Um homem que se identifica como olheiro de futebol foi preso em flagrante por estelionato, e é investigado pelo crime de tráfico de pessoas, após trazer dez adolescentes do Mato Grosso para Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba. O preso, de acordo com o Ministério Público do Trabalho (MPT) e o Ministério Público do Paraná (MP-PR), teria feito falsas promessas às vítimas.

A polícia esteve no local onde o suspeito atuava após o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) de Piraquara ter desconfiado do estabelecimento, que funcionava como uma espécie de escolinha na região.

“Ele foi preso porque foi constatado que efetivamente havia dez meninos que foram aliciados sob falsas promessas e estavam em situação de servidão. Logo, houve a prisão conforme requerido pelo MPT e MP-PR”, afirmou a procuradora do trabalho Cristiane Maria Sbalqueiro Lopes à Banda B.

Foto: Ministério Público do Paraná

Ainda, a profissional explicou o porquê do caso ter se enquadrado em um crime de tráfico de pessoas: “Quando se arregimenta pessoas em uma localidade sob falsa promessa e as mantêm enganadas em uma espécie de servidão, estamos diante da hipótese do crime previsto no 149A do Código Penal, que é o crime de tráfico de pessoas”.

Crime

À Banda B, Cristiane disse que o suspeito mentia para as vítimas, alegando que conhecia grandes nomes e que já havia revelado importantes atletas no Brasil. “Como ele foi até uma região simples próximo à Cuiabá, que não tinha uma escolinha de futebol e sem grandes expectativas de revelar talentos, ele fez o ‘canto da sereia’ e disse que no Sul seria maravilhoso para os adolescentes”.

O homem teria, antes de tudo, convencido os professores da escolinha a qual pertenciam as vítimas e, em seguida, as famílias. Além de serem mantidos em condições de servidão, os pequenos atletas tinham que pagar mensalmente para jogarem futebol. O valor informado pela procuradora do trabalho é de R$ 1 mil.

Foto: Ministério Público do Paraná

“Eles ficavam treinando na expectativa de ficarem em boa forma para serem colocados em algum clube. O homem dizia que tinha acesso ao Coritiba, por exemplo. Levou os adolescentes para treinar em algum lugar e disse que eles estavam fazendo um teste para o clube. No entanto, o Coritiba afirmou que não havia qualquer tipo de teste, até porque as atividades da categoria de base estão suspensas por causa da pandemia”, afirmou.

Sbalqueiro destacou que as famílias, de origem humilde, pagavam mais do que podiam. “Muitos deles não conseguiam acreditar que o sonho com esse olheiro havia acabado”, mencionou.

Resgate

Os adolescentes foram encaminhados a um abrigo secreto e ficaram sob cuidados do Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas no Estado do Paraná, conforme revelou a procuradora. Na sequência, todos retornaram às suas casas, na Região Metropolitana de Cuiabá (MT).

Foto: Ministério Público do Paraná

Ao serem questionados sobre a confiança posta sobre o suposto olheiro, os próprios meninos teriam dito que apenas gostariam de ter oportunidades. “Eles diziam para mim: ‘Não parecia uma grande oportunidade, mas de qualquer forma era melhor do que nada.’, revelou a procuradora.

Defesa

O advogado Vinicios Michael Cardozo, que defende o investigado, disse à Banda B, que seu cliente foi preso em flagrante por suspeita de ter cometido o crime de estelionato e que, até então, não aparece a questão do tráfico de pessoas no processo.

A defesa ainda afirmou que seu cliente possui “uma vasta documentação, desde as autorizações assinadas pelos pais dos menores até as autorizações de uso de marca de clubes”. E disse que apresentará os papéis para comprovar que a família permitiu a vinda dos adolescentes ao Paraná.

“Entendemos que a prisão dele não cumpria requisitos para ser cautelar, não oferecia riscos à ordem pública e à sociedade. E não entendemos que fosse necessária uma medida tão gravosa”, disse após ter alegado que um habeas corpus foi julgado.

De acordo com Cardozo, o suspeito passou mal após ter sido autuado em flagrante e teve de ser levado ao hospital.