O Ministério Público deu opinião favorável ao recurso da campanha de Manuela d’Ávila (PC do B), candidata à Prefeitura de Porto Alegre, e afirmou em decisão no domingo (18) que a live fechada do artista Caetano Veloso, oferecida para arrecadação de recursos à campanha de Manuela, não caracteriza showmício.

O showmício, show artístico para a promoção de candidatos, foi proibido na minirreforma eleitoral de 2006. Uma das motivações na época foi que esses eventos davam vantagem às campanhas mais ricas, que contratavam artistas famosos e atraíam o público pelo entretenimento, não necessariamente pelas propostas dos partidos.

Nestas eleições municipais, o debate voltou com a prática sendo renomeada de “livemício”, que seria o equivalente a um showmício virtual.

 

Manuela D’Ávila e Caetano Veloso. Foto: Reprodução/YouTube

 

O parecer Ministério Público serve como um elemento jurídico adicional para que juízes ou desembargares possam julgar o processo. O julgamento do caso foi marcado no TRE-RS (Tribunal Regional Eleitoral) do Rio Grande do Sul para quinta (22).

No documento, a Procuradoria Regional Eleitoral gaúcha disse que o caso em discussão versa somente sobre arrecadação de recursos, mediante uma live, apoiand o argumento da campanha de Manuela no recurso.

“Tal ato, de acordo com as informações constantes dos autos, não contaria com a participação de nenhum candidato, embora seja claramente destinado ao apoio financeiro de candidaturas determinadas”, diz a procuradoria.

O órgão também especifica que o evento não será gratuito ou com valor irrisório, que o show não é presencial e que não contaria com a participação de políticos.

“Nesse aspecto, não se caracteriza, o evento questionado, como showmício, não estando vedada a sua realização uma vez que a legislação eleitoral permite a arrecadação de campanha mediante a comercialização de bens e/ou serviços ou em virtude de doações”, afirma o Ministério Público.

No dia 10 de outubro, a Justiça Eleitoral suspendeu o ato virtual, marcado para 7 de novembro, em que Caetano faria um show para arrecadação de recursos às campanhas de Manuela e Guilherme Boulos (PSOL), candidato à Prefeitura de São Paulo, em uma plataforma digital sem a presença dos políticos.

O pedido de suspensão veio da campanha de Gustavo Paim (PP), concorrente de Manuela na capital gaúcha. Na ocasião, Paim solicitou que fosse vedada a divulgação do “livemício” com o cantor. O juiz Leandro Figueira Martins usou artigo da lei eleitoral que proíbe showmício e “eventos assemelhados”.

Em sua decusão, afirmou que a divulgação do artista tinha evidente relação com a campanha eleitoral da candidata e que a lei “veda a participação de artistas em ‘showmício’ ou ‘evento assemelhado’, desimportando a existência, ou não, de remuneração”.

A lei proíbe showmício ou ato do tipo que promova candidatos, além de apresentação, remunerada ou não, de artistas “com a finalidade de animar comício e reunião eleitoral”.

A live de Caetano seria realizada em uma plataforma com a cobrança de R$ 60 por link de acesso (seriam R$ 30 a Manuel e R$ 30 para Boulos). O ingresso iria direto para o financiamento das duas campanhas e o show seria uma doação do artista a ambos.

A decisão dividiu opiniões de especialistas em direito eleitoral. Os favoráveis à live argumantam que o evento se enquadra como de arrecadação, semelhante aos jantares que ocorriam em período eleitoral pré-pandemia: fechados e com financiamento direto à campanha.

Os contrários dizem que a lei é clara ao determinar que eventos de promoção de candidatos são proibidos.

No fim de agosto, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) já rejeitou a possibilidade de realização livemícios. Quem fez a consulta foi o PSOL, partido de Boulos, que questionou o TSE sobre a viabilidade de realizar apresentação dos candidatos aos eleitores “juntamente com atores, cantores e outros artistas” em lives eleitorais não remuneradas em plataformas digitais.

Na resposta, o relator da consulta, ministro Luis Felipe Salomão, foi contrário ao pedido, também amparado no artigo que proíbe showmícios e eventos assemelhados.

A questão retornou ao debate nas últimas eleições e foi levada ao Supremo em 2018. PSB, PSOL e PT ajuizaram uma ação contra a regra que proíbe o showmício, argumentando que é inconstitucional. A ação está sob a relatoria do ministro Dias Toffoli e ainda não há decisão sobre o assunto.

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