Uma nova pesquisa revelou que um terço (33,8%) dos profissionais de saúde consideram que medicamentos podem ser utilizados para tratar Covid-19 mesmo sem comprovação de eficácia para esse fim.

Outros 66,2% defendem que remédios só sejam usados com eficácia comprovada. Quando os resultados são separados por profissão, 70% dos médicos defendem apenas o uso de medicamentos com comprovação específica para a doença, mas essa taxa cai para 61% entre profissionais de enfermagem.

O estudo foi realizado pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) em parceria com a Fiocruz e a Rede Covid-19 Humanidades. Foram feitas entrevistas virtuais com 1.520 profissionais da saúde pública (médicos, profissionais de enfermagem e agentes comunitários) no Brasil, entre os dias 15 de setembro e 15 de outubro. Etapas anteriores dessa mesma pesquisa foram publicadas em maio e julho.

As respostas foram voluntárias e não aleatórias. Por isso, não é possível fazer uma generalização para todo o universo de profissionais do país, mas os dados revelam as experiências e emoções dos profissionais de saúde pública que atuam na linha de frente no combate à Covid-19.

Os dados revelam também que mais da metade (52,2%) dos profissionais entrevistados não recebeu nenhum tipo de treinamento específico para a pandemia.

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Gabriela Lotta, pesquisadora e coordenadora do Núcleo de Estudos da Burocracia da FGV, explica que sem treinamento o profissional acaba agindo por conta própria. “A Covid-19 é uma doença nova, com informações atualizadas constantemente. Se não houve treinamento, o profissional vai experimentar sozinho novos tratamentos, vai buscar na tentativa e erro, e isso não tem nenhum cabimento.”

Embora esse indicador tenha melhorado desde a primeira rodada da pesquisa, a falta de treinamento entre os profissionais da atenção básica aumentou para 55,3%.

Para Lotta, a atenção primária foi subutilizada não só no Brasil mas no mundo todo. “Esta não é uma pandemia que colocou a atenção primária como estratégia. Os agentes políticos atacaram com a compra de respiradores, abertura de leitos de UTI, e a atenção primária ficou, desde o início da pandemia, abandonada.”

Sem uma estratégia nacional, cada município acabou decidindo sozinho como agir, mas o treinamento dos profissionais foi muito baixo. “Eles não tiveram nem equipamentos nem treinamento. Muitos profissionais foram alocados para outros hospitais, com pouco foco na prevenção.”

As condições de segurança e de preparo também afetaram esses profissionais durante a pandemia. Dos entrevistados, 79,9% disseram ter medo de se contaminar com o novo coronavírus e 94,5% afirmaram conhecer algum colega de trabalho com suspeita de diagnóstico de Covid-19 ou infecção confirmada.

A sensação de preparo é maior entre os profissionais de enfermagem (50,7%) e menor entre médicos (45,4%) e agentes comunitários (38,1%). Os últimos são também os que relataram ter recebido menos preparo: 65,7% dos agentes nunca receberam treinamento, enquanto 46,7% dos profissionais de enfermagem e 49,8% dos médicos disseram não ter recebido esse preparo.

“É preocupante porque esses profissionais estão atuando na linha de frente sem necessariamente ter segurança do que estão fazendo e com muito medo”, diz Lotta.

A falta parcial ou total de equipamentos de proteção individual (EPI) foi também uma das dificuldades reportadas pelos profissionais de saúde. Novamente, os agentes comunitários foram os mais afetados: 49,2% deles disseram nunca ter recebido ou recebido uma ou poucas vezes durante a pandemia os EPIs, contra 40,3% dos médicos e 30,3% dos profissionais de enfermagem.

A percepção do combate à pandemia pelo governo nas três esferas – municipal, estadual e federal – também foi analisada na pesquisa.

Enquanto 65,7% classificam como negativa a ação do governo federal, especialmente nas ações de proteção aos profissionais de saúde, o governo estadual (48,1%) e o municipal (44,6%) foram, em geral, melhor avaliados.

A pandemia revelou ainda que 79% participantes sentiram impactos negativos na sua saúde mental, embora menos de um terço (28,4%) tenha recebido apoio para isso.

Os profissionais de enfermagem foram os que se disseram mais impactados (80%). Um estudo realizado em setembro pelo Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP) mostrou que 87% dos profissionais de enfermagem tiveram sintomas da síndrome de burnout durante a pandemia.

Além do esgotamento físico e mental devido à carga de trabalho, 34% dos profissionais declararam ter sofrido assédio moral no trabalho (como a obrigação de trabalhar sem EPIs ou profissionais de grupo de risco que não foram afastados). Esse número aumentou 4% desde a rodada anterior. Quando questionados sobre se o assédio moral sofrido piorou ou se manteve igual desde antes da pandemia, 17% disseram ele aumentou, enquanto 7% relataram o assédio começou na crise sanitária.

A pesquisadora afirma que a segunda etapa da pesquisa avaliou a relação contratual com assédio moral sofrido e viu que os profissionais com vínculos contratuais mais vulneráveis, como os terceirizados e celetistas, foram os que mais sofreram assédio. “Um profissional estatutário dificilmente vai ser obrigado a trabalhar mesmo sendo grupo de risco, mas com o terceirizado há o risco de perder o emprego”, diz.