Com o objetivo debater a importância dos cuidados com a saúde masculina, a campanha ‘Novembro Azul’ tem ganhado cada vez mais destaque no calendário nacional. Para muitos, a ideia segue sendo aquela de que um homem que procura o médico é mais fraco, posicionamento que foi criticado nesta quarta-feira (18) pelo neurocientista Júlio César Luchmann, que concedeu entrevista à Associação das Emissoras de Radiodifusão Paraná (AERP).

Especialista em psicopedagogia, neurociência e emoção, Luchmann lembrou que, na maior parte das vezes, as doenças surgem por conta do desleixo do homem em entender os sinais do próprio corpo. “Uma estatística diz que 4% dos tipos de câncer, das patologias, de modo geral, tem fundo genético. Os outros 96% são epigenéticos, ou seja, é a expressão de um determinado gene ou a criação de uma condição ambiental que vai desenvolver aquela patologia. Basicamente, o descuidado com as nossas ações. Então, quando a gente diz ao homem que para evitar o câncer de próstata ele precisa realizar algumas coisas simples no seu dia-a-dia, como cuidar da alimentação, por exemplo, tem homem que diz que isto é besteira. Isto é desleixo”, criticou.

 

O neurocientista Júlio César Luchmann concedeu entrevista ao Em Pauta, da AERP, apresentado pela jornalista Juliana Sartori, nesta quarta-feira (18). Foto: Reprodução

 

O também psicopedagogo enfatizou os problemas que aparecem na vida do homem por ser menos sensível que as mulheres, de maneira geral. Segundo Luchmann, hoje não existe no comportamento masculino o hábito de pedir ajuda.

“É um complicador na saúde porque este ‘eu vou fazer tudo sozinho’ muitas vezes nos faz pensar que pedir ajuda pode ser algum tipo de fraqueza ou coisa do gênero, e na verdade não é assim. Eu trabalho com a parte de inteligência emocional e todos os dramas emocionais. Quando recebo um homem no consultório, que é uma parcela muito pequena porque 89% dos meus pacientes são mulheres, e digo que ele precisa ir a um psiquiatra ou em um psicólogo, é como se você estivesse batendo na cara dele”, revelou.

Cultura

Para o neurocientista, independentemente da idade, o homem é, de maneira geral, muito mais descuidado que as mulheres. O entrevistado fez questão de enfatizar isto porque, segundo ele, existe uma questão cultural no país que impede o desenvolvimento deste olhar aprofundado para os problemas que envolvem o corpo masculino.

“As gerações que passam dos 40 anos vem de um tempo em que o homem foi criado para ser muito auto sustentável e suficiente. A gente não tem tanto do olhar para a beleza, cuidar do corpo. Então, esta cultura instalada de não ter o cuidado também faz com que a gente não seja muito sensível para algumas coisas. Por exemplo, e para comparação, o Brasil não tinha esta cultura do guardar o dinheiro, mas hoje está muito mais comum. Isto está muito mais instalado com a questão de cuidar da saúde”, opinou.

Ainda sobre esta questão comportamental, Luchmann também criticou a crença geral de que “quanto mais for uma pessoa, mais difícil será mudar o seus hábitos”. Segundo ele, esta ideia também dificulta a iniciativa dos homens para buscar qualquer tipo de ajuda. “Isso não inviabiliza, não possibilita de maneira nenhuma, que a gente mude estes padrões. Só precisamos atacar esta questão que está instalada no país enquanto cultura. Os meios de comunicação entram muito forte nisto, em dar aquele puxão de orelha, aquele choque de realidade, ‘vai lá e faz logo de uma vez. Melhore esta condição’. A gente tem ganhado muito com isso”, afirmou.

Processo

Para ele, a saúde do homem deve ser compreendida nas etapas que a compõem, porque quando a pessoa fica mais velha, também é mais difícil de lidar com os problemas de forma natural. “Quando a gente é novo, até os nossos 28, 29 anos, a gente tem reserva para tudo. Reserva hormonal e mineral, por exemplo. Então, o corpo esta neste processo ascendente, e é neste momento que a gente poderia olhar para as nossas reservas, porque elas vão fazer falta quando a gente entrar na curva de estabilização hormonal, perto dos 30 anos. Aos 35 esta curva começa se tornar descendente, e aos 40 nós já estamos no precipício”, iniciou.

Apesar de dizer que o homem é um ser a parte, devendo ser estudado de uma forma individual, o psicopedagogo acredita que estes contextos deveriam ser discutidos desde a educação familiar e nas escolas.

“Esta questão do desleixo masculino a gente precisa mudar, urgentemente. Precisamos trabalhar com as crianças porque não significa que teremos qualquer tipo de problema só porque a gente está com 40 anos. Mas, neste momento, as nossas reservas já estão muito mais baixas, devendo ter feito a preservação lá atrás. Então, o perfil masculino deveria, em um processo de educação familiar, já começar a trabalhar esta questão da reserva corporal muito antes, quando a gente ainda é criança”, completou.

Vídeo

A entrevista completa do programa Em Pauta desta quarta-feira (18) está disponível abaixo.