A mulher de 37 anos presa em Santa Catarina por fingir ser uma adolescente de 12 anos e viver por mais de um ano com uma família também é apontada como autora de golpes aplicados em Curitiba. Segundo relatos de vítimas, ela criou uma falsa identidade e inventou uma história envolvendo câncer terminal, abusos e tragédias familiares para conquistar a confiança de pessoas e solicitar ajuda financeira.

Montagem mostra, à esquerda, uma tatuagem com o nome "Emily" feita por uma vítima do golpe em Curitiba. À direita, imagem da mulher que fingia ser adolescente em tratamento contra câncer, usando máscara de oxigênio e com aparência de paciente hospitalar.
Vítima chegou a tatuar o nome da falsa adolescente “Emily” após acreditar na história de câncer terminal criada pela suspeita investigada por golpes em diversos estados. Foto: Reprodução.

O caso ganhou repercussão nacional após a prisão da suspeita em Joinville, no Norte catarinense. Conforme a Polícia Civil de Santa Catarina, ela se apresentava como uma adolescente chamada “Gabriele” e chegou a morar por cerca de 14 meses com uma família que acreditava estar acolhendo uma criança em situação de vulnerabilidade.

Em Curitiba, porém, o roteiro era diferente. Utilizando o nome fictício “Emily”, a mulher teria se passado por uma menina de 13 anos diagnosticada com leucemia em estágio terminal.

Grupo de oração de Curitiba foi alvo do golpe da mulher que fingia ser adolescente

Uma das vítimas, Tatiane da Silva, disse em entrevista à repórter Bruna Froehner, da Ric RECORD, que a aproximação aconteceu durante a pandemia da Covid-19, quando um grupo de oração realizava encontros virtuais para apoiar pessoas enfermas.

Inicialmente, uma suposta mãe pediu orações para a filha com câncer. No dia seguinte, a própria “Emily” passou a participar das conversas.

“Nos reuníamos todas as noites, e em uma dessas noites apareceu uma mulher e pediu pra rezar pela filha dela de 13 anos que estava doente de câncer. No dia seguinte, entrou então a criança dizendo ‘Oi, hoje sou eu, no Facebook da minha mãe'”

contou Tatiane.

A falsa adolescente relatava que enfrentava um tratamento contra leucemia, dizia estar internada e afirmava sofrer com dores constantes. Com o passar dos meses, as histórias ficaram ainda mais dramáticas.

A personagem alegava que a mãe havia morrido em um acidente de trânsito, enquanto o pai teria tirado a própria vida. Em outros momentos, dizia ter sido vítima de abusos e abandonada pela família.

As vítimas relatam que a mulher interpretava vários personagens ao mesmo tempo, se passando pela mãe, pelo pai e até pela avó da suposta adolescente.

Pedidos de dinheiro levantaram suspeitas

De acordo com os relatos, a desconfiança surgiu quando começaram os pedidos de dinheiro para custear exames, medicamentos, tratamentos e procedimentos médicos.

A suposta família da adolescente alegava dificuldades financeiras para arcar com os gastos hospitalares e fornecia chaves Pix para receber doações.

As vítimas afirmam que diversas transferências foram realizadas ao longo de meses. Sempre que alguém sugeria visitar a adolescente pessoalmente, uma nova justificativa era apresentada para impedir o encontro.

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Foto: Reprodução.

A fraude começou a ser descoberta quando integrantes do grupo entraram em contato com o hospital onde Emily afirmava estar internada.

Segundo eles, a unidade de saúde informou que não havia nenhuma paciente com aquele nome em tratamento contra leucemia.

Detalhes da história começaram a levantar dúvidas

Além dos pedidos de dinheiro, algumas inconsistências nas histórias contadas pela suposta adolescente passaram a chamar a atenção de integrantes do grupo de oração.

Segundo Tatiane, a falsa Emily participava frequentemente de transmissões ao vivo usando máscara de oxigênio e acessórios que reforçavam a imagem de uma paciente em estado grave.

Em determinado momento, a personagem passou a afirmar que havia sofrido a amputação de um dos braços em decorrência das complicações da doença. No entanto, durante uma das chamadas de vídeo, integrantes do grupo perceberam uma contradição.

“Ela desligou a live com o braço que teria sido amputado”

revela a vítima.

O episódio aumentou as desconfianças e levou algumas pessoas a investigar mais profundamente as informações fornecidas pela suposta adolescente, o que posteriormente ajudou a revelar o golpe.

Vítima chegou a tatuar nome da falsa adolescente

O envolvimento emocional foi tão grande que uma das vítimas chegou a tatuar o nome “Emily” no braço em homenagem à menina que acreditava estar lutando contra o câncer.

Após descobrir o golpe, a tatuagem acabou sendo coberta.

“Eu não posso me arrepender de ter sido boa. Não posso me arrepender de ter ajudado. Não posso me arrepender de querer estender a mão”

afirmou a vítima.

Investigação no Paraná pode ser retomada

Segundo a defesa de algumas vítimas, um inquérito chegou a ser instaurado no Paraná em 2022 para investigar os fatos registrados em Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba.

No entanto, a investigação acabou sendo arquivada por falta de identificação da autora.

Após a prisão da suspeita em Santa Catarina, a Polícia Civil do Paraná informou que pretende intimar vítimas para realizar o reconhecimento da mulher. A medida pode resultar na reabertura das investigações.

Prisão em Santa Catarina

A suspeita foi presa no dia 2 de junho em Joinville, após uma família descobrir que a adolescente acolhida por eles era, na verdade, uma mulher adulta.

Segundo a Polícia Civil de Santa Catarina, ela conheceu a família por meio de uma igreja evangélica e relatou histórias falsas sobre abusos, exploração sexual e abandono familiar para sensibilizar os membros da comunidade.

Durante o período em que viveu com os moradores, teve alimentação, roupas, tratamentos médicos e outras despesas pagas pela família. Ela também recebeu uma festa de aniversário de 12 anos e chegou a ser tratada com o medicamento Mounjaro para uma suposta obesidade infantil.

Ainda conforme a investigação, a mulher mantinha comportamento infantilizado, utilizava chupetas, mamadeiras e cobertores para reforçar a falsa identidade.

A Polícia Civil de Santa Catarina informou que a suspeita foi indiciada pelos crimes de estelionato e falsa identidade. O processo está suspenso temporariamente enquanto é realizado um exame para avaliar sua capacidade mental.

As autoridades também apontam que ela possui registros de ocorrências semelhantes em diversos estados brasileiros.

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