A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou recentemente um alerta sobre casos de pancreatite relacionados ao uso de medicamentos injetáveis para tratamento de obesidade e diabetes, conhecidos como ‘canetas emagrecedoras’. Especialistas ouvidos pela Banda B questionam o posicionamento, citam estudos científicos e abordam as principais causas da inflamação no pâncreas.

O Dr. Alexandre Hohl, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), ressalta que os cálculos biliares (pedras na vesícula) e triglicerídeos muito altos estão entre as causas mais frequentes de pancreatite.
Segundo ele, essas condições são comuns justamente em pacientes com indicação para o uso de medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1, como dulaglutida, liraglutida, semaglutida e tirzepatida
“Basicamente o que acontece é que fatores como triglicerídeos altos e cálculos biliares são comuns em pacientes que usam esse remédio: pessoas com obesidade e com diabetes mellitus. Essa é a associação principal. Os medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP-1 não são causas diretas de pancreatite”
disse Alexandre.
A médica endocrinologista Rafaela Perraro Sanderson afirma que os pacientes que perdem peso de forma mais rápida têm mais chances de desenvolver cálculos biliares.
“A inflamação do pâncreas nesses pacientes está mais relacionada ao uso do medicamento associado ao consumo excessivo de álcool e, principalmente, as pedras na vesícula. Pessoas que apresentam perda de peso mais rápida já possuem maior suscetibilidade à formação de cálculos. Por isso, mantemos acompanhamento clínico e a realização de exames em todos os casos”
explicou.
Segundo a Agência, foram registradas 145 notificações suspeitas de eventos adversos no Brasil, entre 2020 e 7 de dezembro de 2025, uma média de 12 notificações a cada mês. Seis dos casos suspeitos resultaram em óbito.
A Secretaria da Saúde do Paraná (Sesa) informou que a pancreatite não é uma doença de notificação compulsória e que os casos registrados são orientados quanto ao tratamento e investigação, mas não trouxe mais informações sobre os possíveis casos relatados no Estado.
Informações do DataSus apontam que, apenas no Paraná, foram realizadas 21.834 cirurgias para retirada da vesícula em 2025, procedimento que é indicado em situações de cálculos biliares.
O que dizem os estudos científicos
De acordo com o Dr. Hohl, estudos científicos já avaliaram a possibilidade do desenvolvimento da pancreatite relacionada ao uso das medicações citadas. O profissional citou uma pesquisa que indicou o semaglutida para a prevenção de doenças cardiovasculares em pessoas com obesidade.
“Nesses estudos foi feito um levantamento com 8.880 pacientes que tomaram a medicação e 8.880 do grupo de controle, que tomaram placebo. Apesar de o número ter sido muito próximo, o grupo de controle acabou tendo mais pancreatite do que o grupo que recebeu o remédio. Não tem aumento consistente de risco em nenhum estudo quando pensamos em pancreatite e o uso de medicamentos injetáveis”
afirmou.
Dra. Rafaela Sanderson também ressalta que a necessidade de fazer acompanhamento dos pacientes que usam medicamentos que atuam no emagrecimento é conhecido há mais de 20 anos.
“Desde que foi lançado o primeiro remédio para perda de peso e controle do diabetes, nós já debatemos sobre o pâncreas. Esse alerta sempre existiu em bula. Dos seis casos com óbitos citados pela Anvisa não foi possível definir a causa da pancreatite, existe um universo de fatores que podem estar associados”
disse.
A reportagem da Banda B entrou em contato com a Anvisa e pediu informações sobre os casos registrados no Paraná, mas ainda não recebeu retorno. A agência ressaltou que “o evento adverso “pancreatite” é conhecido e já foi identificado desde as etapas de estudos clínicos. Por isso, estes riscos, ainda que raros, estão previstos em bula dos medicamentos industriais registrados”.
Não há, neste momento, dado ou informação no sentido contrário às bulas aprovadas.
Risco do medicamento irregular
O Paraná é uma das portas de entrada para as ‘canetas emagrecedoras’ ilegais, devido a fronteira com o Paraguai. Recentemente a Polícia Federal (PF) deflagrou uma operação e apreendeu frascos do medicamento em Almirante Tamandaré, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC). Outro homem foi preso por policiais da Rondas Ostensivas Tático Móvel (ROTAM), com canetas emagrecedoras escondidas dentro de carro e em geladeira, em Curitiba.

Os profissionais alertam sobre o risco de adquirir os remédios irregulares. Alexandre Hohl ressalta que os remédios da classe dos agonistas do receptor GLP-1 são seguros para quem consome de forma regular e tem a indicação correta.
“O grande desafio que temos hoje no Brasil é a quantidade avassaladora de pessoas que estão usando esses medicamentos sem indicação adequada, inclusive produtos provenientes de países sem agências regulatórias, como ocorre com os que vêm do Paraguai, muitas vezes sem qualquer cuidado no transporte. Esses medicamentos precisam ser mantidos sob refrigeração, e essa irregularidade representa uma situação de risco”
afirma Hohl
Rafaela Sanderson ressalta que o alerta da Anvisa trouxe para o debate o papel das agências na farmacovigilância, ou seja, a vigilância que existe das empresas que produzem os remédios sobre os possíveis efeitos colaterais que eles podem causar, que também são acompanhados pela agência reguladora.
“Quando bem prescritos e regulamentados, os remédios podem mudar a vida dos pacientes. Os que vêm do Paraguai têm uma origem duvidosa e são perigosos. Medicações sem fiscalização colocam em risco o paciente e partimos do princípio que a pessoa que compra o remédio ilegal também não faz acompanhamento com um médico responsável”.
Termo ‘canetas emagrecedoras’ é questionável
O termo popular para os medicamentos que são conhecidos como ‘canetas emagrecedoras’ podem banalizar a eficácia dos produtos e também as doenças que tratam.
“Parece que banalizamos a obesidade e comorbidades e doenças associadas a esse quadro crônico”
afirma Rafaela.