O governo de São Paulo conta com a ideia de tornar a Coronavac um fato consumado para enfrentar a pressão que identifica contra o imunizante de origem chinesa por parte do presidente Jair Bolsonaro.

Assim, nada teve de casual a operação midiática para divulgar a chegada do primeiro lote da vacina contra a Covid-19, com 120 mil doses, com a presença do governador João Doria (PSDB), na manhã desta quinta (19).

No governo estadual, há grande apreensão em relação ao que consideram má vontade política de Bolsonaro com o que chama da “vacina do Doria”, seu principal adversário político hoje e presidenciável para 2022.

 

GUARULHOS, SP, 19.11.2020 – VACINA-CORONAVÍRUS – O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, e o secretário estadual de Saúde, Jean Gorinchteyn, durante o desembarque de 120 mil doses da vacina chinesa Coronavac, no aeroporto de Cumbica, em Guarulhos (Grande São Paulo), na manhã desta quinta-feira (19). (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

 

Ela foi expressa diversas vezes, mas o caldo desandou no episódio em que a Anvisa suspendeu os testes da Coronavac sem se comunicar antes com o Instituto Butantan, patrocinador da pesquisa da fase 3 (final) da vacina no Brasil e local onde ela será produzida no ano que vem.

Ali, a infame celebração de Bolsonaro fez história, quando ele disse que ganhara mais uma contra o tucano com a paralisação que se deveu a uma morte não relacionada com a vacina, selou a percepção de que o presidente vai interferir o possível na liberação e distribuição da Coronavac.

Aliados de Doria afirmam considerar que a China deverá fazer o registro formal do imunizante, produzido pela Sinovac, nas próximas semanas. Hoje ela já tem uma autorização provisória de uso emergencial em alguns grupos, e os testes até aqui foram favoráveis.

Com a chegada das doses ao Brasil, e estão planejadas 6 milhões delas prontas e 40 milhões na forma de insumos as serem formulados no Butantan até o fim do ano, e a China a utilizando de forma ampla, o Palácio dos Bandeirantes acredita que ficará muito difícil a posição pública da Anvisa.

Bolsonaro até relativizou sua posição sobre a Coronavac depois da debacle política da semana passada, mas já achou uma nova trincheira: a compra do imunizante, que seria muito caro, e sua distribuição pelo Sistema Único de Saúde.

Por outro lado, os tucanos paulistas enfrentam um problema de sua própria lavra: a questão do aumento de casos da Covid-19 na capital e o adiamento da revisão do plano de reabertura econômica para 30 de novembro, um dia depois do segundo turno.

Ronda o Bandeirantes o “fantasma do Caradiru”, uma referência ao massacre de 111 presos na Casa de Detenção, ocorrido na noite de 2 de outubro, uma fria sexta-feira antes do pleito municipal de 1992.

Num episódio notório, o governo estadual do então PMDB só admitiu a extensão do massacre pouco antes do fechamento das urnas, no domingo (4). Embora tenha negado que a medida tentaria favorecer a candidatura governista de Aloysio Nunes Ferreira à prefeitura paulistana, que fracassou, o senso de estelionato eleitoral estava colocado.

Adversários de Bruno Covas (PSDB) têm tentado associar o adiamento a um eventual favorecimento ao prefeito tucano da capital.

No Bandeirantes, a situação é complexa, já que segundo a Folha de S.Paulo ouviu de pessoas com conhecimento do tema, a revisão do chamado Plano São Paulo na verdade abriria ainda mais regiões do estado.

Há uma argumentação técnica para o adiamento, que foi o problema nos dados do sistema do Ministério da Saúde. Integrantes não-partidários do comitê de combate à Covid-19 dizem que a decisão de adiar é defensável.

Mas o crescimento apontado em internações em São Paulo, que Covas não reconhece como uma segunda onda, faz integrantes do governo discutir se não é o caso de tratar mais explicitamente do problema justamente para evitar acusações de manipulação política.

Se forem anunciadas medidas restritivas só após o fim das eleições, com ou sem justificativa racional a recriminação será inevitável, ampliando as nuances políticas da crise sanitária do novo coronavírus.