A confirmação de 11 casos de hantavírus ligados ao navio de cruzeiro MV Hondius, incluindo três mortes, reacendeu um temor que o mundo passou a conhecer bem após a pandemia de Covid-19: afinal, o vírus pode provocar uma nova crise global de saúde?

Ilustração digital de partículas de hantavírus em destaque, representando o debate sobre o risco de pandemia após surto registrado em navio de cruzeiro.
Especialistas afirmam que o hantavírus tem baixo potencial de pandemia, apesar do surto que deixou mortos e infectados em um navio de cruzeiro. Foto ilustrativa: Magnific.

Hantavírus pode causar uma pandemia?

Segundo especialistas e a própria Organização Mundial da Saúde (OMS), a resposta é não. Apesar da alta taxa de letalidade em alguns casos, o hantavírus tem baixo potencial de transmissão entre humanos, o que reduz drasticamente o risco de uma pandemia.

O caso ganhou repercussão internacional após passageiros do cruzeiro, que fazia uma rota entre a Argentina, a Antártida e ilhas do Atlântico Sul, testarem positivo para a cepa Andes do hantavírus — uma variante rara encontrada na América do Sul e que pode ser transmitida entre pessoas em situações muito específicas.

Nesta terça-feira (12), a OMS confirmou um novo caso na Espanha: uma passageira evacuada do navio apresentou febre e dificuldade respiratória durante a quarentena em Madri. Apesar disso, o diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que “não há sinais de que estejamos vendo o início de um surto maior”.

O que é o hantavírus?

O hantavírus é transmitido principalmente por roedores silvestres infectados. O contágio costuma ocorrer pelo contato com urina, fezes ou saliva desses animais, especialmente em ambientes fechados, mal ventilados ou infestados.

Nas Américas, a doença pode evoluir para a chamada Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), considerada grave e potencialmente fatal.

A infectologista Flávia Cunha Gomide Capraro, do Hospital Sugisawa, explica que os sintomas podem ser confundidos com outras doenças conhecidas no Brasil.

“Em geral, o quadro começa parecendo leptospirose. Mas quando evolui de forma mais grave, com comprometimento pulmonar ou renal mais intenso, aí começamos a entender como hantavírus”

afirma Capraro.

Sintomas podem evoluir rapidamente

Os sintomas geralmente aparecem entre uma e oito semanas após a exposição ao vírus. Entre os principais sinais estão:

  • febre;
  • dores musculares;
  • dor de cabeça;
  • náusea e vômito;
  • dor abdominal;
  • falta de ar;
  • tosse;
  • insuficiência respiratória.

Nos casos mais graves, pode haver acúmulo de líquido nos pulmões, choque e falência renal.

Segundo especialistas, o diagnóstico é difícil porque os sintomas se parecem com gripe, dengue, Covid-19, pneumonia viral e leptospirose.

Existe transmissão entre pessoas?

Na maioria absoluta dos casos, o hantavírus não passa de uma pessoa para outra. Porém, a cepa Andes, identificada no surto do cruzeiro, já apresentou registros limitados de transmissão humana, principalmente entre familiares e parceiros íntimos.

Mesmo assim, médicos afirmam que o comportamento do vírus é muito diferente do coronavírus.

“Não é um vírus facilmente transmissível como o coronavírus, que transmite pelo ar e pelas interações sociais. Isso já nos diz que o hantavírus tem baixo potencial de disseminação”, explica a infectologista.

Não existe vacina nem tratamento específico

Atualmente, não há vacina nem antiviral específico contra o hantavírus. O tratamento é baseado em suporte clínico intensivo.

Pacientes graves podem precisar de ventilação mecânica, intubação e até hemodiálise em casos de falência renal.

De acordo com a OMS, a taxa de mortalidade varia conforme a região do mundo. Na Europa e Ásia, os índices ficam abaixo de 15%. Já nas Américas, onde circulam variantes mais agressivas, a letalidade pode chegar a 50%.

OMS monitora passageiros do cruzeiro

Após o surto, todos os passageiros do MV Hondius receberam recomendação de permanecer em quarentena por 42 dias.

Na Holanda, 12 profissionais de saúde também entraram em isolamento preventivo após terem contato com fluidos corporais de um paciente infectado sem equipamentos reforçados de proteção.

O navio segue agora para Rotterdam, onde passará por um processo completo de limpeza e desinfecção.

Como prevenir o hantavírus?

A prevenção depende principalmente do controle de roedores e da limpeza adequada de ambientes contaminados.

Especialistas orientam:

  • evitar contato com fezes e urina de ratos;
  • manter alimentos armazenados corretamente;
  • vedar frestas em casas e galpões;
  • não varrer locais infestados a seco;
  • evitar uso de aspirador em ambientes contaminados;
  • usar água sanitária e proteção ao limpar locais fechados.

Louças, roupas e utensílios que tiveram contato com roedores também devem ser higienizados adequadamente.

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