O medo de sofrer violência passou a influenciar a forma como as mulheres se comportam no cotidiano. Evitar determinados lugares, mudar rotas, caminhar mais rápido e manter constante estado de vigilância são comportamentos cada vez mais relatados e reflexos do maior número de feminicídios da série histórica, com 1.568 casos no Brasil em 2025.

O número representa um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior, segundo um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
O maior risco para as mulheres ainda é dentro de casa, já que 8 em cada 10 casos de feminicídio no país são cometidos por parceiros ou ex-companheiros. No Paraná, foram 87 casos registrados, conforme números do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública do Ministério da Justiça (Sinesp).
Feminicídios e a ansiedade por medo da violência
Para a psicóloga clínica Andrea Beltran a sensação constante de insegurança pode alterar profundamente o funcionamento psicológico.
“A repetição de experiências de violência ou a expectativa constante de que algo possa acontecer coloca muitas mulheres em um estado contínuo de alerta. Esse estado mobiliza energia psíquica que deveria estar disponível para viver, criar e se relacionar, mas passa a ser direcionada para a sobrevivência”.
O estado de hipervigilância pode gerar sintomas como ansiedade persistente, irritabilidade, dificuldade para dormir e sensação de exaustão emocional. Na prática, o medo deixa de ser uma reação pontual e passa a moldar a maneira como a pessoa se relaciona com o mundo.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 1 em cada 3 mulheres no mundo já sofreu violência física ou sexual ao longo da vida. Esse cenário contribui para um ambiente psicológico marcado por insegurança, mesmo quando a violência não ocorre diretamente com a pessoa.
Na linha de psicologia de Carl Gustav Jung, psiquiatra e psicólogo fundador da terapia analítica, o medo recorrente pode atingir camadas profundas da psique. Quando isso acontece, a mulher pode desenvolver uma relação defensiva com o ambiente e com outras pessoas.
“Quando o medo se torna constante, a mulher pode começar a perceber o mundo como um lugar essencialmente ameaçador. O outro deixa de ser alguém com quem se constrói vínculo e passa a ser visto como possível invasor. Isso não é fraqueza, é uma tentativa da psique de se proteger”,
– afirma a Dra. Andrea.
Segundo ela, o processo terapêutico busca ajudar a mulher a elaborar essas experiências e recuperar sua sensação de integridade emocional.
“O trabalho terapêutico permite que a mulher nomeie o que sente, reconstrua seus limites e recupere aspectos internos de força, intuição e proteção que ficaram abafados pelo medo”, explica.
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