As pequenas indústrias brasileiras enfrentam um cenário de queda no desempenho, piora financeira e baixa confiança dos empresários em 2026, segundo levantamento divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Em meio a esse contexto, estudos e representantes do setor produtivo avaliam que micro e pequenos negócios podem ser os mais impactados por uma eventual redução da jornada de trabalho e pelo possível fim da escala 6×1.

Trabalhador de uma pequena indústria de doces despejando massa em uma bancada de produção. A foto ilustra o debate sobre o fim da escala 6x1 e os impactos econômicos nas micro e pequenas empresas.
Micro e pequenos negócios podem sofrer maior impacto com a possível abolição da escala 6×1 diante de um cenário de queda na confiança do setor – Foto: José Paulo Lacerda/CNI

De acordo com o relatório “Panorama da Pequena Indústria”, o índice de confiança das empresas de pequeno porte chegou a 44,6 pontos em abril deste ano, o menor nível desde 2020, período marcado pelos impactos econômicos da pandemia. O levantamento também aponta queda no desempenho e deterioração da situação financeira das pequenas indústrias.

O Índice de Desempenho das pequenas empresas ficou em 43,7 pontos no primeiro trimestre de 2026, enquanto o indicador de situação financeira caiu para 39 pontos, o pior resultado desde 2021 – ano em que o número chegou em 37,8 pontos.

Segundo a CNI, os empresários apontam como principais dificuldades a elevada carga tributária, os juros altos, o aumento no custo das matérias-primas e os problemas relacionados à mão de obra.

Pequenos negócios podem sentir mais os impactos do fim da escala 6×1

O cenário ocorre em meio ao avanço do debate sobre a redução da jornada de trabalho no Brasil. Atualmente, propostas em discussão no Congresso Nacional preveem mudanças como a diminuição da carga horária semanal, de 44 para 40 horas, e o fim da escala 6×1, modelo em que o trabalhador atua por seis dias e folga um.

Outro estudo, divulgado pelo Instituto Esfera, aponta que micro e pequenas empresas podem enfrentar maior dificuldade de adaptação caso a mudança seja implementada. Segundo o levantamento, negócios de menor porte respondem por 52% do emprego formal no País e teriam menos capacidade financeira e estrutural para contratar novos funcionários e reorganizar escalas.

O documento também afirma que empresas com cinco a nove funcionários podem lidar com barreiras logísticas e financeiras para adequar as jornadas de trabalho.

Na avaliação do estudo, a redução compulsória da jornada, sem redução proporcional de salários, pode gerar aumento de custos operacionais, principalmente em setores intensivos em mão de obra, como comércio e serviços.

Por outro lado, o levantamento também cita análises internacionais da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que apontam possíveis benefícios da redução da jornada, como melhora na qualidade de vida, redução da fadiga e aumento da produtividade dos trabalhadores.

Ainda segundo o estudo, especialistas defendem que eventuais mudanças sejam implementadas de forma gradual, permitindo adaptação das empresas e negociação entre empregadores e trabalhadores.

Outras preocupações do setor

Além da discussão sobre a escala 6×1, representantes da indústria e do comércio também demonstraram preocupação recente com o fim da chamada “taxa das blusinhas”, imposto aplicado sobre compras internacionais de até US$ 50.

No Paraná, a Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) e a Associação Comercial do Paraná (ACP) criticaram a medida e afirmaram que a decisão pode ampliar a concorrência de produtos importados em um momento de fragilidade para os pequenos negócios nacionais.

Entenda sobre o Projeto de Lei que pede o fim da escala 6×1

O fim da escala 6×1 — modelo em que o trabalhador atua seis dias e folga um — tramita no Congresso Nacional por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) e de um Projeto de Lei enviado pelo Governo Federal. O acordo com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), prevê a redução de 44 pra 40 horas semanais, com escala 5×2 e sem redução de salários.

Em abril, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou uma mensagem presidencial que solicita urgência constitucional para a análise do projeto de lei.

A medida tem abrangência ampla e inclui categorias regidas pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e por legislações específicas, como trabalhadores domésticos, comerciários, atletas, aeronautas e radialistas.

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