No segundo dia do julgamento do delegado Erik Busetti, acusado de matar a tiros a esposa e a enteada em março de 2020, a família das vítimas defendeu que ele seja condenado por feminicídio. Em protesto na frente do Tribunal do Júri, em Curitiba (PR), a família relembrou o aniversário da jovem Ana Carolina de Souza, que completaria 21 anos nesta terça-feira (2).

O júri popular do delegado começou nesta segunda-feira (1º), com previsão de durar três dias. O julgamento aconteceria em abril, mas foi adiado a pedido da defesa dele. A nova sessão teve início por volta das 10h, e a expectativa é que o dia seja destinado à oitiva das testemunhas arroladas pela defesa do acusado.

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Karoline Fernanda de Souza Machado lamenta morta da irmã e da sobrinha — Foto: Djalma Malaquias/Banda B

À Banda B, a irmã da policial civil Maritza Guimarães de Souza, morta aos 41 anos pelo delegado, disse que Erik Busetti deve ser condenado por feminicídio, ou seja, assassinato em função do gênero.

“Temos quase certeza de que ele vai ser condenado, é nossa esperança. Hoje seria um dia de alegria porque a Ana completaria 21 anos, mas não podemos comemorar porque ela foi arrancada de nossas vidas de uma forma muito brutal. Elas morreram abraçadas. [Choro] A dor aumenta a cada dia e esperamos que essa história tenha um ponto final. Foi feminicídio! Não tem o que tirar. Um bom homem e bom pai não mata a esposa e enteada”,

irmã de Maritza, Karoline Fernanda de Souza Machado.

Ex-marido de Maritza e pai de Ana Carolina, assassinada aos 16 anos pelo delegado, Luiz Eduardo Holz viajou do Rio Grande do Sul até Curitiba para acompanhar o julgamento. Em entrevista à Banda B no dia do aniversário da filha, ele rotulou o crime como um “ato selvagem”. “Ele [delegado] era uma pessoa que deveria estar qualificada para enfrentar situações difíceis e de crise, mas fez uma loucura dessa. Eu quero ficar aqui até o último dia para ouvir a sentença”, disse, emocionado.

O que dizem a defesa e a acusação

O advogado Renan Canto, que compõe a defesa do delegado, argumentou que o crime não está relacionado a um feminicídio. Segundo ele, Erik “reagiu a injustas provocações” ao atirar e matar Maritza e a filha dela.

“Não podemos condenar um delegado que sempre teve sua conduta ilibada por uma cena de dez segundos. Temos que olhar o todo para saber como esse nuvem se formou. Ele é um ser humano e todos têm reações. Aquele homem reagiu a uma injusta provocação. Isso está comprovado!”, disse Canto à reportagem.

Para o defensor do delegado, os advogados que defendem a família das vítimas “têm medo”. “A acusação tem medo. Ela desistiu de duas testemunhas que eram fundamentais para o desenho dessa causa. O pai da Ana Carolina ia desvelar um pouco da personalidade da Maritza e da filha, o que é imprescindível para o julgamento”, acrescentou ele, que destacou que não ocorria episódios de violência dentro da casa dos envolvidos.

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O delegado Erik Busetti no segundo dia de julgamento no Tribunal do Júri, em Curitiba — Foto: Bruna Froehner/Divulgação

Já a advogada Louise Mattar Assad, que defende a família de Maritza e Ana Carolina, argumentou que ouvir os parentes das vítimas seria uma forma de “revitimizá-los”. Disse ainda que o tempo de julgamento pode ter influenciado na dispensa das testemunhas.

“Quem desistiu foi a outra assistência. Acredito que seja por causa do tempo de plenário. É exaustivo e as pessoas cansam. Revitimizaria aquele pai da mesma forma que a irmã da Maritza. O júri já está aqui para isso. Eles não viram e presenciaram nada. Não tem porque ouvir essas pessoas”, sustentou ela.

Sobre a intenção da defesa do delegado em afastar a qualificadora de feminicídio, Louise Mattar Assad destacou que não é necessário haver histórico de violência doméstica para configurar tal crime.

“Para ser violência doméstica, não precisa ter uma recorrência de atos. Infelizmente, no caso da Maritza, pela tese da defesa, por uma vez ela foi executada com muitos tiros abraçada com a filha. Sim, foi no ambiente doméstico, com agressão anterior. Foi, sim, um feminicídio”,

Louise Mattar Assad, advogada da família.

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Adolescente morta abraçada com a mãe completaria 21 anos hoje; julgamento de delegado entra no segundo dia

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