A Polícia Civil de Minas Gerais indiciou duas pessoas sob suspeita de envolvimento na morte do candidato a vereador em Patrocínio (MG) Cássio Remis (PSDB), ocorrida no dia 24 de setembro. A conclusão foi entregue nesta terça-feira (6).

Cássio, ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal, estava gravando um vídeo ao vivo nas redes sociais com uma pessoa que trabalhava em seu escritório de advocacia, em tom de denúncia sobre o possível comitê eleitoral do prefeito Deiró Marra (DEM), quando foi interrompido pelo secretário de Obras do município e irmão do prefeito, Jorge Marra.

Tentando recuperar o celular levado por Jorge, Cássio chegou a se jogar em frente ao carro e depois o seguiu até a sede da Secretaria Municipal de Obras, onde os dois discutiram e onde ele foi morto por disparos de arma de fogo.

Jorge foi indiciado sob suspeita dos crimes de roubo, homicídio doloso e porte ilegal de arma de fogo.

“Ali houve uma futilidade, uma afronta, a meu entender, ao Estado democrático de Direito, em razão disso, acabou tornando que fosse desproporcional a motivação do crime com a morte da vítima”, afirmou a delegada Anna Beatriz de Oliveira Brugnara.

Foto: Reprodução/Twitter

Sobre a arma, Brugnara disse que, apesar de ser registrada e de Jorge declarar que tinha ela na sua fazenda para se defender, a investigação concluiu que ele já estava com ela na cidade ao menos um dia antes do crime e que não estava guardada na residência.

O motorista que acompanhava o secretário foi indiciado sob suspeita de participação no roubo do celular de Cássio e pelo crime de favorecimento pessoal, porque auxiliou na fuga de Jorge ao retirar uma caminhonete e facilitar a saída do suspeito do local do homicídio.

Apesar do contexto de tensões políticas entre Jorge e Cássio, que envolvia denúncias, processos e ameaças, conforme mostrou o jornal Folha de S.Paulo, a investigação policial descartou crime político.

Jorge, que foi vice-prefeito de Patrocínio, trabalhava na coligação do irmão, Deiró, que disputa a reeleição. Na conclusão dos investigadores, o crime não foi premeditado, já que ele se dirigiu a outro local para buscar a arma, e a morte de Cássio foi de ímpeto, sem interferência no pleito eleitoral.

Como candidato a vereador, Cássio não poderia vencer Deiró na disputa pela prefeitura, apontam os investigadores. O prefeito não foi ouvido.

“Não é um crime político, é um crime cuja motivação pode envolver razões políticas. Isso foi fundamentado como motivo fútil, pois se entendeu que era desproporcional a possível revolta com as denúncias que Cássio estava fazendo, com o fato do autor ter ceifado a vida da vítima”, afirmou a delegada.

A polícia realizou mais de 25 oitivas para esclarecer o crime, incluindo depoimentos de pessoas que relataram ameaças prévias que Cássio vinha sofrendo. A delegada responsável pelo caso não deu detalhes do teor das ameaças ou se eram contra a vida do ex-vereador, mas confirmou que envolviam Jorge.

O telefone de Cássio, pego por Jorge, não foi localizado durante a investigação. Segundo relatos da família e de conhecidos, no aparelho Cássio armazenava documentos e material de denúncias.

Como a família não tinha senhas de Cássio, o pedido de acesso à nuvem de dados junto à fabricante do aparelho, ainda de acordo com os delegados, pode ser encaminhado pelo Ministério Público de Minas Gerais. A polícia tinha prazo de dez dias para a conclusão do inquérito e alegou que não teve prazo suficiente para encaminhar o pedido.

Uma equipe em Perdizes, cidade próxima a Patrocínio, onde o carro de Jorge Marra foi localizado no dia seguinte ao crime, também apura os fatos ocorridos na cidade relacionados a morte de Cássio.

A caminhonete de Jorge estava na casa de um ex-prefeito do município, e dentro dela foram encontrados uma arma e um celular.

Em depoimento no dia 27 de setembro, quando se entregou à polícia, Jorge alegou que agiu em legítima defesa para se defender de Cássio, que era maior e mais jovem, segundo a defesa dele. A reportagem tentou contato com o advogado dele nesta terça-feira, mas não obteve retorno.

Também na manhã desta terça-feira, depois de ouvir familiares de Cássio, a Comissão de Segurança Pública da Assembleia Legislativa de Minas Gerais decidiu enviar um requerimento ao chefe da Polícia Civil do estado para que uma equipe da Delegacia Especializada de Crimes contra a Vida vá a Patrocínio e acompanhe as investigações.