A baixa temperatura — cerca de 3°C — pode ter contribuído para a explosão que matou nove trabalhadores em uma fábrica de explosivos, no dia 12 de agosto, em Quatro Barras, na Região Metropolitana de Curitiba, segundo laudo concluído pela Polícia Científica do Paraná. O documento foi finalizado em 19 dias.
Segundo a Secretaria da Segurança Pública do Paraná (Sesp-PR), os peritos apontaram que a baixa temperatura registrada no dia do acidente “pode ter contribuído de forma significativa para o incidente”. O frio intenso pode ter favorecido a solidificação do pentolite — mistura de TNT e nitropenta usada no carregamento dos busters — que, ao colidir com as bases dos agitadores, teria contribuído para a detonação na Enaex.
O laudo, diz o órgão, foi elaborado por peritos criminais e reúne análises técnicas, hipóteses de cenários e recomendações para o setor industrial.
“É um documento completo, com a apresentação dos cenários possíveis e inclusive com sugestões para a empresa e para outras do mesmo segmento, de forma a implementar melhorias de segurança”, explicou o perito oficial da Polícia Científica do Paraná, Jerry Gandin.
Para a análise técnica, a Polícia Científica trabalhou em duas frentes ao mesmo tempo: a primeira voltada à identificação das vítimas, com o uso do protocolo internacional DVI (Disaster Victim Identification), da Interpol, aplicado em desastres de grandes proporções. Em paralelo, os peritos se dedicaram à investigação da explosão, coletando vestígios espalhados pela área, avaliando equipamentos e analisando documentos técnicos e projetos da indústria.
“É um trabalho complexo, que foge da análise tradicional da perícia”, explica Gandin. “Por isso, nestes casos, a gente aplica o método RCA (Root Cause Analysis), para a determinação da causa raiz. Ou seja, verificamos vários elementos contributivos para o incidente, semelhante ao que acontece, por exemplo, na queda de um avião. Nestes acidentes, não temos apenas uma causa. Nem sempre é só uma falha humana ou do equipamento, mas há a contribuição do clima, do tempo, do equipamento e dos operadores, e tudo isso pode contribuir para a ocorrência do acidente”, afirma.
Investigações continuam
A Polícia Civil do Paraná continua investigando o acidente e tenta apurar se alguma conduta dolosa ou culposa contribuiu para a explosão que matou os nove trabalhadores. Devido à complexidade do caso e ao grande volume de informações técnicas ainda em análise, o inquérito foi prorrogado por mais 30 dias.
“A medida é essencial para que todas as diligências pendentes sejam realizadas com o devido rigor, garantindo que nenhuma hipótese seja descartada sem a devida verificação. O objetivo é entregar à sociedade e às famílias das vítimas um relatório final completo, embasado e responsável”, ressalta a delegada Géssica Andrade.
O laudo apresentado tem papel fundamental para a continuidade da investigação, reunindo cenários e causas prováveis que fornecem suporte técnico e científico para o inquérito. O documento também serve como base para o Ministério Público e a Justiça no andamento do processo para auxiliar na responsabilização de eventuais envolvidos.
No dia 19 de agosto, o Ministério Público do Paraná (MPPR) recomendou a suspensão imediata de algumas operações na fábrica. O órgão orientou a suspensão imediata de qualquer manipulação de explosivos até liberação dos órgãos competentes, sob pena de interdição judicial. Veja a lista de recomendações aqui.
Quem são as vítimas
Nove pessoas morreram na explosão da fábrica — seis homens e três mulheres. A empresa Enaex Brasil divulgou a lista com os nomes das vítimas da tragédia. Veja a lista abaixo:
- Camila de Almeida Pinheiro
- Cleberson Arruda Correa
- Eduardo Silveira de Paula
- Francieli Goncalves de Oliveira
- Jessica Aparecida Alves Pires
- Marcio Nascimento de Andrade
- Pablo Correa dos Santos
- Roberto dos Santos Kuhnen
- Simeão Pires Machado
O que diz a Enaex Brasil
Em nota, a Enaex Brasil informou à Banda B que segue contribuindo com as investigações e aguarda a conclusão do inquérito. A empresa também afirma estar prestando suporte às famílias das vítimas. Veja a nota na íntegra abaixo:
“No contexto do acidente de 12 de agosto de 2025, no Site Quatro Barras, a Enaex Brasil segue contribuindo com as autoridades acerca das investigações das causas e aguarda a conclusão do inquérito por parte da Polícia Civil do Estado do Paraná.
Reforçamos que a empresa é fortemente comprometida com as melhoras práticas de governança corporativa, ética e sustentabilidade e, neste sentido, a companhia tem dado especial atenção às famílias, aos colaboradores e às comunidades vizinhas.
No que tange as famílias, reiteramos que a empresa tem mantido contato próximo, bem como com os advogados por elas constituídos, incluindo a Defensoria Pública do Estado do Paraná. Ressaltamos que diversas medidas já foram e continuam sendo adotadas, reafirmando nosso compromisso de acompanhar de forma responsável e próxima as famílias das vítimas.”