O esquema criminoso que vendia cirurgias bariátricas realizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no Hospital Angelina Caron, em Campina Grande do Sul,  na região metropolitana de Curitiba, prendeu médicos, técnicos de enfermagem, nutricionistas, psicólogos e até mesmo donos de pousadas na região. Ao todo, a Polícia Civil prendeu 14 pessoas com mandado de prisão temporária e três em flagrante pelo crime de porte ilegal de arma de fogo.

O delegado Thiago Nóbrega, da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), responsável pela  Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Saúde (Decrisa), que investigou o esquema, garantiu que diversos profissionais sabiam da fraude e ainda davam suporte às cirurgias bariátricas pagas ilegalmente. “Existia uma equipe de servidores que estava a par da situação e envolvida com essa organização criminosa, com leitos, quartos específicos para a prática. Não todos, mas havia a participação de técnicos de enfermagens, médicos, psicólogos, nutricionistas”, disse o delegado.

 

Hospital Angelina Caron, em Campina Grande do Sul, onde acontecia a fraude. Foto: Divulgação

 

Durante o cumprimento dos mandados de prisão, outras três pessoas foram detidas em flagrante. “Além das 14 prisões temporárias, outros três foram presos em flagrante pelo crime de porte ilegal de arma de fogo. Então, são 16 pessoas, entre médicos, técnicos de enfermagem, donos de pousadas, agenciadores. O vereador, que era um dos agenciadores, também foi preso em São Paulo. Teve também a prisão de um auditor fiscal que trabalhava aqui na Regional da Saúde em Curitiba”, contou o delegado à Banda B.

A participação do auditor fiscal da 2ª Regional de Saúde, em Curitiba, era a de fazer vistas grossas para os documentos falsos e autorizar o procedimento, mesmo ciente da ilicitude, segundo a Polícia Civil. “Ele autorizava esses procedimentos irregulares, mesmo que essas guias fossem falsas, com dados falsos e, muitas vezes, as guias eram duplicadas para que os médicos pudessem receber duas vezes perante o SUS. Esse auditor autorizava indevidamente esses procedimentos”, completou Thiago Nóbrega.

Ainda, donos de pousadas também foram presos no esquema, já que depois de realizarem a cirurgia, os pacientes ficavam hospedados nesses locais da região para facilitar o retorno ao hospital em sete dias para receber alta para voltar às cidades de origem. “Como essa cirurgia é feita apenas em pacientes do Paraná, esses intermediadores que captavam pessoas que estavam nas filas falsificavam documentos de pessoas que eram de outros estados: guia de internamentos, documentos, celulares com DDD 41, endereços daqui, para que essas pessoas pudessem furar fila mediante a pagamento e realizar a bariátrica. Esses donos de pousadas sabiam do esquema e também foram presos”, descreveu o delegado à Banda B.

A organização criminosa é investigada pelos crimes de extorsão, falsidade ideológica, uso de documento falso, concussão e organização criminosa.

Hospital

Assim que a Operação começou, o Hospital Angelina Caron (HAC) emitiu uma nota oficial à imprensa afirmando que não realiza cobrança de paciente para os procedimentos feitos pelo SUS.

“As denúncias acerca desse tipo de fraude têm recebido a atenção do HAC, que também é vítima de eventuais ilegalidades praticadas por pessoas que prometam agilizar o atendimento mediante pagamento, enganando e aproveitando-se de pacientes. O hospital realizou dois boletins de ocorrência na Delegacia de Polícia de Campina Grande do Sul, em maio de 2019 e em janeiro de 2020, sobre denúncias recebidas acerca de cobrança e privilégio de atendimento em caso de paciente candidato a cirurgia bariátrica. O hospital está e sempre esteve à disposição das autoridades, não tendo recebido qualquer notificação em processo aberto para apurar práticas ilegais que envolvam seus colaboradores”, diz a nota.

No entanto, o delegado Thiago Nóbrega disse que os dois boletins de ocorrência feitos pelo hospital aconteceram quando a operação já estava no período de investigação. “Talvez tenham sido feitos mais com o intuito de se resguardar de eventuais responsabilidades”, finalizou o delegado.

Saúde

A Secretaria de Estado da Saúde também se manifestou por meio de nota à imprensa.

“A SESA lamenta que práticas irregulares e distorcidas no atendimento do sistema público de saúde ainda aconteçam. A operação deflagrada pela Polícia Civil nesta terça-feira (6) vai auxiliar no esclarecimento dos fatos. A Sesa abriu procedimento interno para apurar possíveis ilegalidades e atuado em conjunto com os órgãos de controle e que comprovada qualquer irregularidade, que os envolvidos sejam responsabilizados”, diz a nota, na íntegra.