questão cultural que faz com que a vítima tenha dúvida e medo de contar os seus relatos, é o que conta a  psicóloga com especialização em violência doméstica contra crianças e adolescentes pela USP, Caroline Marafiga.

“O discurso da vítima é sempre muito semelhante: será que de alguma forma eu não influenciei o comportamento deste abusador? Me avisaram pra não fazer isso? Fui pra balada e minha mãe disse que não era pra falar com estranhos? Seria no sentido de responsabilizar pelo ato do outro, pelo ato do agressor. Aquela velha história que dizem da minissaia na hora errada, no lugar errado”, disse Marafiga.

Denuncie

A delegada da Delegacia da Mulher de Curitiba, Emanuele Maria de Oliveira Siqueira,  diz que é importante quebrar o silêncio e denunciar para a policia.

“A denúncia é imprescindível, pois se não houver a comunicação da ocorrência do crime, nós não podemos iniciar nenhuma investigação sobre esses casos. A vítima, nesses casos de crimes sexuais, é o nosso principal elemento para conduzir a investigação, pois ela que vai dar os detalhes do que aconteceu: local, horário, tentativa de testemunhas. A denúncia é elemento primordial para que a policia possa fazer alguma coisa para auxiliar essa pessoa que sofreu esse tipo de violência”, conta delegada.

“Há uma certa resistência das vítimas, mas com a operação legislativa que aconteceu em 2018, que o crime de estupro passou a ser incondicionado, se nós tomarmos conhecimento do crime, somos obrigados a instaurar um inquérito”, completa.

A Polícia Civil atende casos dentro do ambiente doméstico, como fora do ambiente doméstico. A Delegacia da Mulher atende vítimas com 18 anos ou mais. Se a vítima for menor idade, quem atende é o Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes (NUCRIA).

Caso seja dentro de 72 horas que aconteceu a violência, a vítima é encaminhada para os hospitais de referência, onde é feito a profilaxia médica, solicitada as guias e acionado o perito. Depois, essa perícia é encaminhada para a Delegacia da Mulher.

Denuncie também pelo número 180