POR RICARDO DELLA COLETTA E JULIA CHAIB – BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)

O comportamento do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) nas redes sociais durante as eleições americanas gerou críticas do núcleo militar do governo, que ficou incomodado com postagens pró-Donald Trump feitas pelo filho do presidente da República na quarta-feira (4).

Em conversas reservadas relatadas à reportagem, os militares disseram que a atitude de Eduardo compromete o esforço de manter o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) longe da disputa eleitoral nos Estados Unidos, que caminha para o seu terceiro dia de apuração ainda sem um vencedor definido mas com o democrata Joe Biden como favorito.

Considerado um dos fiadores do ministro Ernesto Araújo (Relações Exteriores) no Itamaraty, Eduardo sugeriu em suas redes sociais que irregularidades no pleito americano estariam beneficiando Biden.

 

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agencia Brasil

 

Eduardo republicou uma mensagem de um blogueiro afirmando ter existido fraude. Na publicação, o filho do presidente escreveu apenas “estranho”. Em outra mensagem, ele fez comparações com a situação política nos EUA e no Brasil.

“A esquerda é bem organizada em nível mundial. Por isso é importante acompanhar as eleições dos EUA. O que acontece lá pode se repetir aqui”.

E criticou o Twitter por ter colocado tarjas em mensagens de Trump indicando que acusações do americano de que é vítima de uma fraude não têm comprovação. “Trump fez um tweet suspeitando de fraude na eleição dos EUA. O Twitter deletou o tweet. Este tipo de tweet viola as políticas do Twitter? Qual ameaça este tipo de tweet traz? Censura?”, escreveu Eduardo.

O presidente Bolsonaro e seus assessores da ala ideológica torceram declaradamente pela reeleição de Donald Trump. O próprio presidente chegou a dizer que esperava estar presente na cerimônia de inauguração do segundo mandato do americano.

Nos bastidores, a postura de Bolsonaro foi lamentada por auxiliares militares e diplomatas, que destacaram que o ideal seria a manutenção de neutralidade uma vez que o governo brasileiro terá que dialogar com a maior potência mundial –quem quer que seja o vencedor na disputa pela Casa Branca.

Conselheiros de Bolsonaro consideravam até a manhã de quarta que Trump estava com um bom desempenho em estados-chave e que suas chances de reeleição estavam aumentando, mas ao longo da tarde cristalizou-se a percepção que Biden assumiu o favoritismo.

A contagem não terminou e Trump ainda pode conquistar um segundo mandato, mas a avaliação atual no Planalto é que Biden se encontra melhor posicionado e tem maiores probabilidades de chegar ao número mágico de 270 votos no Colégio Eleitoral.

Diante disso, assessores palacianos ressaltaram a Bolsonaro que é preciso adotar cautela e que o ideal é evitar novas declarações de endosso a Trump. A avaliação repassada a Bolsonaro é que a campanha americana está entrando num terreno delicado, com possíveis recontagens em estados como Wisconsin e Geórgia, além das acusações de Trump de que os democratas estariam fraudando o pleito.

Uma possível judicialização das eleições torna a situação bastante mais delicada, na avaliação do governo brasileiro.

Bolsonaro foi advertido que qualquer fala endossando as acusações de Trump de que os democratas estariam roubando votos teria graves consequências para o relacionamento futuro do Brasil com os EUA caso Biden termine uma eventual luta nos tribunais como o vencedor.

Se desejos pela reeleição de Trump já repercutem mal entre democratas, um apoio à tese de Trump de que a eleição estaria sendo fraudada seria tratado como uma ofensa de outras proporções, segundo diplomatas ouvidos pela reportagem.

Por isso, assessores palacianos aconselharam Bolsonaro a só parabenizar o vencedor –seja Biden ou Trump– depois da conclusão de um eventual litígio nos tribunais ou do reconhecimento de derrota de um dos lados.

O paralelo que está sendo feito na administração Bolsonaro é com o ano de 2000, quando houve recontagem na Flórida e o ex-presidente George Bush foi confirmado vencedor após uma decisão da Suprema Corte cerca de um mês depois das eleições.

Militares ouvidos sob condição de anonimato disseram esperar que Bolsonaro peça comedimento a seu filho. Isso porque, embora o deputado não tenha cargo no governo, é difícil dissociar suas opiniões das do presidente.

Eduardo não é apenas filho de Bolsonaro, mas atua como interlocutor informal do governo em conversas entre as administrações Bolsonaro e Trump.

Ele acompanhou o pai na audiência privada entre Bolsonaro e Trump na Casa Branca no ano passado e é figura constante nas visitas de autoridades americanas no Brasil. Recentemente, por exemplo, ele participou da reunião de Bolsonaro com o Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Robert O’Brien, em Brasília.

Integrantes da ala ideológica dizem ter esperanças de que a recontagem de votos ou a briga na Justiça seja capaz de dar vitória a Trump caso ele perca, embora analistas americanos coloquem dúvidas sobre a base jurídica de possíveis questionamentos do republicano.