MARCELO TOLEDO

JABOTICABAL, SP (FOLHAPRESS) – O prefeito desistiu de disputar a reeleição, a base do governo rachou em dois, um primo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) entrou na disputa, e o PT, após quatro derrotas seguidas, tenta retomar a prefeitura.

Esse é o cenário da eleição em Jaboticabal, município a 342 km de São Paulo que reflete, em menor escala, a dinâmica da política nacional.

Críticas ao PT e à inexperiência política de Bolsonaro, mudanças para partidos de perfis antagônicos e megacoligações fazem parte do cardápio eleitoral deste ano na cidade da região de Ribeirão Preto, que terá, pela primeira vez em 16 anos, a ausência direta do atual prefeito, José Carlos Hori (Cidadania), 58.

José Carlos Hori – prefeito de Jaboticabal

Condenado administrativamente por uma obra ainda no primeiro de seus três mandatos, Hori desistiu de concorrer à reeleição neste ano.

Ele diz ter entendido o recado das urnas na última eleição, quando conquistou a cadeira com apenas 276 votos de vantagem em relação a Emerson Camargo (Patriota), que está novamente na disputa. O principal motivo da desistência, porém, é a quase certeza de que seria barrado pela Lei da Ficha Limpa.

Quem, então, o prefeito que governou Jaboticabal de 2005 a 2012, fez o sucessor no mandato seguinte e está no cargo desde 2017 vai apoiar agora? Ninguém, segundo ele.

O vice, Vitorio de Simoni (MDB), 46, passou pela convenção do partido, é filho de um ex-prefeito (Adail de Simoni, que governou a cidade de 1993 a 1996) e é pré-candidato com o apoio de outras quatro legendas.

“De um ano para cá houve muitas reuniões, mas por falta de convergência de ideias e ideologias não houve união [com outros nomes do grupo político do prefeito]”, diz Vitorio. Ele considera sua chapa a única de centro-direita, enquanto os outros rivais, exceto o primo de Bolsonaro, representariam a esquerda.

Também oriundo do governo, o ex-secretário da Saúde João Roberto da Silva, 56, vai disputar a prefeitura pelo DEM, após ter sido, até 2019, presidente do PT local. Ele terá Claudio Almeida (PSDB), ex-titular de Finanças, como vice, numa coligação que tem seis siglas no total.

“Por ética, me desliguei do PT quando o prefeito me convidou para ser secretário. Minha filiação [ao DEM] foi uma construção política que fizemos depois”, diz João Roberto.

A chapa de Emerson, professor e que tentará pela terceira vez chegar à prefeitura, é composta por outras seis legendas e tem 7 dos atuais 13 vereadores. Em 2016, ficou apenas 276 votos atrás de Hori.

Entre as metas que destaca estão reduzir a máquina pública e explorar a economia criativa, para aproveitar o potencial da cidade.

Borsonaro com R

Alheios às grandes coligações e ao apoio governamental, mas em posições completamente opostas, PT e PSL entram na disputa com um ex-prefeito e com um primo do presidente da República.

O petista José Giácomo Baccarin, prefeito de 1989 a 1993, disputa o cargo pela terceira vez, enquanto Marcos Borsonaro estreia na política tendo como vice um coronel da reserva da PM, união que reproduz localmente a chapa de Bolsonaro com Hamilton Mourão, general do Exército.

Baccarin disse que sua campanha será baseada no acúmulo de experiência que tem em cargos executivos –além de prefeito, ele foi secretário nacional de segurança alimentar no primeiro governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

“Apostamos no conteúdo, precisamos de recuperação econômica em nível municipal, e de solidariedade.”
Já Borsonaro é com a letra R mesmo, que ele alega ser erro de cartório. Ele diz ser primo distante do presidente da República e vai adotar nas urnas Marcos Bolsonaro, com L.

Ele não se coligou a nenhum partido e diz que o PSL tem lutado na cidade por um novo modelo de política, sem “contaminação”. “Fomos sondados, mas como orientação em âmbito nacional a prioridade foi para uma candidatura com chapa única, com candidatos sem vícios políticos.”

As propostas são variadas, mas independentemente delas, o prefeito Hori disse que o seu sucessor herdará, além dos reflexos da pandemia, uma crise hídrica.

“O próximo governante vai ter de ser muito comprometido, sério, disciplinado. Não vai ser para qualquer um.”

Político que mais governou a cidade em sua história, Hori foi eleito em 2016 com 36,85% dos votos, só 0,78 ponto percentual à frente de Emerson. A pequena diferença foi um sinal, segundo ele, de que a cidade naquele momento já queria mudanças.

Mas também pesa uma condenação e a perda dos direitos políticos por três anos devido a uma contratação irregular, ainda em seu primeiro mandato, de uma obra de asfaltamento de uma vicinal com dispensa de licitação.

“Chamo [a decisão de não disputar] de pé no chão, de ver o povo começando a ficar cansado de um cara há 20 anos na política. O respeito na rua é grande, mas há quase uma saturação. Muitos me acham bonzinho, mas já fui bom, já fui melhor [risos]”, afirma.

“Esse é meu termômetro pessoal. Posso ser [candidato], mas dependendo, quando a condenação sair, posso perder o direito. Como fui condenado antes da eleição, tenho certeza que a Justiça não deixaria ficar. Mas não vou disputar mesmo por cansaço.”