Pouco mais de quatro anos após o empresário Jean Carlos Pereira ser assassinado a tiros na frente dos filhos e da esposa, em Curitiba (PR), começa nesta segunda-feira (27) o julgamento do acusado de ser o mandante do crime. Ao todo, três pessoas devem sentar no banco dos réus do Tribunal do Júri hoje, enquanto uma quarta segue foragida.

De acordo com o Ministério Público do Paraná (MPPR), entre os presos está o réu considerado mandante do crime. A Promotoria afirma que os quatro “associaram-se para o fim específico de cometer crimes” e que matavam “quaisquer pessoas que atrapalhassem a empreitada criminosa”.

Jean Carlos Pereira
O empresário Jean Carlos Pereira, morto em 10 de fevereiro de 2020 – Foto: Reprodução

As investigações em torno do crime apontam que o empresário Jean Carlos Pereira foi morto a mando do próprio amigo e colega de trabalho, Sandro Marcelo Castelan. Além disso, Jean teria sido executado por ter descoberto e denunciado os crimes cometidos pelo grupo.

Em carta aberta divulgada pelo Bora Paraná (TV Band), a viúva de Jean Carlos o descreveu como um “marido esforçado, pai de família e amigo para todas as horas”. Diz também que a vítima confiava nas pessoas, inclusive no acusado de ser o mandante do crime. Segundo ela, a morte do marido foi provocada pela “ganância” (leia a carta na íntegra mais abaixo).

O crime e a motivação

Uma câmera de segurança registrou o momento em que um homem armado invadiu uma loja de tapetes automotivos, em fevereiro de 2020, e assassinou Jean Carlos Pereira na frente da esposa, dos dois filhos pequenos e de uma funcionária. Ele foi atingido por pelo menos cinco tiros e chegou a ser socorrido ao hospital, mas não resistiu aos ferimentos, como mostrou a Banda B à época.

 “Foram várias perfurações pelo corpo. Encontramos ferimentos no peito, no rosto, nos dois braços e uma perfuração no abdômen”, disse o médico Márcio Nogarolli no dia do crime.

Cerca de seis meses depois do crime, o atirador foi preso pela Polícia Civil em Matinhos, no litoral do Paraná. Durante depoimento, ele confessou ter matado o empresário e revelou que receberia R$ 5 mil em troca.

Segundo divulgou a Polícia Civil à época, Jean Carlos teria trabalhado na construção de uma usina solar em Goiás com o amigo Sandro Marcelo Castelan – o que teria gerado um superfaturamento. As investigações apontam que Jean pode ter delatado a ação fraudulenta dos empresários para o contratante goiano, o que teria motivado o desentendimento e o crime.

Posteriormente, a polícia revelou que o contrato de R$ 5 milhões para a construção da usina motivou o crime. “Tudo indica que houve um desacerto na negociação da construção desta usina solar, e Jean Pereira estava envolvido na confusão, que gerou um prejuízo de R$ 5 milhões. Os dois empresários de Curitiba encomendaram a morte do lojista contratando uma pessoa que, por sua vez, terceirizou o assassinato contratando o executor”, afirmou, em junho de 2020, o delegado responsável pelo caso.

Sandro foi preso pouco mais de um ano depois do homicídio. Ele foi localizado escondido no forro de um sobrado situado no bairro Bigorrilho. Além disso, chegou a viajar para o exterior após o crime. 

A carta aberta da esposa

“O Jean era um pai de família, um marido esforçado, um filho amoroso e um amigo pra todas as horas. Ele confiava nas pessoas e não era diferente com o Sandro. É difícil acreditar que uma vida toda de amizade foi trocada pela ganância. Minha filha era recém nascida e Sandro era pra ser o padrinho dela.

Agora me diz: Como acreditar que seu melhor amigo, ao invés de seguir um caminho de honra e lealdade, prefere mandar te matar? Hoje é muito claro para todos nós que a amizade entre eles era uma via de mão única. No momento em que a vida aperta ou quando as coisas ficam difíceis que devemos agir com seriedade e cuidar daqueles que amamos. Foi isso que o Jean fez e, nesse intuito de fazer o bem, teve como consequência a morte.

Nada explica ou justifica uma atitude dessa. Ao matar o Jean, Sandro condenou a todos nós ao sofrimento. Uma parte de nós morreu junto. Ele não só matou meu marido, ele me transformou em uma viúva. Ele matou a mulher e a empresaria Rafaela. Eu tive que recomeçar minha vida como pessoa e como profissional. Eu sofri consequências materiais pelas quais eu respondo até hoje. O Sandro desarrumou a ordem natural da vida das pessoas em toda sua volta. Ele tirou o amor da minha vida, meu companheiro de sonhos.

Não sei se a ficha do Sandro caiu, mas ele também perdeu o único amigo verdadeiro que ele já teve até hoje. Meu marido foi morto na frente dos nossos funcionários e dos nossos filhos. Na minha frente. Tem como esquecer isso? Não existe nenhuma forma nesse mundo de drenar essa lembrança e diminuir a dor que ela carrega.

Dentro das imperfeições de um vida, eu construí o casamento dos meus sonhos e isso foi tirado de nós sem nosso consentimento. Meu marido não teve oportunidade de presenciar a primeira vez que o nosso filho fez seu primeiro gol e se apaixonou pelo futebol. Não presenciou sequer o aniversário de um ano da nossa filha.

Jean não teve oportunidade de dizer que me amava pela última vez.

Até agora, o Sandro não conseguiu cumprir sua promessa de me provar sua inocência. Já teve tempo suficiente pra fazer e não fez. No futuro, eu terei que remoer essa dor ao contar aos meus filhos a dura realidade sobre a ausência do pai deles. É um direito deles.

Então, hoje, eu deixo a justiça dos homens tomar a frente e fazer justiça pelo Jean. Assim, eu poderei dizer aos nossos filhos que a pessoa que desestruturou a nossa família pagou o merecido preço pelos seus atos.

E eu acredito fielmente que a maior justiça será no futuro, perante Deus.”

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Viúva de empresário executado na frente dos filhos em Curitiba expõe carta aberta no dia do julgamento do mandante; leia

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