O Governo do Paraná, por meio da Secretaria de Educação do Estado (Seed), admitiu ter usado dados internos para enviar um vídeo contra a greve de professores a pais de alunos via mensagem de texto. A distribuição em massa do conteúdo ocorreu em duas ocasiões: nos dia 28 de maio e 1º de junho.

O vídeo chegou aos pais e responsáveis de alunos matriculados na rede estadual de ensino por meio de SMS. A mensagem de texto seguida do link do vídeo afirma: “Proteja seu filho ele pode estar em risco. Assista ao vídeo! [sic]”. O número usado pela pasta é o mesmo utilizado para se comunicar com os pais dos jovens.

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Mensagem de texto com link do vídeo recebido pelo responsável de um aluno da rede estadual de ensino – Foto: imagem cedida à Banda B

Com erros ortográficos na legenda e no próprio SMS, o vídeo ilustrado com conteúdos de banco de imagens é narrado por um homem, que diz: “Este é um recado pra você, pai, e pra você, mãe… Pra você que se preocupa dia e noite com seu filho. Esta é a hora pra ficar ainda mais alerta. Sabemos que a APP-Sindicato anunciou uma greve e está espalhando desinformação entre professores e alunos”.

Durante o vídeo, a Seed acusa a entidade de promover “manifestações repletas de violência” e que tais protestos poderiam colocar os alunos em risco. Além disso, destaca que os estudantes não devem ser “expostos ao caos e aos perigos de manifestações partidárias”.

Segundo argumenta a pasta, não havia motivo que justificasse a paralisação. A greve dos professores contrários ao projeto de lei que terceiriza a gestão administrativa de 204 colégios estaduais foi anunciada pela APP-Sindicato no dia 25 e teve início no dia 3 de junho — quando levou mais de 20 mil pessoas às ruas de Curitiba, segundo a organização. A paralisação, contudo, foi encerrada pela entidade um dia após o Governo do Paraná, por meio da Procuradoria Geral do Estado (PGE), pedir a prisão imediata da presidente da APP-Sindicato, Walkiria Olegário Mazeto.

Em nota divulgada à imprensa anteriormente, a Secretaria de Educação do Estado havia dito que o vídeo servia como um alerta “sobre os riscos que estudantes podem enfrentar em manifestações, promovendo a reflexão e prevenindo situações adversas”. Procurada pela Banda B nesta sexta (7), a secretaria enviou outra nota:

“A Secretaria Estadual de Educação do Paraná (SEED-PR) vai abrir sindicância para apurar as circunstâncias do ocorrido. Ressalta-se que a pasta zela pela transparência.”

Secretaria de Educação do Estado do Paraná.

A reportagem questionou quantas pessoas receberam o vídeo; como o funcionário responsável pelo disparo da mensagem teve acesso aos dados dos pais e responsáveis; quando o vídeo foi produzido; por que não é citado o nome da secretaria durante a exibição do comunicado; e se a pasta tem ciência sobre o possível descumprimento da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais). A Seed, porém, preferiu não responder as perguntas.

O vídeo teria sido disparado por um funcionário da Seed, contratado por meio de um convênio com a Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) e a Fundação de Apoio à Pesquisa, ao Ensino e à Cultura (Fapec). A Banda B procurou a UFMS para comentar o caso, mas não obteve um posicionamento até a publicação deste texto. A reportagem tenta contato com a Fapec a fim de entender o intuito do convênio estabelecido entre órgão do Governo do Paraná e as instituições.

‘Conduta de grupos extremistas’

Em comunicado, a APP-Sindicato se referiu ao disparo do vídeo para pais e responsáveis de alunos como “apócrifo” e afirmou que o governo estadual “utilizou conduta de grupos extremistas” para tentar criminalizar a greve aderida pela categoria.

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Manifestantes que apoiam a greve de professores marcham em direção à Assembleia Legislativa do Paraná – Foto: Ernani Ogata

Segundo a entidade, a secretaria usou informações falsas e alarmitas para atacar a greve e os próprios docentes. “Esse tipo de estratégia é comumente utilizada por grupos extremistas ao redor do mundo, para provocar crises políticas, atacar direitos de minorias sociais e espalhar o caos. Até o momento, não havia registro do uso desse tipo de iniciativa ilegal por uma instituição pública do Paraná, em uma democracia”, afirmou a APP-Sindicato.

A nota afirma que o caso será denunciado à Organização Internacional do Trabalho (OIT).

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Governo do Paraná admite ter enviado vídeo contrário à greve de professores para pais de alunos; assista

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