Tradicionalmente, todo mês de dezembro a revista Science, uma das mais prestigiadas do mundo, lista as descobertas científicas mais relevantes do ano.

E, em 2020, a eleita –ou melhor, as eleitas– foram as vacinas contra a Covid-19, como não poderia ser diferente. O esforço coletivo de diversos pesquisadores, laboratórios, profissionais de saúde, médicos epidemiologistas, institutos de saúde pública e dos próprios governos, aliado aos recursos injetados para a pesquisa e desenvolvimento de uma vacina para acabar com a pandemia, levou a mais essa conquista da ciência.

Não só uma vacina ficou pronta em tempo recorde como em alguns casos houve também o ineditismo de tecnologias empregadas na busca das vacinas, como as da Pfizer/BioNTech e da Moderna. Pela primeira vez no mundo, vacinas de RNA foram produzidas, mostraram-se muito eficazes (com taxas acima de 90%) e, em um período colocadas para uso na população.

Em 31 de dezembro de 2019, a China notificou pela primeira vez à Organização Mundial da Saúde sobre casos de pneumonia ainda sem causa definida no país. Alguns dias depois, no início de janeiro, foi identificado o causador da doença, um novo coronavírus batizado depois de Sars-CoV-2.

A partir daí, o mundo todo voltou a atenção para o vírus e seu potencial devastador. No último dia 3 de dezembro, atingimos a triste marca de 1,5 milhão de mortes por Covid-19 no planeta.

vacina começa a ser distribuída nesta segunda no EUAFoto: Reprodução/Twitter

Hospitais de campanha foram instalados, medicamentos e terapias para ajudar os pacientes internados foram investigados e recomendações sanitárias, como o uso de máscaras e o distanciamento social, entraram no cotidiano de toda a população.

Ao mesmo tempo, laboratórios e institutos de pesquisa começaram a trabalhar em cima de uma vacina eficaz e segura que fosse capaz de impedir a infecção pelo vírus e dizimar a pandemia.

É verdade que ainda não sabemos quais vacinas terão potencial de impedir a cadeia de transmissão do vírus, uma vez que todas as vacinas em fase final de ensaios clínicos ou já aprovadas para uso emergencial tiveram bons resultados em impedir casos sérios da doença e o desenvolvimento de sintomas, mas sua ação em pessoas assintomáticas ainda é incerta.

De todo modo, diversos países no mundo hoje estão concentrados na possibilidade real de ter doses de algum imunizante –os mais próximos, além da vacina da Pfizer, já aprovada, são os da Moderna, Oxford/AstraZeneca, Janssen, Sputnik V e Coronavac– para pelo menos o primeiro trimestre de 2021.

O estudo e desenvolvimento das vacinas pôde ser acelerado graças ao aporte de recursos e aos anos de estudo anteriores, com plataformas tecnológicas sendo criadas e laboratórios e megafábricas de produção de vacinas construídos.

Com o surgimento de um novo agente causador, a fórmula pré-pronta de algumas vacinas, como o caso da Oxford/AstraZeneca, que vinham sendo estudadas para conter as epidemias de Sars e Mers, respectivamente, só teve de ter o material genético do vírus substituído pelo novo coronavírus.

Foto: Erasmo Salomao/Ministério da Saúde

Essa tecnologia e conhecimento de engenharia genética só foi possível graças ao investimento pesado em biotecnologia nas últimas duas décadas.

Em um editorial comentando o artigo da Science, Holden Thorp, editor-chefe das revistas do grupo, disse que essa descoberta é um “triunfo para toda a ciência”. “Não são só imunologistas, vacinologistas, epidemiologistas e médicos que devem comemorar. A dedicação para encontrar a verdade, melhorar a condição humana e documentar tudo isso para a posteridade é comum a todas as áreas da ciência, e esses princípios propiciaram esse momento. Então, embora astrofísicos podem não ter contribuído com o desenvolvimento de uma vacina contra a Covid-19 diretamente, eles são parte do ecossistema que permitiu isso acontecer.”

Embora a descoberta científica do ano sejam as vacinas contra a Covid-19, os desafios e obstáculos para conseguir frear e acabar de vez com a pandemia ainda irão perdurar. Com a disputa política em cima das vacinas e alguns governantes se colocando contra a evidência científica, cresce a parcela da população que diz não ter intenção de se vacinar.

Segundo o artigo, a hesitação do público em se vacinar somada a dificuldades logísticas como falta de seringas e até mesmo de armazenamento delas pode assolar ainda mais os planos ambiciosos de chegar “ao outro lado da montanha”. Efeitos adversos sérios, que devem ainda ser monitorados por vários meses a fio, podem também surgir no meio do caminho.

Mesmo assim, a notícia da chegada da vacina é promissora e uma boa forma de terminar o ano.

“O normal não vai retornar por um bom tempo. Mas nos próximos meses, enquanto as vacinas vão sendo aprovadas e surgindo no horizonte, nós podemos finalmente conseguir responder à pergunta, ‘quando é que tudo isso vai acabar?'”, finaliza o editorial.