Os tempos estão bicudos no mercado de trabalho, no País todo. E afetam, de forma especial, profissionais de nível superior altamente qualificados, notadamente os da área de Humanas.
Os de TI e todo o mundo das sofisticadas tecnologias digitais, esses sofrem quase nenhum desemprego. Sem contar que para médicos e profissionais de saúde, quase nunca faltou serviço.
MAIS CORTADOS
Lamento ter de citar, mas acredito que os comunicadores sociais, muitos jornalistas de alto coturno, são vítimas preferidas desse quadro.
Primeiro, porque, no Paraná – nosso caso mais próximo -, praticamente os jornais sumiram. O que restou, a Gazeta do Povo digital, deve ter cortado pelos menos 80% de seus antigos quadros. Folha de Londrina emprega pouca gente e a Tribuna do Paraná tem quadros diminutos de jornalistas e deve se apoiar no material produzido pela GP, em grande parte. Outros, do interior, empregam menos gente ainda, casos de Ponta Grossa, Cascavel e Maringá.
NA TELEVISÃO
Das redes de televisão, a RPC ainda é a maior empregadora, embora, na minha opinião, a RIC – da família Petrelli – e a SBT, do Grupo Massa, façam ótimo telejornalismo.
Trabalhando mesmo com reduzido quadro de jornalistas, RIC e SBT fazem telejornais de qualidade e sempre estão em cima dos fatos.
ENTRE AS RÁDIOS
Nas rádios, a Banda B, de Luiz Carlos Martins, continua usando jornalistas que, fazendo trabalho diuturno, vão dando a notícia enquanto ela acontece. Coordenação irrepreensível de Denize Mello.
As rádios CBN e Band News, mantendo boa qualidade noticiosa, empregam reduzido quadro de profissionais.
O mesmo vejo ocorrer com a Difusora e Ouro Verde, com o insuperável Adilson Arantes, hoje braço direito do histórico mestre do rádio paranaense, Dr.Bettega.
Lá a opinião segura é marca definitiva de um rádio adulto e insubstituível que vi se desenvolver e nascer no endereço da Rua José Loureiro, começo dos 1960.
NILSON MONTEIRO
Não me é agradável tratar desse assunto, o do grande número de jornalistas profissionais (nada a ver com os que fazem as redes sociais de forma amadora) desempregados.
E cito dois deles, donos de currículos que não nascem por obra do acaso: Nilson Monteiro e Márcio Renato dos Santos.
Nilson, para dizer o mínimo, é o representante de um tempo áureo do jornalismo voltado à Economia e Finanças que o Brasil teve até os anos 2000.
Passou pelo modelar jornal Gazeta Mercantil, depois de ter feito escola na Folha de Londrina. Isso sem contar que de sua lavra são livros sobre personagens históricos da vida paranaense, como o referencial escrito sobre o Barão de Serro Azul.
HOMEM DE IDEIAS
Por anos, Nilson atuou também na Imprensa da Associação Comercial. Sua larga visão e conhecimento do Paraná fizeram com que Beto Richa levasse-o para seu gabinete. Passou os governos de Beto fazendo o que melhor sabe fazer: textos de alta qualidade, diversos, discursos, documentos para fundamentar ações de Governo.
FICOU NO PALÁCIO
Cida Borghetti, que foi uma governadora de tino e eficiente, manteve Nilson ao seu lado. Apoiava alguns “fac-totuns” palacianos, como o jornalista Ricardo Caldas e o advogado David Baggio.
Hoje, sem emprego em meios de comunicação e demitido do cargo em comissão no Palácio, Nilson volta-se a uma de suas especialidades: escrever livros.
Mas aceita outras ofertas de trabalho.
Quem se habilita?
BIBLIOTECA SÓ PERDE
Márcio Renato dos Santos dirigiu os mais significativos momentos do Caderno G, impresso, da antiga Gazeta do Povo, na maior parte da primeira década do ano 2000.
Caderno cultural, o “G”, com Márcio, passou a refletir o múltiplo talento do então muito jovem jornalista que não se limitaria a apenas a estudar Comunicação Social.
Escritor, contista nato, Márcio fez questão de alargar sua formação universitária, fazendo Mestrado em Literatura na UFPR. Com brilho, terminou a pós escrevendo sua tese sobre Jamil Snege.
Nesse meio tempo, também foi capital apoio a Fábio Campana na publicação de suas revistas seminais, Ideias e ETC (saudosa memória).
OLHAR MULTIFORME
Na verdade, se ama e vive boa parte de sua vida para literatura, Márcio sempre teve olhos e ouvidos para as múltiplas manifestações artísticas.
E as abrigou no suplemento cultural da Gazeta do Povo que, com ele, acolhia o melhor noticiário e a mais segura opinião do cinema, das artes plásticas, do teatro, do pensamento paranaenses e brasileiro.
VÍTIMA, COM CERTEZA
Márcio – acredito piamente – foi vítima agora de uma qualidade pessoal que certos chefes e chefetes não perdoam: é homem de muito talento; e, mais “grave” ainda, foi ‘vítima’ da enorme netwok cultural que estabeleceu pelo Brasil. E que, por ser importante, para alguns pode ter soado como sinal de que “passou dos limites”.
NÃO FALO BOBAGEM
Não falo bobagem quando levanto a hipótese de invidia por parte de chefes e chefetes: de todos os comissionados da Biblioteca Pública do Paraná, Márcio Renato dos Santos foi o único que não foi mantido nesse novo governo.
A exclusão privilegiada, com certeza, não é gesto de gente que admire a obra de Márcio. Mas ela, de resto, já está na história da BPP, particularmente na montagem de inesgotáveis eventos culturais. E também forma um capítulo significativo para a avaliação da moderna história da Imprensa do Paraná.
Essas são verdades que ficam, muito além de decisões de caçadores de posições de um escasso mercado de trabalho que requer gente de talento.
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