Um homem que agrediu a avó da menina capixaba grávida após estupro, em agosto, para demover a família da ideia de abortar usou o nome da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves na abordagem e se encontrou com a comitiva médica que tentava evitar o procedimento. Ele também expôs informações sigilosas sobre o caso.

(Foto: EBC)

 

Pedro Teodoro, fundador do Projeto Família Cristã na cidade de São Mateus (ES) e hoje candidato a vereador pelo PSL, abordou a família da vítima no dia 14 de agosto sob o pretexto de oferecer uma oração. Estava acompanhado de Ronaldo José de Souza, ex-coordenador diocesano da Renovação Carismática Católica, e sua mulher, Cristina.

O objetivo era pressionar a avó, representante legal da menina, a desautorizar o aborto, previsto no Código Penal quando a gravidez resulta de estupro ou impõe risco de vida para a mãe, como era o caso. Tanto a avó quanto a criança haviam manifestado desejo de interromper a gravidez. Ao resistir às investidas do grupo, a avó passou a ser agredida verbalmente e passou mal.

Testemunhas relatam que, na véspera do ataque, Pedro Teodoro manteve encontro com a comitiva de médicas identificadas como sendo do HSFA (Hospital São Francisco de Assis) de Jacareí (SP), em uma conhecida padaria de São Mateus.

Conforme a Folha de S.Paulo revelou, a comitiva foi apresentada pela representante do MMFDH, Alinne Duarte de Andrade Santana, como de conhecimento da ministra, em reunião na sede da prefeitura, em 13 de agosto. A equipe expôs plano pelo qual a menina ficaria em um abrigo para gestantes, acompanhada por um familiar, e teria acompanhamento do HSFA até o parto.

A comitiva era composta por Mariângela Consoli de Oliveira, assistente social, presidente da Associação Guadalupe e ligado ao movimento Brasil Sem Aborto; Janaína Aparecida Schineider Cassoti, infectologista com passagens pelo Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes (Hucam), de Vitória; Renata Gusson Martins, farmacêutica e bioquímica ligada ao Movimento Mulheres pela Vida; e Rafaela Lima Santos, residente de urologia da Faculdade de Medicina do ABC.

Em áudios obtidos pela Folha de S.Paulo, Pedro pressiona a avó a vetar o o aborto, dizendo que, como familiar da criança, ela é a única que tem esse poder de decisão. Para isso, argumenta que o procedimento de aborto é similar a um parto normal sem anestesia.

“O procedimento que eles querem fazer agora é o quê? É levar ela e induzir um parto normal. Tem que aplicar uma medicação na vagina dela, para induzir o parto, ela vai ter como se estivesse dando à luz normal, sentir contrações, sentir dor”, afirma ele. “É mais um trauma”, acrescenta uma mulher que fazia parte da comitiva de Pedro.

O procedimento, no entanto, é realizado com anestesia e difere de um parto.

Em seguida, ele afirma colocar à disposição da avó uma equipe de especialistas. “[Eles] sabem lidar com esse tipo de situação e tão dando toda a garantia que fazer o que eles querem fazer agora é mais risco do que levar a gestação à frente e fazer uma cesárea com anestesia, com tudo correto.

“O homem diz falar “em nome do projeto”. “Eu tenho um corpo de médicos inteiro em São Paulo, em Brasília.” “Tenho juízes que são cristãos, que são do bem, que estão do nosso lado”, afirma Pedro, possivelmente em referência à Anajure, a Associação Nacional de Juristas Evangélicos criada por Damares.

Pedro afirma então que conversou “ontem com a assessora da ministra Damares [dia 13, quando Alinne Duarte esteve na reunião em São Mateus]”.
“Só pra você saber o nível de informação que eu tenho aqui. A ministra Damares!”, afirma.

Uma tia da criança entra então na conversa e reforça que a família vai fazer de tudo para conserguir o aborto. Ela afirma que é “uma criança gerando outra criança” e que o bebê vai ser produto “de um monstro”. A tia questiona também como Pedro e sua comitiva obtiveram informações sigilosas sobre o caso: “Imprensa nenhuma teve acesso ao nome dela, e vocês estão sabendo”.

“Porque cê vê o que Deus tá querendo fazer. É o que Deus tá querendo fazer”, responde Pedro Teodoro. A interrupção da gravidez foi autorizada na noite do dia 14 pela Vara da Infância e da Juventude de São Mateus. Como o Hucam se recusou a realizar o procedimento, a menina foi transferida para o Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam), no Recife (PE), onde o aborto foi realizado no dia 18.

Procurado, Pedro Teodoro se recusou a falar com a Folha. Ele é alvo de ação civil pública que investiga seu acesso a informações sigilosas sobre o caso após publicar em redes sociais e a identificação da menina e o nome do hospital no Recife quase ao mesmo tempo que a ativista Sara Giromini, também conhecida como Sara Winter.

A exposição fez com que a criança fosse inscrita no Programa de Proteção a Testemunhas, tendo seu nome e endereço alterados. A família da vítima também o processa por danos morais.