Uma cabeleireira, moradora de Curitiba, foi vítima do golpe do “falso juiz” enquanto aguardava para receber o benefício do INSS. A mulher teve três contas bancárias invadidas, o que somou cerca de R$ 10 mil de prejuízo, além de ter o WhatsApp clonado pelos golpistas.

A vítima, que não quis ser identificada, relatou à Banda B que os golpistas agiram de forma coordenada. Um número de telefone com a foto, o nome da advogada, e todos os dados do processo, a orientou a entrar em um link para uma videochamada, alegando se tratar de uma audiência. Durante a chamada, que durou mais de duas horas, o falso juiz conseguiu clonar o aparelho celular da vítima.
“Nessa audiência fake onde eu entrei, ele pediu para eu fazer alguns trâmites lá e conseguiu fazer o espelhamento do meu celular. Através do meu celular, ele foi entrando em todos os meus dados e pedindo para que eu fizesse as coisas. Ele olhava o meu celular e falava para eu fazer o que ele pedia, e foi fazendo as coisas no banco”
explicou a cabeleireira.
A mulher explicou que o golpista falava de forma convicta, passando credibilidade.
“Ele mandou mensagem pelo WhatsApp (falso) da minha advogada falando que já era meio-dia a audiência, e isso era 11h45, então ele agia muito rápido. Quando ele entrou em contato comigo, falou que tinha que aumentar o score da minha conta do PicPay e, para aumentar, tinha que tirar o dinheiro da conta do Itaú e mandar para a conta do PicPay. Eu fui falando para ele onde eu tinha dinheiro, porque eu precisava aumentar o score do meu PicPay”.
A cabeleireira disse que só desconfiou do golpe quando mandou mensagem para o número original da advogada.
“Como ele tinha todos os meus dados, eu realmente achei que era ela. Ele me mandou a mensagem e foi pedindo nova jurisdição, nova jurisdição… Eu, como estava demorando para mandar a jurisdição, mandei para minha advogada em outro telefone que ela tinha, que era particular, aí ela pegou e falou que não estava entendendo nada. Foi aí que eu entendi que aquela não era ela”.
Cabeleireira sofre golpe do “falso juiz”: prejuízo soma mais de R$ 10 mil entre ela e familiares
O golpista fez com que a mulher transferisse valores de uma conta a outra, fazendo com que o prejuízo chegasse aos R$ 10 mil.
“Na minha conta do PicPay eu tinha só R$ 280,00 ali. Ele pegou e fez um empréstimo no PicPay, falando para eu clicar — com o meu celular espelhado, ele falou para eu clicar em alguns botões ali — e fez o empréstimo no PicPay. E daí ele pegava e falava para eu tirar do banco. O empréstimo no PicPay acho que foi de uns 3 mil; eu sei que somando tudo dá 10 mil reais”.
A vítima perdeu o próprio dinheiro, o dinheiro dos pais e do marido.
“No Itaú eu tinha 4 mil, que era da minha mãe, pois eu guardo o dinheiro dos meus pais. Eu não vi maldade porque eu estava tirando o dinheiro da minha conta pondo para a minha própria conta. E daí, nisso também, como ele falou que precisava aumentar o score e já tinha acabado o dinheiro do Itaú para o PicPay, aí que entrou o do meu esposo também, do Banco do Brasil. Ele pediu que o meu marido fizesse um Pix para mim, mas não era qualquer Pix, ele pedia os valores; ele falou que era de 2.700”.
Marido da cabeleireira utilizou o limite do banco para fazer o Pix.
“O meu marido não tinha isso na conta dele, mas ele (golpista) falou que não tinha problema, que podia fazer, porque tinha o limite. Eu falei: ‘tudo bem, porque depois que terminar isso, eu vou devolver, porque está na minha conta’. Isso ele já estava acessando a minha conta e eu não sabia. E ele foi limpando a minha conta”.
Após perceber que caiu em um golpe, a vítima tentou contestar os Pix através dos aplicativos dos bancos e registrou um boletim de ocorrência na Delegacia de Estelionato.
Advogada alerta para golpes do falso juiz
A advogada Michele Ortis relatou à Banda B que o sentimento é de impotência ao ver uma cliente ser vítima de um golpe.
“Um sentimento de impotência ali, porque você sabe que é um golpe ali, você não sabe como agir de certa forma, então eu tentei orientá-la nessa questão. Procuramos ali o poder de polícia para a polícia poder entrar com os meios cabíveis”
relatou.
A advogada disse ainda que ver os golpistas utilizando a própria foto gera questionamento sobre sua credibilidade.
“Foi desesperador, porque é a sua imagem, e as pessoas acabam duvidando após isso. Ali, quando é você e quando não é você que está mandando mensagem, gera uma sensação péssima”.

Michele comentou sobre como os golpistas estão ficando cada vez mais rápidos e especializados. “Eles aproveitam esse senso de urgência. Então, como os golpistas estão se especializando cada vez mais, eles atuam de uma forma rápida para não dar tempo de a pessoa perceber que está num golpe e procurar ajuda, não dar tempo de ela pensar. Então, eles agem com muita rapidez ali e de uma forma que qualquer pessoa pode cair. Então, pode ser uma pessoa estudada, pode ser uma pessoa sem estudo; infelizmente ninguém está livre de cair num golpe. Então, é realmente tomar todas as medidas ali cabíveis para tentar parar, pensar, para não cair ou reduzir o máximo possível as chances de cair num golpe”.
A advogada explicou que o próximo passo da defesa é tentar identificar os golpistas. Além disso, reforça que não se deve repassar qualquer dado pessoal a números desconhecidos e não entrar em links suspeitos.
“Nesse caso a gente está trabalhando juntamente com a polícia para ver formas de identificar o golpista e também entrar em contato com o Google para tentar identificar o IP, toda essa questão de segurança […] entrou em contato com um número diferente? Liga, não atenda, não responda. Pare, respire, pense. Se ele ainda ficou na dúvida, converse com um colega, converse com o marido, entre em contato com o canal oficial do escritório, entre em contato com o advogado.
Ainda segundo a advogada, audiências, por lei, são agendadas com antecedência mínima de 30 dias. Ela reforça que o próprio advogado vai entrar em contato e, caso o seu advogado não esteja na audiência, desconfie, tire print e saia do link.
O caso foi registrado na Delegacia de Estelionato e segue sendo investigado pela Polícia Civil.