Scandelari, nas pisadas de Dotti

Aroldo Murá

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Gustavo Scaldelari, do Escritório René Dotti

A vida é cheia de ironias, e/ou coincidências, sabemos. Por isso mesmo, faço questão de registrar: quatro dias antes de o criminalista Gustavo Scandelari, assistente da acusação, contemplar o resultado de sua ação no júri popular que condenou Manvailer a 31 anos de cadeia pela brutal morte de sua noiva Tatiane, em Guarapuava, chegava às minhas mãos o livro “Casos Criminais Célebres”, de René Ariel Dotti, quarta edição. Chegou pelo Sedex, enviado pelo escritório do professor Dotti, um dos amigos que cultivei desde o começo dos 1960, eu como jornalista, então, do Diário do Paraná. Há poucos meses ele foi levado pelo chamado Anjo da Morte.

René Ariel Dotti

Sem temores

Dotti, com sua sólida formação kardecista, não temia a morte, isso ele muitas vezes falou a amigos. O que não quer dizer que não se cuidasse. Nos últimos meses havia mesmo intensificado visitas a cardiologista de São Paulo, um amigo. Falava com desenvoltura sobre a morte. Suas convicções eram carregadas de espiritualismo. Muitas vezes dialogando sobre o tema com outro kardecista e amigo, o jurista Miguel Reale Junior, a quem dedica a edição agora lançada pela Thomson Reuters/Revista dos Tribunais.

Miguel Reale Junior

Casos criminais célebres

Para os que não familiarizados com o mundo do Direito e da Justiça, lembro que o autor de “Casos Criminais Célebres” não foi apenas um scholar de alto coturno, que deixou marcas exemplares na Faculdade de Direito da UFPR; nem apenas o empolgado tribuno que assumiu grandes causas no Tribunal do Júri; ou, ainda, o advogado persuasivo, bem lastreado, ouvido com todas as atenções no mundo judiciário nacional; ou, ainda, o catedrático, o PhD de expressão universal. Dotti nunca escondeu apostar muito na equipe que foi montando em seu escritório ao longo de anos. Isso ele me disse, em bom som, em entrevista para meu livro ‘Vozes do Paraná’. E depois repetiu em entrevista para outro livro meu (em andamento), “Encontros do Araguaia”.

 À medida do mestre

Dentre os quadros que Dotti soube preparar, sem dúvidas Gustavo Scandelari está na relação, embora o professor nunca tivesse me autorizado a citar nomes em que apostava naquele espaço sapiencial hoje dirigido pela filha Rogéria. O que posso dizer é que Gustavo Scandelari saiu bem à medida do mestre, aquele que lhe mostrou todos os caminhos para o bom exercício do Direito Criminal, o Dotti que atuou na reforma de códigos. Um deles, o Código de Processo Penal (1992/2000).

A lógica & emoção

Com Dotti, Scandelari aprendeu que, no moderno mundo do Direito criminal, as causas a serem defendidas no tribunal do júri não comportam o predomínio do “teatral”, as encenações que tanto ainda comovem platéias e engordam contas de causídicos. O que não quer dizer que devem ser eliminadas. “In médio tutissimus íbis”, procure o meio caminho, sempre, costumava apontar o jurista, diante de situações que não pedem 8 ou 80. Assim lembrava lições de latim do professor Mazzarotto, do Colégio estadual do Paraná. Para ele, a atualidade reclama o uso de ações em que a lógica predomina, sem, no entanto, desprezar elementos que compõem a trajetória do ser humano e seus componentes outros… Mas que seja um emocional lastreado em provas incontestáveis, como as que Scandelari apresentou no julgamento do feminicídio de Guarapuava.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Banda B.

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