A morte de um atleta durante o Ironman 70.3 Curitiba, no último domingo (8), reacendeu o debate sobre os riscos cardíacos associados a provas de resistência. O triatleta Sérgio Ferreira, de 45 anos, sofreu uma parada cardiorrespiratória durante a etapa de ciclismo da competição e não resistiu após ser encaminhado ao hospital.

Sergio Roberto Ferreira Junior triatleta morto Iron Man Curitiba
Comunidade ficou em luto pela morte de Sergio. Foto: Reprodução/Redes Sociais.

A organização do evento informou que a equipe médica identificou a necessidade de atendimento e prestou socorro imediato ainda no percurso. Mesmo com o encaminhamento para atendimento hospitalar, o atleta morreu.

A etapa em Curitiba reuniu cerca de 1,4 mil participantes, entre profissionais e amadores, vindos de 22 estados brasileiros e 15 países, e marcou a primeira vez que a capital paranaense recebeu uma prova do circuito internacional Ironman 70.3.

O caso, porém, trouxe à tona um tema recorrente na medicina esportiva: o risco de parada cardíaca durante exercícios de alta intensidade, especialmente em atletas amadores acima dos 35 anos.

Esforço intenso pode ser gatilho para doença silenciosa

Segundo o cardiologista Ricardo Zago, do Hospital Pilar, episódios como esse são raros, mas causam grande impacto justamente porque envolvem pessoas que aparentam estar saudáveis e fisicamente preparadas.

“A morte súbita durante atividade física de alta performance é um evento raro, mas quando acontece chama muita atenção porque envolve pessoas que parecem saudáveis. Na maioria das vezes, o exercício não é o vilão. O esforço intenso funciona como um gatilho para alguma condição cardíaca que já existia e ainda não havia sido diagnosticada”

explica o médico.

De acordo com o especialista, a causa mais comum em adultos acima de 35 ou 40 anos é a doença arterial coronariana, condição que pode levar ao infarto e também provocar arritmias graves.

“Na maioria das vezes isso ocorre por obstrução das artérias do coração, geralmente relacionada à aterosclerose. Esse risco se torna ainda mais importante quando existem fatores como hipertensão, colesterol alto, diabetes, tabagismo e histórico familiar”, afirma.

Além disso, outras condições menos frequentes também podem provocar parada cardiorrespiratória durante exercício intenso.

“Também podem ocorrer espasmo coronariano, trombose ou até dissecção de coronária. Em alguns casos entram como fatores contribuintes quadros como miocardite, desidratação importante e distúrbios de sais minerais”, explica o cardiologista.

Atletas jovens também podem ter risco

Embora a doença coronariana seja mais comum em atletas mais velhos, pessoas jovens também podem sofrer eventos cardíacos durante atividades intensas.

Segundo Zago, nesses casos costumam estar associadas doenças cardíacas hereditárias ou alterações elétricas do coração.

“Nos atletas mais jovens ganham mais importância as doenças cardíacas hereditárias, alterações elétricas primárias do coração e algumas doenças estruturais que podem permanecer silenciosas até serem desencadeadas por exercício de alta intensidade”

diz o especialista.

Avaliação médica pode reduzir o risco

Especialistas reforçam que, embora nem todos os casos sejam evitáveis, a avaliação médica antes de iniciar ou intensificar treinos pode reduzir significativamente os riscos.

“A maioria dos eventos pode ser prevenida com avaliação cardiovascular adequada antes de iniciar ou intensificar treinos e competições”, afirma o cardiologista.

Entre os exames que podem fazer parte dessa investigação estão:

  • consulta cardiológica e exame físico
  • eletrocardiograma
  • teste ergométrico
  • ecocardiograma
  • monitoramento com Holter

“A escolha depende da idade, do histórico da pessoa e do tipo de esporte praticado”, explica Zago.

Ele ressalta que não apenas atletas profissionais devem se preocupar com o acompanhamento médico.

“Pessoas que praticam atividade física regular, mesmo em intensidade moderada a alta, também devem passar por avaliação cardiológica, principalmente quando vão aumentar a carga de treino, iniciar uma nova modalidade ou participar de provas”

afirma.

Sintomas de alerta durante o exercício

Em muitos casos, o corpo dá sinais de que algo não está bem antes de um evento grave. O problema é que esses sintomas podem ser ignorados por quem está focado no desempenho.

“Dor no peito, falta de ar fora do habitual, palpitações, tontura, sensação de desmaio ou cansaço desproporcional ao esforço não devem ser normalizados”

alerta o médico.

Outros fatores também podem aumentar o risco cardiovascular durante provas longas.

“Hidratação inadequada, falta de sono, infecções recentes e uso de estimulantes ou substâncias para melhora de performance também podem contribuir para eventos cardíacos”, afirma.

Exercício continua sendo aliado da saúde

Apesar do alerta, especialistas reforçam que a atividade física continua sendo uma das principais ferramentas de prevenção de doenças cardiovasculares.

“A atividade física salva muito mais vidas do que coloca em risco. O exercício é essencial para a saúde. O ponto é que alta performance exige responsabilidade e acompanhamento adequado”

conclui Zago.

Para o cardiologista, treinar e competir é saudável, mas o cuidado médico precisa acompanhar o nível de exigência do esporte.

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