Empresário diz que reconheceu suspeito morto por boné levado em furto, em São José dos Pinhais; defesa estuda teses

Uma testemunha disse que o comerciante teria agredido a vítima com socos antes do disparo; Orlando afirma que não tinha 'intenção de acertá-lo'

Guilherme Lara da Rosa e Eliandro Santana

O advogado Nilton Ribeiro passou a integrar — junto com Caio Percival — a defesa de Orlando Machado, comerciante de 73 anos que atirou e matou Tiago Alexandre Woiciechowski, de 34, apontado como suspeito de furto em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba. Em entrevista nesta sexta (22), o defensor afirmou que “tudo está se esclarecendo” e que a estratégia passa a considerar três teses jurídicas: inexigibilidade de conduta diversa, legítima defesa e violenta emoção após injusta provocação.

Ribeiro também disse esperar a confirmação de que objetos furtados do comerciante — dinheiro, dólares e armas registradas — teriam sido encontrados na casa de Tiago. “Está se comprovando que realmente o Tiago foi quem furtou o seu Orlando, foi quem furtou diversas vítimas em São José dos Pinhais. Essa pessoa tinha uma ficha extensa de crimes patrimoniais. Então, o inquérito está andando de uma forma muito bem conduzida pelo doutor Fábio”, afirmou o advogado.

Orlando Machado durante depoimento à polícia; comerciante foi liberado após ser ouvido – Foto: Reprodução/Polícia Civil

Além da legítima defesa, o advogado prioriza a tese de inexigibilidade de conduta diversa (quando não seria razoável exigir do réu outro comportamento) e estuda a de violenta emoção.

No depoimento à polícia, ao qual a Banda B teve acesso, Orlando relatou que reconheceu o suspeito pelo boné que teria sido levado no furto de sábado (16) — um modelo com a marca Toyota Corolla GR. O comerciante explicou que sua casa foi arrombada no sábado à noite e afirmou ter visto nas câmeras a ação de um homem por cerca de 12 minutos. Segundo ele, foram levados relógios, dinheiro, dólares e duas armas registradas.

No domingo (17), afirmou ter visto um homem “campanando” em frente ao imóvel, usando o boné furtado. Segundo o depoimento, Orlando abordou o suspeito, mandou esvaziar a sacola e disse que chamaria a polícia. Disse ainda que o homem levantou “de forma hostil”, que temeu pela própria integridade — por não saber se o suspeito estaria armado — e que efetuou “um único disparo”.

“Eu vi aquele cara lá. Mas pera aí, parece que é o meu boné. Fui lá. É reconhecível. É reconhecível o boné. Esse da Toyota, o Corolla GR, ganhei de presente do meu amigo lá. Cheguei nele e falei: ‘Ô, pia, tudo bem? Está fazendo o que aí?'”, afirmou Orlando. Tiago responde: “É, estou aqui perdido, vim do terminal agora'”.

Em seguida, Orlando afirma ter reconhecido outras coisas que haviam sido levadas de sua casa. Depois de uma breve discussão, o idoso teria retornado para casa para buscar a arma. Questionado pelo delegado se reconheceu Tiago como o autor do furto por meio das imagens de câmeras de segurança que assistiu logo após o crime, o comerciante respondeu: “Pelo porte físico, sim. Porque ele estava bem diferente, tinha trocado de roupa, ele usou um boné para entrar.”

“Fui lá de volta: ‘Piá, tira todas essas coisas aí [da mochila] porque arrombaram a minha casa e essas coisas aí que eu estou vendo aqui são minhas'”, teria dito Orlando a Tiago, que negou ter furtado os itens. “Cadê o celular? Dois celulares. Está faltando dinheiro”, completou o idoso.

Após a discussão, Tiago teria tentado fugir. “Ele não falava nada. Ficou inerte, parado. Eu disse: ‘Você não vai sair daí. Nós vamos ligar para polícia para ver a tua situação’. Ele levantou, e eu fui atrás dele”, acrescentou.

Empresário se apresentou à polícia nesta segunda (18) e foi liberado após prestar depoimento — Foto: Eliandro Santana/Banda B

“Nisso, ele virou de frente. Aí, só foi um disparo. Eu não tinha intenção de acertá-lo. Nunca tive a intenção de acertar ninguém, de matar ninguém”, afirmou Orlando, que tem registro de CAC (Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador).

Testemunhas e vídeo contestam

Uma testemunha disse que o comerciante teria agredido a vítima com socos antes do disparo, e que, após o tiro, pediu para que ninguém chamasse a polícia. Novas imagens de câmera de segurança divulgadas pela RICtv mostram o comerciante se aproximando do homem sentado, recolhendo pertences e, na sequência, uma discussão e agressões que antecedem o tiro.

Quem era a vítima

Tiago Alexandre Woiciechowski tinha antecedentes por furto e dano, e havia saído da Colônia Penal Agrícola cerca de dois meses antes. Até a segunda-feira (18), a polícia ainda tentava localizar familiares. A identificação dele chegou a ser apontada como inconclusiva em análise preliminar. A Polícia Civil aguarda confirmações periciais definitivas.

Próximos passos

O delegado Fábio Machado, responsável pelo caso, destacou que o empresário pode ter confundido a vítima com o autor do furto e ressaltou que não havia registro de boletim de ocorrência sobre o crime relatado pelo comerciante. Segundo o delegado, Orlando teria ainda pedido para que as pessoas que presenciaram o episódio não chamassem a polícia.

“As testemunhas nos disseram que, em momento nenhum, ele [Orlando] falou: ‘Olha, você está preso, vamos chamar a polícia’. Isso não foi narrado. Ele relata para as testemunhas assim: ‘Fica todo mundo quieto, ninguém chama a polícia, vocês não viram nada’. Ou seja, deliberadamente a intenção desse senhor seria, sim, fazer justiça num fato que ele realmente estava transtornado”, explicou.

O inquérito deve ser concluído nos próximos dias, com análise de imagens, perícias e depoimentos. Com o relatório em mãos, o Ministério Público decidirá se oferece denúncia. A depender da acusação, o idoso pode ir a júri popular.

A defesa afirma que só “baterá o martelo” sobre a tese principal após o relatório policial. Até lá, sustenta que Orlando agiu sob forte emoção e temor diante de quem considerava o autor do furto.

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