Apesar de Jair Bolsonaro ter cancelado a coletiva em Davos nesta quarta-feira, 23, ele não deixou de falar com a imprensa. O presidente deu uma entrevista para a TV Record e fez um balanço sobre sua participação em Davos. Foi perguntado sobre a situação de seu filho, Flávio Bolsonaro, que se vê envolvido com denúncias sobre Fabrício Queiroz.

“Não é justo atacar o garoto para me atingir”, disse o presidente eleito sobre o senador eleito, de 37 anos de idade. “Acredito nele. Há uma pressão enorme em cima dele para tentar me atingir. Ele teve seu sigilo quebrado, fizeram uma arbitrariedade com ele nessa questão”, afirmou.

O presidente Jair Bolsonaro e o presidente da Colômbia, Iván Duque, fazem declaração conjunta sobre governo da Venezuela – Alan Santos/ PR

Mais cedo, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, negou que o presidente  tenha ficado incomodado com as críticas ao seu discurso na abertura, na terça-feira, do Fórum Econômico Mundial. Segundo ele, o governo já tinha ideia de que haveria críticas em relação à duração curta do discurso. “É sempre assim. Se o discurso for longo, se estendeu demais, tinha gente dormindo na plateia. Se é curto, deixou de dar detalhes”, disse.

O ministro reafirmou o que disse na terça ao Broadcast/Estadão, de que a proposta do texto do discurso era a de que cada parágrafo tivesse uma “ideia de força”, “coerente com tudo que ele (Bolsonaro) tem falado”.

Para o ministro, o auditório da abertura, pelo fato ser heterogêneo em termos de conhecimento do perfil do povo brasileiro, não era o ideal para apresentar detalhes da proposta de reforma da Previdência.

“Como vai apresentar detalhes da reforma da Previdência num auditório que desconhece esse perfil da população brasileira? Como vai explicar idade e não sei o quê. É uma coisa inexplicável. É jogar conversa fora”, disse o ministro, que foi “escalado” para explicar os motivos de o presidente ter cancelado a entrevista que daria no Fórum Econômico Mundial, marcada para 16h (13h de Brasília). Heleno acabou dando uma entrevista no hotel onde o presidente está hospedado.

Ao ser questionado de outras aberturas no Fórum terem durado mais tempo, Heleno respondeu que o presidente tem dito que iria fazer um “Brasil diferente”. “Para fazer tudo igual, a gente vai embora para casa”, disse. Ele insistiu que a ideia do discurso curto era deixar uma mensagem muito clara.

“Se todos pensassem igual estaríamos numa grande Cuba. As pessoas pensam diferente”, disse Heleno ao rebater avaliação de que Bolsonaro perdeu um grande oportunidade de falar os projetos para o País. Ele destacou que o governo aceita todos os pensamentos, contrários e a favor. “É assim que funciona uma democracia”, reforçou.

O ministro negou que o comportamento da imprensa tenha incomodado o presidente.

Questionado por um repórter sobre o fato de antes da entrevista o próprio general ter dito que o comportamento da imprensa incomodava, o ministro admitiu que sim. “De vez em quando incomoda. É óbvio que incomoda. Vocês não sabem por que o comportamento da imprensa às vezes incomoda? Incomoda todo mundo Vocês são profissionais.”

Esquerda

Já no final da entrevista, o ministro acabou respondendo uma pergunta sobre a fala do presidente, de que esperava que a esquerda ficasse “fora da América Latina”. O repórter questionou o ministro de que essa fala não era democrática e Heleno respondeu com uma outra pergunta: “Você já ouviu alguma edição do Foro de São Paulo, que todo mundo considerava um padrão de democracia?”

O ministro disse que a esquerda presente como oposição é válida e natural. “É fundamental que exista oposição. A famosa dialética. O que ele (Bolsonaro) está colocando agora é uma sensação de que aqueles que passaram alguns anos combatendo o que a esquerda fez na América Latina, que não resolveu nada, agora têm que dar uma chance”, explicou.

Na sua avaliação, a esquerda muitas vezes não admite alternância de poder.