Morre Manoel Coelho, criador em moto contínuo

Os campi da PUCPR e da Universidade Positivo são fortes identificadores da obra do arquiteto. Mas foi tomando parte ativa na revolução promovida por Jaime Lerner que Coelho mais frutos deve ter colhido

Aroldo Murá

Manoel Coelho com Jaime Lerner

Manoel Isidro Coelho, simplesmente Manoel Coelho, como o Paraná acostumou-se a identificá-lo a partir do ano de 1960, morreu nesta quarta-feira, 4, em Curitiba, aos 80 anos completados em dezembro.

Para os amigos – em cujo rol me incluo -, ele, em tom de blague, se classificava simplesmente como “um manezinho”, parte da gente de Florianópolis, onde nasceu e passou a adolescência.

Veio para Curitiba em 1960, para fazer vestibular de Arquitetura na UFPR, tempos em que a seleção era rigorosíssima e poucos cursos existentes no país.

No Tijucas

Eu o conheci naquele ano, em 1960, ele morando num dos apartamentos do Edifício Tijucas, na Boca Maldita. Eram freqüentes nossos bate papos, que se prolongaram pela vida toda. Tínhamos a mesma idade, muita coisa nos unia, principalmente os sonhos de futuro numa cidade que começava a se despir de suas marcas muito provincianas.

Arquiteto Manoel Coelho

Eu tinha a vantagem de conhecer Curitiba desde os oito anos de idade, entre idas e vindas. Naqueles dias do Tijucas, ele sustentado por uma mesada apertada do pai, pequeno comerciante de Floripa, nos encontrávamos no minúsculo restaurante da galeria, popular e aglutinador de jovens sonhadores como ele e eu. Para mim, o Tijucas virou um símbolo, até porque lá me iniciei no jornalismo, dentro da revista Club, de Dino Almeida que naquele espaço funcionava.

Revolução urbana

O tempo passou, nossos encontros foram rareando, até voltarem a nova freqüência, a dos dias da revolução urbana de Jaime Lerner, a cujo grupo Manoel Coelho passaria a fazer parte. O Urbanista e arquiteto Coelho foi parte essencial desse grupo de revolucionários que a partir de 1971 colocaria Curitiba como raro modelo de desenvolvimento urbano no mundo. Coelho foi cativado e cativou a turma de Lerner. Bem acolhido, com essa turma foi crescendo. Gente como Rafael Dely, Angel, Lubomir Ficinski, Carlos Eduardo Ceneviva, Cassio Taniguchi … foram alguns dos companheiros da rara empreitada.

“Não tínhamos ideia muito clara do momento histórico que vivíamos”, respondeu-me certa vez, explicando: – O que sabíamos é que Lerner agia como um iluminado, uma espécie de predestinado a guiar outros jovens a uma estrada sem retorno. E completava, com bom humor: “Era nosso Moisés…”

Marca do Instituto Ciência e Fé

Também educador

Do amigo que parte, levado pelo Anjo da Morte – e depois de muitos meses de sofrimento gerados por câncer de bexiga-, há muito a citar, do ponto de vista de contribuição ao Paraná. Foi educador consistente nos cursos de Arquitetura da UFPR e PUCPR. Como designer tinha visão apuradíssima na criação de marcas. Uma delas, me diz muito respeito, a logomarca do Instituto Ciência e Fé “Fidelis et Constans”. E também a anterior da PUCPR, instituição de ensino que foi um dos melhores palcos a possibilitar a expressão do moto contínuo desse criador por excelência.

Campus da Universidade PUCPR. (Foto: João Borges)

Campus da PUCPR

A PUCPR, campus Rebouças em Curitiba, expõe a rara capacidade de acolher na ocupação de espaços limitados os propósitos de uma singular instituição de ensino. Coelho lá fez milagres. Com o apoio de seu grande amigo, o ex-reitor Clemente Ivo Juliato, uma alma de artista em trajes de religiosos marista, Coelho superou-se. Acho que a Capela e a Biblioteca da PUCPR são os pontos mais salientes da obra do manezinho.

Conhecê-las é ato de encontro com o belo, o útil e o funcional, qualidades que tanto animaram a vida de Manoel Coelho. Sinto-me na obrigação de registrar, na primeira pessoa, as impressões que outras obras inconfundíveis de Manoel Coelho foram passando aos que têm olhos para ver e ouvidos para ouvir.

Campus Positivo

Uma delas, o campus da Universidade Positivo, enorme, didaticamente disposto em muitos alqueires de terra em que tudo está previsto – tudo -, para abrigar o espírito da “universitas” que Oriovisto Guimarães e sua turma conceberam.

Hospital do Rocio

Muitas vezes Coelho me convidou para conhecer, nos últimos anos, outras obras suas, projetos que ficam, como o Hospital Rocio, em Campo Largo.

Apenas o exame do projeto do Rocio me impressionou, cnofirmando a certeza de que Coelho tinha uma espécie de ‘sociedade com o Criador’: nas coisas que tocava, materializava-as num “fiat lux”. Ganhava toques de permanência e exemplaridade.

O humanista mostra toda a extensão de sua dimensão de homem, ao conceber o Rocio, hospital de alta performance arquitetônica, casa voltada basicamente ao atendimento do SUS.

“Todos, ricos e pobres, têm direito de acolhi,mento com dignidade na hora da doença”, disse-me, um dia, explicando, assim, a ousadia com que bordou de linhas modernas todo o interior e o exterior do Hospital Rocio.

Pavilhão Barigui

O hoje chamado “Pavilhão da Cura”, Pavillhão de Exposições do Parque Barigui, na sua nova planta, é outro ato de criação de Coelho que parte sem ver materializada uma de suas outras obras de rara reunião do belo ao funcional – a nova sede da Federação do Comércio do Paraná.

Denise, a companheira que o acompanhou sempre, é o bom resumo de uma esposa que soube conviver e apoiar um gênio cheio de renovados sonhos a cada manhã, inquieto diante de um futuro que ele foi ajudando a desenhar na sua Curitiba.

Tentei fazer justiça a Manoel Coelho num dos volumes do meu livro “Vozes do Paraná – Retratos de Paranaenses”, trabalho referencial sobre a vida e obra deste resiliente “sócio do Criador”.

 

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Banda B.


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