Ao menos 15 candidatos nas eleições municipais deste ano foram assassinados no país desde o dia 17 de setembro, primeiro dia após o fim das convenções realizadas pelos partidos que oficializaram as candidaturas.

Foram mortos 14 candidatos a vereador e um candidato a prefeito em cidades de interior em 12 estados, o que significa uma média de assassinato ligado à eleição a cada três dias.

Ainda foram registrados no mesmo período ao menos 19 tentativas de assassinato de candidatos com armas de fogo. Em parte dos casos, os candidatos chegaram a ser atingidos por tiros, mas sobreviveram.

O levantamento é do professor Pablo Nunes, doutor em ciência política e coordenador do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania.

Desde janeiro, ele já registrou a morte de pelo menos 80 políticos no país, dentre pré-candidatos, candidatos, ocupantes e ex-ocupantes de cargos eletivos.

O caso mais recente de violência ocorreu nesta segunda-feira, quando o vereador Jair Barbosa Tavares, o Zico Bacana (Podemos), foi baleado durante evento de campanha na zona norte do Rio de Janeiro. Candidato à reeleição, ele foi atingido na cabeça e, segundo sua assessoria, está bem.

Foto: José Cruz/Agência Brasil

Zico é policial militar e foi citado no relatório final da CPI das Milícias da Assembleia Legislativa do Rio em 2008. No documento, ele foi apontado como líder da milícia que atuava em Guadalupe, na zona norte.

Pará, Paraíba e São Paulo estão entre os estados que mais registraram episódios de violência nesta campanha, quatro cada um. No Pará, houve um candidato a prefeito morto e três candidatos a vereador alvos de atentados. A Polícia Civil investiga se os crimes têm motivação política.

O candidato a prefeito do município de Dom Eliseu, no sudeste paraense, Adriano Sousa Magalhães (Solidariedade), foi assassinado no último dia 7 de outubro enquanto comia um lanche na rua.

Natural do Piauí, Magalhães era advogado e tinha 39 anos. Ele estava em um carrinho de lanche na rua quando foi abordado por um homem que desceu armado de um carro, efetuou vários disparos e fugiu.

Em nota, o partido Solidariedade disse que o crime se trata de “um duro golpe à democracia, que infelizmente ainda acontece em nosso país pela ganância do poder”.

Em Parauapebas, a cerca de 710 km de Belém, o vice-presidente do PRTB no Pará, Júlio César de, 32, foi vítima de uma emboscada, na estrada do povoado Carimã, quando retornava de uma agenda de campanha em outubro.

Segundo a Polícia, três pessoas atiraram contra a caminhonete que estava o candidato. Um dos disparos o atingiu o peito de Júlio César, que foi socorrido e levado para um hospital.

O candidato foi operado e retomou a agenda de campanha em comício na última sexta-feira (27). Neófito na disputa de cargos eletivos, Júlio César foi lançado às eleições desse ano por aliados do presidente da República, Jair Bolsonaro.

Também em outubro, a candidata à vice-Prefeita de Belém, Patricia Queiroz (PSC), que concorre as eleições na chapa com José Priante (MDB), sofreu um atentado.

A missionária e cantora gospel teve sua casa alvejada por diversos tiros na madrugada. Ela estava com o marido e o filho no local, mas ninguém ficou ferido.

Em nota, o governo do Pará informou que trabalha em conjunto com a Polícia Judiciária e que não descarta a hipótese de crime político.

“A apuração dos casos está sendo realizada sob sigilo. Uma comissão temporária foi instaurada com objetivo de averiguar, analisar, monitorar e deliberar acerca das informações referentes às infrações penais contra à vida, durante o pleito eleitoral de 2020”, diz a nota.

Em Minas Gerais, no fim de setembro, o assassinato do candidato a vereador na cidade de Patrocínio Cássio Remis (PSDB) causou comoção e gerou repercussão nacional.

Foto: Reprodução/Twitter

A vítima, ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal, estava gravando um vídeo ao vivo nas redes sociais em tom de denúncia sobre o prefeito Deiró Marra (DEM), mas foi interrompido pelo irmão do prefeito e secretário de Obras do município, Jorge Marra.

Cássio tentou recuperar o celular que havia sido levado por Jorge. Chegou a se jogar em frente ao carro e seguiu até a sede da Secretaria Municipal de Obras. No local, os dois discutiram e ele acabou sendo morto a tiros.

Preso três dias depois do crime, Jorge foi denunciado pelo Ministério Público de Minas Gerais por homicídio qualificado por motivo torpe e porte ilegal de arma.

A defesa de Jorge Marra impetrou um habeas corpus, mas a Justiça negou liminarmente. O advogado Sérgio Leandro, responsável pela defesa do denunciado, afirmou que ainda não há data para julgamento do mérito.

No município de São José da Coroa Grande, no litoral sul de Pernambuco, a Polícia Civil ainda investiga o assassinato do candidato a vereador Valter Rafael da Silva (DEM).

Ele era conselheiro tutelar e estava afastado das funções para tentar uma vaga na Câmara Municipal. O assassinato ocorreu na tarde do dia 24 de setembro. Ele estava trafegando numa motocicleta quando foi atingido por disparos de pistola calibre 380.

Em nota, a Polícia Civil de Pernambuco informou que todas as linhas de investigação estão sendo levadas em consideração. Comunicou que seria prematuro, neste momento, definir a motivação do homicídio.

Na cidade de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, dois candidatos a vereador foram assassinados em um período de dez dias.

No dia 1º de outubro, o candidato a vereador Mauro Miranda da Rocha (PTC), 41, foi morto a tiros no Bairro Rancho Fundo. A Polícia Civil do Rio de Janeiro investiga os dois crimes.

Pouco mais de semana depois, Domingos Barbosa Cabral, 57, candidato a vereador pelo DEM foi morto a tiros quando estava em um bar no bairro do Cabuçu. Ele foi abordado por um grupo de homens que usava toucas ninjas.

Nos dois casos, os candidatos responderam a processos na Justiça comum. Mauro Miranda chegou a ser preso por porte ilegal de arma. Já Domingos Cabral respondia por extorsão em um processo que ainda não havia sido julgado.

Em Caucaia, cidade da Grande Fortaleza, o candidato a vereador Evangelista de Souza Jerônimo (PSB), 51, foi achado morto dentro de casa ferido com golpes de faca no último domingo (25).

Cinco dias depois, na última sexta-feira (30), 0 Ministério da Justiça e Segurança Pública autorizou o envio de agentes da Força Nacional para reforçar a segurança na cidade durante as eleições.

Também foram mortos os candidatos João Carraro em Flores da Cunha (RS), Denis Viana em Embu das Artes (SP) e Leide Rodrigues em Ninheira (MG), Odair Lima em Amélia Rodrigues (BA), José Júlio em Camocim de São Félix (PE), Joel Henrique Macedo em Salvaterra (MA), Valdinei Brito em Nova Canaã do Norte (MT), Bernardo Milbradt em Cruz Machado (PR) e Adervan Rocha em Flexeiras (AL).

O professor Pablo Nunes, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, afirma que 2020 está sendo particularmente mais violento do que anos eleitorais anteriores.

Contudo não é possível precisar quantos e quais crimes tiveram a disputa política como motivação. No Brasil, afirma o professor, nem 10% das mortes violentas chegam a uma resolução de quem cometeu e por quais motivos.

“As investigações podem durar três, quatro anos, e muitas vezes os inquéritos são muito frágeis”, afirma o professor, que cita o assassinato da vereadora Marielle Franco, em 2018, como o retrato de “engrenagem em que políticos são mortos e tudo cai no balaio da impunidade”.

No caso dos políticos assassinados neste ano eleitoral, diz o professor, há um padrão de candidatos mortos em emboscadas com tiros em locais públicos, o que sugere a possibilidade de execução na maior parte dos casos.