Nísia atravessa 2024 sob crises na Saúde, críticas de Lula e pressão do centrão

Presidente reclamou da ministra em reunião, mas reforçou que Nísia seguiria no cargo; pasta diz que foi revertido o desmonte do SUS

Folhapress: Mateus Vargas

A gestão da ministra da Saúde, Nísia Trindade, em 2024, ficou marcada por críticas que partiram do próprio presidente Lula (PT), além da pressão do Centrão para ampliar o controle sobre o orçamento da pasta.

A ministra ainda enfrentou a explosão de casos da dengue e a falta de alguns modelos de medicamentos e vacinas em todo o país, como doses do calendário infantil e contra a Covid.

Para integrantes do governo e gestores do SUS (Sistema Único de Saúde) que acompanham as ações da pasta, a sequência de crises tornou Nísia mais vulnerável em uma eventual reforma ministerial, ainda que não haja indicativos sólidos de que ela será substituída.

A ministra da Saúde, Nísia Trindade – Foto: Rafael Nascimento/MS

Um dos argumentos mais repetidos por estas autoridades é de que a ministra já perdeu a margem para culpar a gestão Jair Bolsonaro (PL) por críticas que hoje atingem à pasta.

Em nota, o ministério disse que a gestão reverteu o cenário de “desmonte do SUS” e obteve “resultados concretos”, como aumento de coberturas vacinais infantis e investimentos em diversas áreas.

“Destaca-se o notório crescimento da Atenção Primária à Saúde, porta de entrada do SUS e cuja ampliação reduz o adoecimento da população. Foram criadas mais de 4,7 mil novas equipes de Saúde da Família e, atualmente, com 26,7 mil profissionais do Mais Médicos -o dobro em relação a 2022, 60% deles em regiões de maior vulnerabilidade”, escreveu a pasta.

O Ministério da Saúde ainda destacou que o programa Farmácia Popular ampliou o rol de produtos entregues gratuitamente. Afirmou também que o Brasil saiu da lista dos 20 países com mais crianças não vacinadas no mundo e recebeu a certificação de país livre do sarampo, que havia sido perdido em 2019, primeiro ano de Bolsonaro no poder.

A pasta também disse que o Programa Mais Acesso a Especialista deve investir R$ 2,4 bilhões no próximo ano “com saúde digital, desburocratização e gerenciamento eficiente das filas”.

O presidente Lula ao lado da ministra da Saúde, Nísia Trindade – Foto: Ricardo Stuckert/PR

O auge do desgaste político da ministra em 2024 se deu ainda no primeiro trimestre. Ela foi cobrada por Lula durante uma reunião ministerial, em março, quando a pasta estava sob críticas por causa da epidemia de dengue e da situação dos hospitais federais no Rio de Janeiro, entre outros temas.

No começo do ano, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) já havia tornado públicas as queixas do Centrão sobre o ritmo de liberação de emendas e supostos privilégios dados pela Saúde a aliados do governo. O ministério reagiu ao grupo de Lira e disse que adota critérios técnicos.

Em paralelo, alterou regras para aumentar o limite de recursos que deputados e senadores poderiam enviar aos seus redutos antes da disputa municipal.

Para contornar as críticas no campo político, inclusive àquelas feitas dentro do governo, o ministério ainda promoveu mudanças no primeiro escalão, com a troca de dois dos oito secretários, além de substituições no gabinete e equipe de comunicação da ministra.

Em meio às especulações sobre demissão da ministra, diversas entidades e grupos científicos e médicos divulgaram notas, no fim de março, declarando apoio à permanência dela no cargo.

O próprio presidente também atuou para amenizar a pressão sobre a ministra. Em julho, ele afirmou que Nísia seguiria no governo.

“[Em uma nota no jornal] Tinha alguém reivindicando o Ministério da Saúde, eu fiz questão de ligar para a Nísia, porque eu ia viajar para fora do Brasil. Nísia, vá dormir e acorde tranquila, porque o Ministério da Saúde é do Lula, foi escolhido por mim e ficará até quando eu quiser”, disse Lula.

“E eu tenho certeza que poucas vezes na vida a gente teve a chance de ter uma mulher no Ministério da Saúde para cuidar do povo com coração como mãe cuida dos seus filhos”, completou.

Aliados de Lula não descartam a saída de Nísia do governo em 2025, mas a mudança não está entre as principais apostas em uma eventual reforma ministerial. Um dos cenários debatidos no governo, no entanto, é de que uma troca na SRI (Secretaria de Relações Institucionais) levaria o atual titular da pasta, Alexandre Padilha (PT-SP), ao comando da Saúde, cargo que ele já exerceu em gestões petistas anteriores.

O governo ainda foi alvo de críticas por causa da maior epidemia de dengue já enfrentada pelo país. O próprio presidente Lula se queixou da resposta dada pela pasta à crise sanitária. Na reunião ministerial de março, o petista apontou que houve uma confusão na campanha de vacinação contra a doença, dando a entender que havia imunizantes para toda a população.

A dengue matou ao menos 5.987 pessoas em 2024, ano mais letal da arbovirose no país, segundo dados desta quarta-feira (25) , enquanto em 2023 foram registradas 1.179 mortes.

A falta de diversos modelos de vacinas também desgastou a gestão de Nisia.

Em setembro, a CNM (Confederação Nacional dos Municípios) divulgou estudo afirmando que 1.563 dos 2.415 prefeitos que responderam à entidade relataram desabastecimento dos imunizantes destinados ao público infantil. Como a Folha mostrou, o SUS ainda ficou praticamente sem doses da vacina da Covid-19 em outubro após o governo perder imunizantes pelo fim da validade e reduzir entregas.

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