Na manhã desta quarta-feira (04), a Polícia Federal executou a prisão do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. A ação é parte da Operação Compliance Zero e foi determinada pelo ministro André Mendonça do Supremo Tribunal Federal (STF). Na decisão, constam mensagens trocadas entre o dono do Master e outros alvos da operação. Entre elas, Vorcaro ameaça jornalista e fala sobre “A Turma”, grupo informal de vigilância e coerção privada.

Algumas das mensagens encontradas no celular de Vorcaro vêm de uma conversa com Felipe Mourão e indicam uma ameaça ao jornalista Lauro Jardim. A conversa começa com Vorcaro questionando: “Esse Lauro Jardim bate cartão todo domingo? hrs hein Lanço uma nova sua? Positiva”. Depois ele envia “Tinha que colocar gente seguindo esse cara. Pra pegar tudo dele.” e Mourão responde: “Vou fazer isto”.
Em outro dia, Vorcaro diz a Mourão: “Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”.
Parecer do Globo sobre ameaça de Vorcaro ao jornalista
O jornalista atua no Jornal O GLOBO e estava trabalhando na cobertura do processo sobre o caso do Banco Master. O Globo lançou uma nota repudiando as mensagens:
“O GLOBO repudia veementemente as iniciativas criminosas planejadas contra o colunista Lauro Jardim, um dos mais respeitados jornalistas do país. A ação, como destacado pelo ministro André Mendonça, visava ‘calar a voz da imprensa’, pilar fundamental da democracia. Os envolvidos nessa trama criminosa devem ser investigados e punidos com o rigor da lei. O GLOBO e seus jornalistas não se intimidarão com ameaças e seguirão acompanhando o caso e trazendo luz às informações de interesse público.”
Outras ameaças
No documento, Mendonça indica várias ameaças feitas ou articuladas por Daniel Vorcaro através das mensagens encontradas no celular. Algumas delas são direcionadas a funcionários.
Em determinado momento, Vorcaro enviou a Felipe Mourão: “Empregada Monique me ameaçando. É mole? Tem que moer essa vagabunda”. Em outra conversa aparece um diálogo sobre uma ameaça a um funcionário que teria feito uma gravação indesejada, em que Vorcaro diz: ““O bom de dar sacode no chef de cozinha primeiro. O outro já vai assustar”. A maioria das ameaças e agressões estão atribuídas à “Turma”.
O que é a Turma?
As mensagens mencionam um grupo informal de vigilância e coerção privada apelidado de “A Turma”. As investigações indicam que esse grupo era utilizado para uma série de atividades ilícitas.
Entre elas, é possível elencar a obtenção ilegal de informações sigilosas; intimidação de críticos do conglomerado financeiro; prática de atos de coação e intimidação de pessoas, como concorrentes empresariais, ex-empregados e jornalistas, vistas como capazes de prejudicar a organização criminosa; e exercer vigilância, coleta de informações e monitoramento de indivíduos considerados adversários do grupo.
Felipe Mourão e outros investigados
As mensagens revelam relações entre o dono do Banco Master e outras pessoas que realizavam atividades ilícitas em parceria com ele. Entre os destaques das conversas, veja o que as mensagens revelam sobre cada personalidade citada:
Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão (Felipe Mourão ou “Sicário”): apontado como coordenador operacional da “Turma”. Mensagens indicam que é o responsável por obter informações sigilosas, monitorar pessoas e neutralizar situações sensíveis. Realizava consultas e extrações de dados em sistemas restritos de órgãos públicos como Polícia Federal, Ministério Público Federal, FBI e Interpol, usando credenciais de terceiros. Recebia R$ 1 milhão por mês de Vorcaro para custear os “serviços ilícitos” e as atividades da “Turma”.
Belline Santana (Chefe do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central): prestava consultoria estratégica, discutindo a situação regulatória do Banco Master, revisando documentos antes de serem formalizados no Banco Central e participando de reuniões privadas. Recebeu proposta de contratação simulada para justificar o pagamentos pelos serviços informais.
Fabiano Campos Zettel (operador financeiro e cunhado de Daniel Vorcaro): Atuava na intermediação e operacionalização de pagamentos ilícitos, incluindo a elaboração de proposta de contratação simulada para Belline Santana e pagamentos para o grupo “A Turma”.
Leonardo Augusto Furtado Palhares: Administrador da empresa VARAJO CONSULTORIA EMPRESARIAL SOCIEDADE UNIPESSOAL LTDA, que assinou a proposta de prestação de serviços simulada para Belline Santana, dando “aparência de legitimidade” à contratação.
Marilson Roseno da Silva (policial federal aposentado): Integrante relevante da estrutura paralela de monitoramento e intimidação (“A Turma”), usando a experiência e contatos para auxiliar na obtenção de dados sensíveis e atividades de vigilância.
Paulo Sérgio neves de Souza (Chefe-Adjunto do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central): Prestava consultoria informal e contínua a Vorcaro e fornecia orientações estratégicas, revisando minutas de documentos do Banco Master ao Banco Central e atuando como interlocutor interno do banco na autarquia. Há indícios de recebimento de vantagens indevidas, operacionalizadas por mecanismos indiretos.
Ana Cláudia Queiroz de Paiva: Atuava na operacionalização de movimentações financeiras e gestão de transferências destinadas a custear atividades da Turma e em conjunto com outros integrantes do grupo.