Há quase quatro meses no cargo, o ministro da Educação, o pastor Milton Ribeiro, tem privilegiado viagens, agendas com o presidente Jair Bolsonaro sem relação com a área e, até agora, pouco se envolveu nos temas da pasta.

A distância e o desconhecimento do trabalho e os desafios do MEC (Ministério da Educação) têm causado preocupação nos bastidores do governo. Para interlocutores, saíram os ministros ideológicos, entrou o decorativo.

Ribeiro não tem experiência em políticas públicas. Foi nomeado para agradar a ala evangélica que apoia o governo e cessar as crises criadas pelos ex-ministros de perfil ideológico Abraham Weintraub e Ricardo Vélez Rodriguez.

 

Foto: Agência Brasil

 

A avaliação nos corredores do MEC e de outras áreas do governo é que Ribeiro não assumiu liderança nos rumos da política educacional e, mais grave, não entendeu o que é ser ministro. Também no Congresso é essa a impressão.

A postura se reflete na agenda oficial. Desde que assumiu o cargo, em meados de julho, Ribeiro abriu mão das atividades no MEC para participar de 14 cerimônias com Bolsonaro sem qualquer relação com a educação. O ministro já acumula 24 dias em viagem: a cada 10 dias no cargo, em 2 ele esteve fora, às vezes por motivos alheio à pasta.

Na véspera do feriado de Finados, ele foi parar em Fernando de Noronha (PE) com uma comitiva liderada pelos ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Marcelo Álvaro Antônio (Turismo). A viagem foi para anúncios da área ambiental e de turismo, mas Ribeiro aparece em fotos e vídeos da programação.

Para justificar a presença de Ribeiro, a programação incluiu visita a uma escola no dia 29 de outubro. Funcionários da unidade disseram à reportagem que ele ficou 40 minutos no local e o encontro só foi agendado na véspera (28), quando o ministro já estava no Recife para encontros na Fundação Joaquim Nabuco, mantida pelo MEC.

Questionada, a pasta não explicou o motivo da viagem a Noronha e os custos de passagens e estadia. O ministro permaneceu em Pernambuco até terça-feira (3).

Ribeiro tem adequado sua rotina para estar com Bolsonaro -o presidente era esperado em Noronha, mas desmarcou em cima da hora. O ministro já participou, por exemplo, de eventos militares, sobre habitação e de homenagem a um músico.

Para estar com Bolsonaro em uma cerimônia sobre aviação, em 7 de outubro, o ministro da Educação preferiu faltar a um anúncio no MEC.

Foi o primeiro aporte federal relacionado à Covid-19 para as escolas e a divulgação de um protocolo para volta às aulas. O governo federal tem sido cobrado a dar apoio às redes de ensino durante a pandemia.

Ribeiro fez quatro viagens com Bolsonaro. Em só uma delas, em 14 de agosto, havia relação com a área: a inauguração de uma escola cívico-militar no Rio de Janeiro. Depois, seguiu no mesmo dia com o presidente a eventos das Forças Armadas. Ainda posou ao lado de Bolsonaro diante do símbolo do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais).

Funcionários do MEC e congressistas apontam que essa proximidade sugerida pela agenda não tem se revertido aos interesses da Educação. O MEC tem baixa execução orçamentária, perdeu R$ 1,4 bilhão de recursos neste ano e a previsão de orçamento para 2021 é também de redução.

Para Luiz Garcia, presidente da Undime (que representa os secretários municipais de Educação), o novo ministro chegou com uma nova disposição de maior diálogo, minado sob Weintraub. Mas falta entender suas diretrizes.

“Houve disposição para se ouvir mais, só que ainda estamos na fase em que as escutas não se transformaram em ações”, diz. “O que ainda não nos foi apresentado é uma política norteadora, um eixo.”

Ribeiro não tem participado, por exemplo, da discussão sobre a regulamentação do Fundeb -principal fundo de financiamento da educação básica. A lei precisa passar neste ano para que as novas regras de distribuição de recursos sejam operacionalizadas.

A deputada Luísa Canziani (PTB-PR) exalta a disposição do ministro para o diálogo, mas diz que ele está em fase de adaptação ao cargo. “Ele ainda está se ambientando no ministério, está averiguando quais serão as prioridades e o que quer deixar de legado.”

Na quarta-feira (4), na divulgação dos resultados da avaliação de alfabetização e ciências, Ribeiro disse que ainda hoje tem descoberto “novas complexidades da pasta”.

Ele foi embora logo após um breve discurso, sem acompanhar a apresentação dos dados. Isso aconteceu em outros três eventos públicos do MEC, sendo um deles o de divulgação do Ideb, o indicador de qualidade da educação básica.

O ministro não se dispôs a falar com a imprensa nesses dias. Em entrevistas que concedeu, disse que está no MEC para cumprir a agenda conservadora de Bolsonaro na educação e causou polêmica ao relacionar a homossexualidade a “famílias desajustadas”.

A fala lhe causou desgaste até entre políticos de direita. A PGR (Procuradoria-Geral da República) pediu que o STF (Supremo Tribunal Federal) o investigue por crime de preconceito e ele pediu desculpas.

A origem religiosa do ministro tem se refletido em sua agenda. Além de nove reuniões com a bancada religiosa, Ribeiro teve outros 13 encontros com religiosos, entre pastores, padres e bispos.

Uma de suas viagens ocorreu após convite do reverendo Osni Ferreira, de Londrina (PR). O ministro foi sem assessores à cidade, onde passou três dias e ministrou culto na Igreja Presbiteriana, de Osni.

Com relação à educação, visitou um centro universitário particular e, no domingo, conheceu obras no Instituto Federal do Paraná. Esse último compromisso nem sequer fora agendado pelo MEC, mas por congressistas. Entre hospedagens e passagens, compradas com urgência na mesma semana, o MEC gastou R$ 4.049,81 só com essa agenda do ministro.

O MEC não respondeu os questionamentos da reportagem sobre o envolvimento de Ribeiro com a pasta e detalhes de sua agenda e viagens.